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19 Abril 2021

 

"A ganância diz muita coisa sobre a ideologia das classes dominantes atuais, até mesmo daquelas que se envergonham em nomeá-la. Na realidade, toda a história do péssimo desempenho da campanha de vacinação europeia fala de ganância".

A opinião é de Marco Revelli, sociólogo e cientista político italiano, professor da Universidade do Piemonte Oriental, em artigo publicado por Il Manifesto, 20-10-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

“Greed is good!” Lembram-se da exclamação de Michael Douglas, que interpretou Gekko, naquele grande filme de Oliver Stone, “Wall Street”, sobre o “dinheiro que nunca dorme”: “A ganância é boa!”?

Ela voltou a ressoar nos últimos dias, em uma videoconferência reservada para os parlamentares ingleses, pela boca de Boris Johnson, que chegou a proclamar que a vitória sobre a Covid, obtida com a vacina, se deve ao “capitalismo e à ganância”.

O primeiro-ministro inglês não disse que é a essa mesma ganância que se deve o recorde de mortes por ele colecionado na Europa na fase anterior, em que se deixou que o vírus corresse solto a fim de não sacrificar os negócios. Depois, ele também teve que invocar o cancelamento daquela verdade inconveniente, quando lhe apontaram que a Europa poderia recebê-la mal, atribuindo justamente à ganância britânica o próprio déficit da AstraZeneca, que ela também havia financiado abundantemente (aparentemente em 95%) e que viu ser apossada pela ganância do outro lado do Canal da Mancha.

No entanto, falsificando a questão da vitória sobre o vírus, a ganância diz muita coisa sobre a ideologia das classes dominantes atuais, até mesmo daquelas que se envergonham em nomeá-la.

Na realidade, toda a história do péssimo desempenho da campanha de vacinação europeia fala de ganância. Ganância dos senhores da Big Pharma, que, abundantemente financiados pelos poderes públicos, privatizam despudoradamente os lucros, reservando, assim, doses aos melhores ofertantes até no mercado ilegal, e traem impunemente os compromissos contratuais ao selecionarem arbitrariamente quem se salvará e quem não.

Ganância dos Estados mais fortes na tentativa de iniciar negociações separadas com os fornecedores às custas dos outros. E depois – ampliando o campo – ganância dos países ricos, com a Europa na frente (que na OMC se manchou com o imperdoável crime de votar contra a proposta dos países desfavorecidos de suspender as patentes dos medicamentos antivírus), em relação aos pobres.

Basta olhar para o ranking global da cobertura vacinal, com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha na frente (com cerca de 60% da população vacinada com pelo menos uma dose) e, no fim, a Namíbia (com 0,1%) e Zâmbia (com 0%).

No entanto, todos os epidemiologistas com um pouco de ideias na cabeça dizem que, se não se erradicar o vírus em todo o mundo, nunca estaremos seguros, correndo o risco de que as variantes prosperem nas periferias do globo.

Mas, como se sabe, a ganância é uma má conselheira, irmã gêmea do masoquismo. Também não podemos esquecer, enfim, a ganância dos Senhores da terra, aquele ínfimo grupinho de bilionários que, enquanto uma boa parte da população mundial recuava, continuava enriquecendo sem medida: segundo o último relatório da Oxfam dedicado ao vírus da desigualdade, desde março de 2020, a riqueza dos 36 bilionários italianos classificados como tais cresceu em mais de 45,7 bilhões de euros, e a dos bilionários mundiais atingiu o recorde histórico de 11,95 trilhões.

Ainda de acordo com a agência, os 540 bilhões acumulados pelos 10 maiores super-ricos do mundo no ano da pandemia seriam suficientes para “garantir um acesso universal à vacina e assegurar que ninguém caia na pobreza por causa do vírus”.

Depois, quando descemos do vasto campo do planeta para a escala menor da nossa casa, a música não muda. Não só e não tanto pelo indecente espetáculo do arlequim regional, cada governador que se acotovela para disputar os favores do general logístico. Mas também e sobretudo pelo risco mal calculado das reaberturas e pelo caso do Recovery Plan, ou, como se diz no jargão político, do PNRR [o Plano Nacional de Retomada e Resiliência da Itália], ou seja, daquele “plano nacional” que, ao ostentar no seu próprio seu nome o tema da Resiliência (ou seja, do retorno de um objeto contundido à sua forma anterior), não promete nada de bom em termos de mudança de paradigma e de remédio para os muitos erros anteriores que disseminam a história do triunfo da lógica empresarial aplicada ao bem público.

Um caso grotesco na sua opacidade, quando ainda hoje, a dez dias do seu prazo, sabe-se pouco ou nada dos seus conteúdos, lacrados nas salas do Palácio Chigi e nas gavetas do ministro Franco, depois que o pobre Giuseppe Conte havia sido crucificado porque o não compartilhava, há quatro meses, urbi et orbi, o seu próprio “plan”. E depois que o único material fornecido ao Parlamento (que a oposição de ontem, hoje em maioria, intimava a envolver na discussão) são os documentos elaborados por aquele Executivo dinamitado com a acusação de reticência sobre os projetos.

Bem, olhando para dentro da caixa preta guardada por Draghi ou, melhor, tentando interpretar as fracas mensagens que dela saem, percebe-se que aqui também a ganância desempenha um papel consistente. Que aquele “pequeno tesouro” – que, para dele se assegurar, a Confindustria de Bonomi e todo o exército dos velhos e novos depredadores do país haviam desencadeado imediatamente uma guerrilha contra o governo amarelo-vermelho – parece agora muito, mas muito mesmo ao alcance das suas mãos.

Pode significar algo que o primeiro ato, fulminante, foi o início de 57 grandes obras com comissários especiais vinculados, que são o instrumento-mãe de todas as especulações (aqui se trata de 83 bilhões [de euros]). Ou que se fale de revisão dos procedimentos de licitação? Ou que ainda se ative a retórica dos “investimentos” em contraposição aos subsídios e/ou apoios (única forma de garantir a sobrevivência da galáxia molecular dos pequenos ceifados por um ano de quaresma)?

Veremos o que surgirá a partir disso quando o homem da providência abrir o seu tabernáculo. Mas é lícito duvidar que daí surja algum espírito santo.

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