Um ano de pandemia: sem assistência psicológica para indígenas

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10 Abril 2021

 

Dez meses se passaram desde que Rita de Cássia, indígena do povo Macuxi, perdeu o marido para a Covid-19. Com José Adalberto, de 60 anos, ela teve três filhos e viveram juntos por 14 anos. Ambos testaram positivo para o novo coronavírus, em julho de 2020, e o sofrimento que enfrentaram ainda povoa os pensamentos dela. Adalberto passou sete dias internado, “num leito de hospital sem assistência nenhuma”. Ela sobreviveu, mas Adalberto morreu sem poder se despedir dos filhos.

A reportagem é de Ana Lucia Montel, publicada por Amazônia Real, 08-04-2021.

“Tudo isso que estamos vivendo vem abalando o psicológico das famílias indígenas, principalmente para quem tem filhos. A gente não tem assistência; eu pelo menos não tive assistência psicológica, nem eu nem meus filhos, nosso familiar faleceu, e ninguém está se importando com o que você está passando”, desabafa Rita de Cássia, moradora da comunidade Sol Nascente, no município de Pacaraima, em Roraima. A dor da indígena traduz mais uma forma de como o poder público brasileiro tem abandonado os povos originários. “Quem está perdendo seus parentes está ficando por isso mesmo.”

O governo federal delega à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, os cuidados dos povos indígenas, deixando para trás aqueles considerados não-aldeados ou que vivem em contexto urbano ou em territórios não demarcados. Mas a Sesai e os governos estaduais ou municipais, com as redes hospitalares e postos de saúde, apenas oferecem a atenção básica de saúde. Jamais se cogitou, em todo o Brasil, um serviço de assistência psicológica a sobreviventes e familiares da pandemia.

As lembranças da luta de José Adalberto, em defesa dos povos indígenas, é o que dá força para Rita continuar seguindo com os filhos. “Ele era uma pessoa que gostava muito dos movimentos sociais, de lutar pelas causas dos menos favorecidos”, lembra. Nascido na região das serras no município do Uiramutã, o macuxi migrou para a cidade aos 14 anos em busca de trabalho. Desde cedo, ele se envolveu nas lutas e trabalhou em vários movimentos indígenas.

Ao perceber a vulnerabilidade dos povos originários, o Conselho Indígena de Roraima (CIR) decidiu prestar assistência psicológica para as famílias de afetados pela pandemia. A procura tem sido gigante. Desde abril de 2020, já foram realizados mais de 220 atendimentos psicológicos para os povos indígenas do estado roraimense. Além da assistência psicológica nas comunidades, são entregues folders informativos sobre saúde mental, em português e na língua Wapichana.

A psicóloga Macuxi, Iterniza Pereira (Foto: acervo pessoal)


“Trabalhamos com conscientização, oferecemos esse suporte psicológico porque são pessoas que não estavam conseguindo lidar com toda essa situação, muitas famílias indígenas foram diagnosticadas com síndrome do pânico, passaram a ficar mais ansiosas, teve famílias indígenas que entraram em depressão”, relata a psicóloga Iterniza Pereira.

Antes da pandemia, o único atendimento prestado pelo CIR era realizado de forma coletiva, por meio de palestras e rodas de conversa, e mais voltado para jovens e mulheres. Com a chegada da Covid-19, a organização viu a necessidade de atender às famílias de forma individual, principalmente as que perderam alguém para a doença.

Há seis meses, Jeane Tomaz, indígena da etnia Wapichana e moradora da comunidade Surucucu, recebe a assistência psicológica oferecida pelo CIR, uma ajuda mais que bem-vinda. “É muito difícil, nós perdemos os nossos parentes. É difícil não poder se despedir de quem a gente ama. Muitas das vezes não sabemos como lidar com a situação, mas hoje me sinto melhor, à vontade para conversar, sendo escutada também”, diz.

Desde o início da contaminação do novo coronavírus, os povos indígenas sofrem com o luto diário e coletivo. Em Roraima, já foram confirmados 5.674 casos, e 120 óbitos entre os povos Macuxi, Pemon, Taurepangue, Wai Wai, Wapichana e Yanomami, além de Warao (estes, indígenas imigrantes da Venezuela) Como se não bastasse a dor da perda, eles ainda têm que lutar contra os impactos sociais e culturais que vem afetando suas tradições.

“Um exemplo é a quebra do ritual de despedida, onde as famílias não estão podendo fazer o velório. Antes do vírus, as famílias tinham o costume de compartilhar utensílios, gostavam de tomar a bebida indígena caxiri na mesma cuia, e hoje isso não pode mais ser compartilhado. Eles não fazem mais almoços comunitários onde reuniam as famílias, nem fazem mais suas comemorações tradicionais”, explica Iterniza.

