O corpo como hardware. Artigo de Paolo Benanti

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27 Abril 2021

 

"Os instrumentos da biotecnologia de ponta e o biohacking revelam uma nova forma de autarquia e anarquia biológica."

A opinião é de Paolo Benanti, teólogo e frei franciscano da Terceira Ordem Regular, professor da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e acadêmico da Pontifícia Academia para a Vida.

O artigo foi publicado em L’Osservatore Romano, 24-04-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o artigo.

 

A ideia de modificar o corpo humano não é uma novidade. No passado, as tatuagens eram usadas em diversas culturas. Aquelas que atualmente consideramos como as tatuagens mais antigas do mundo foram encontradas no corpo de duas múmias egípcias que remontam a 5.000 anos atrás. Elas retratam um touro com chifres muito longos, uma ovelha norte-africana e motivos (talvez tribais) em forma de S.

A descoberta é importante, porque retrodata a prática das tatuagens em pelo menos 1.000 anos. Até agora, acreditava-se que as tatuagens mais antigas eram as da múmia de Ötzi (3370 e 3100 a.C.).

Essa busca, hoje, acha concebível uma nova fronteira de modificação do corpo graças às técnicas avançadas de edição genética.

Em outubro de 2017, Josiah Zayner, um bioquímico que havia trabalhado para a Nasa, se tornou a primeira pessoa conhecida por ter modificado os seus genes com Crispr. O experimento de Zayner tinha como objetivo aumentar a força muscular.

Em 2004, uma prestigiosa revista científica, a New England Journal of Medicine (no número 350-26) publicou um artigo no qual falavam de um menino alemão de 5 anos, portador de uma mutação no gene da miostatina, que apresentava um enorme desenvolvimento muscular. A ideia, então, era remover o gene responsável pela produção da miostatina, proteína que limita o crescimento muscular nos seres vivos.

Um experimento semelhante, em 2015, demonstrou que isso funciona também nos cães da raça beagle, cujo genoma é modificado na fase embrionária. Durante um congresso sobre a engenharia genética humana transmitido ao vivo pelo Facebook, Zayner pegou um frasco de DNA modificado e uma seringa, e injetou o líquido em si mesmo ao vivo.

Agora, seguindo os seus passos, outros biohackers estão se preparando para dar o grande passo e se “armar” com os próprios genes. Parafraseando as suas palavras, o propósito desse gesto é científico, mas também cultural.

A intenção de Zayner é possibilitar que outras pessoas também modificam o próprio DNA. O gesto gerou repercussão, pelo modo como conseguiu forçar as fronteiras da experimentação genética faça-você-mesmo.

Isso nos deixa atônitos e perplexos. E, embora Zayner tenha admitido que os seus experimentos não mudaram visivelmente o seu corpo, os efeitos sociais poderiam ser devastadores: inúmeros especialistas afirmam que há grandes riscos no fato de se injetar esses kits. Mas, para Zayner, que também quer fazer uma ação política, independentemente do fato de o experimento funcionar ou não, o biohacking está fora de questão.

O que ele está tentando demonstrar, de acordo com o que ele afirmou em uma entrevista ao BuzzFeed News, é que instrumentos da biotecnologia de ponta como o Crispr deveriam estar disponíveis para as pessoas fazerem o que quiserem. Uma nova forma de autarquia e anarquia biológica.

A ideia de modificar o próprio corpo, de mudar a nossa natureza humana, não é fruto apenas da possibilidade técnica (o advento do Crispr), mas também do desenvolvimento de uma cultura adequada: aquilo que chamamos de “Digital Age”.

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