A luta para enterrar os mortos

Cemitério em Boavista, onde estão sendo enterrados indígenas vítimas da Covid-19 (Foto: Emily Costa | Amazônia Real 25/06/2020)

“Para mim, os nossos parentes não foram enterrados com o seu povo por falta de conhecimento, falta de respeito, os brancos não conhecem as nossas realidades, eles não poderiam misturar o nosso direito com o povo da cidade, porque o nosso direito do povo tradicional é diferente, esse direito não foi respeitado, e está na lei brasileira, somos diferentes, nossas culturas são diferentes, nossos rituais são diferentes”, afirma Dário Kopenawa Yanomami, diretor da Hutukara Associação Yanomami (HAY).

Em 9 de abril de 2020, o Brasil registrou o primeiro óbito entre os povos indígenas, um jovem Yanomami de 15 anos. O jovem nasceu na Comunidade Helepe, na Terra Indígena Yanomami, mas estudava o ensino fundamental em uma escola da Comunidade Boqueirão, na Terra Indígena Boqueirão, dos povos Macuxi e Wapichana, no município de Alta Alegre, no norte de Roraima.

Desde então as lideranças indígenas lutam para que os corpos dos seus parentes sejam enterrados conforme o ritual de despedida de cada povo. “Nosso parente de 15 anos foi a óbito, o nosso parente morreu no hospital, onde tinha muitos médicos, remédios, oxigênio que poderia salvar nosso parente. O governo não cuidou bem do meu parente, isso mostra a falta de respeito, a falta de cuidados”, protesta Dário Yanomami, em entrevista à Amazônia Real, na semana passada.

Além da família do jovem de 15 anos, outros familiares de indígenas vítimas da Covid-19 enfrentaram a mesma luta, em Roraima. Entre 29 de abril e 25 de maio de 2020, três crianças recém-nascidas do povo Yanomami morreram em hospitais públicos. Os bebês foram enterrados no cemitério de Boa Vista sem autorização dos pais.

“Os nossos parentes que ficaram enterrados em Boa Vista estava muito errado, não fomos avisados, e até agora estão lá. Mas entramos na Justiça, estamos cobrando o Estado brasileiro, estamos cobrando os protocolos sanitários, e rebatemos esses sepultamentos dos nossos parentes que estão enterrados no cemitério”, informou o diretor da HAY. “Daqui para frente nossa luta é para resgatar os corpos dos nossos parentes para devolver para as suas famílias, para que realizem o choro, a cerimônia de cremação.”

Nada mudou um ano depois

Imagem de 2017 durante a posse da antiga coordenação do CIR: o vice-coordenador, Enock Taurepang; Edinho Batista de Souza; e Maria Betania (Foto : Divulgação/CIR)


“Não mudou muita coisa nesse um ano de pandemia, a gente continua se aguentando como pode, com as equipes totalmente sem material para fazer um trabalho como deve ser feito e acompanhar os casos de Covid-19 dentro das nossas comunidades”, descreve o vice-coordenador do CIR, Enock Taurepang.

Na comunidade Maruai, em Pacaraima, a 150 quilômetros de Boa Vista, 90% dos moradores sentiram os sintomas da Covid-19, febre, vômito, dificuldades para respirar, segundo o presidente da Associação dos Povos Indígenas de Roraima (Apir), Jeferson Ferreira . Só no final da primeira onda de contaminação que uma equipe médica passou pela comunidade, acrescentou Ferreira.

“Continuamos fazendo o possível para sobreviver a essa segunda onda da Covid, muitos parentes que foram internados no Hospital Geral de Roraima (HGR) não retornaram para suas comunidades, nem a família pode fazer o sepultamento conforme as nossas tradições”, disse Ferreira. “Quando uma equipe vinda de Pacaraima passou pela comunidade já tinha muita gente assintomático a Covid, mesmo assim ainda foram confirmados 20 casos lá dentro da comunidade, no final da primeira onda de contaminação.”

Nem mesmo depois de um ano de pandemia, com todas as mortes e casos confirmados, as autoridades foram capazes de criar um plano de atendimento humanizado voltado para os povos indígenas. “Enquanto Sesai não existe um trabalho que venha surtir efeito dentro das comunidades”, desabafa Taurepang.

O que houve, como no resto do Brasil, foi tentar implementar uma estratégia de isolamento social e distanciamento. “Isso foi o protocolo dos brancos que chegou nas nossas aldeias. A nossa ideia do povo Yanomami é que podemos fugir para o mato para se esconder 30 dias, essa é a nossa tradição”, esclareceu Dário Kopenawa Yanomami.

Mas mesmo esse protocolo influenciou o comportamento entre os indígenas. Dário cita que os parentes ficaram com receio de andar nas comunidades para transmitir o vírus. “Nas aldeias onde essas informações não chegaram, eles estão andando nas comunidades, caçando, trabalhando e pescando, mas onde o vírus chegou, todos estão isolados.” A solução, proposta por eles próprios, foi criar barreiras sanitárias, ainda assim insuficientes.

“As barreiras não foram suficientes, é muito complexo. Nós queremos barrar, mas é muito difícil para as pessoas ficarem isoladas dentro do território, todos precisam comprar seus mantimentos. Estamos na luta buscando meios de se prevenir”, explica Dário Yanomami.

As marcas da Covid-19

Enfrentamento da covid na TI Raposa Serra do Sol em Roraima (Foto: Caique Souza/ ASCOMCIR)

Neste um ano de pandemia, 12 professores indígenas morreram de Covid-19. Todos estavam na ativa. Fausto Mandulão foi um deles. Liderança indígena e pioneiro na luta pelo amplo acesso a uma educação de qualidade para os povos indígenas, Mandulão teve uma infância difícil, precisou se esforçar muito para estudar e então se tornou professor. “Essa dificuldade na vida do estudo fez com que ele se tornasse um militante da educação escolar indígena diferenciada”, lembra Juliana Mandulão, filha de Fausto.

“Meu pai viu e viveu toda uma problemática, uma educação voltada para embranquecer o índio. Por isso ele defendia essa diferença de educação para nós, a população indígena, acreditava muito na construção de um mundo melhor para as futuras gerações”, diz Juliana. O professor Mandulão faleceu em junho de 2020.

“Nós perdemos muitos professores, e os que continuam na luta estão desgastados fisicamente e principalmente psicologicamente. Muitos não conseguem nem pegar em uma caneta, um pincel para escrever no quadro, a força física ficou muito debilitada. Nesse momento, nós enquanto sociedade não podemos cobrar nada desses profissionais, mas sim acolher”, afirma Jeferson Ferreira, também professor, da escola estadual indígena José Joaquim, na comunidade Maruai.

“Professores que continuam na ativa estão com sequelas, e essa é nossa preocupação: professores doentes. Não sabemos quando vão recuperar a sua saúde física”, afirma a professora e coordenadora-geral da Organização de Professores Indígenas de Roraima (Opir), Edite da Silva.

A medicina tradicional

Enfrentamento da covid na TI Raposa Serra do Sol em Roraima (Foto: Caique Souza/ ASCOMCIR)

Quando os primeiros casos de coronavírus apareceram na região da Lua, no município de Bonfim (RR), colocar em prática a sabedoria medicinal indígena era, senão a melhor, a única possibilidade. “Esse Covid ‘veio’, então resolvendo tudo com a medicina tradicional, nas regiões, nas comunidades. Eu acredito que a medicina tradicional está envolvida em todo lugar, porque já existe bem antes dessa pandemia. É algo trazido pelos pajés, que faziam banhos caseiros, xaropes para diarreia, vômito, para todo tipo de doença a medicina tradicional funciona”, diz Oneide Gomes, do povo Wapichana, coordenadora estadual do Distrito Sanitário Indígena Leste (Dsei) Leste.

Oneide conta que tudo que aprendeu da medicina tradicional vem de seus antepassados, que criaram seus rituais de curas vindo da natureza. “Os nossos antepassados e anciãos sobreviveram em uma época onde não havia médico. Eu agradeço aos meus avós por terem me ensinado a medicina tradicional, muitas coisas eu acredito que seja só pela força dessa nossa medicina que hoje está mais valorizada”, diz.

Mesmo com a vacina contra o coronavírus, que já chegou, Oneide acredita que a medicina tradicional tem sustentado os povos indígenas na luta contra a Covid-19. “A vacina é importante, sempre falo por aí nas palestras que vou, precisamos nos imunizar. Mas foi criada pelo povo branco. Já a medicina tradicional está em todo lugar, nas comunidades, nas regiões, fazemos xaropes, lambedor, banhos, e temos os nossos rituais, que é algo trazido pelos nossos antepassados que nos protege.”

O Dsei Leste já recebeu um total de 53.880 vacinas, para atender toda a população indígena, que hoje está em 23.819 de um total de 53.290 cadastrados no distrito.

“Com as primeiras doses aplicadas temos 19.696 indígenas, o que equivale a 83% de cobertura de uma meta de 90%. Com as segundas doses, temos 10.673, ou seja 45% e em andamento, lembrando que no caso dos Dseis toda população acima de 18 anos é vacinada, com algumas exceções como puérperas, lactantes, gestantes e pessoas sintomáticas no momento da imunização, que não recebem a vacina”, esclareceu o epidemiologista do Dsei-Leste, Kenysson Rodrigues.

Em nota enviada à Amazônia Real, a Secretaria de Saúde do Estado de Roraima informou que o estado possui 89.164 casos confirmados da covid-19, e 1.303 óbitos pela doença. O HGR possui 90 leitos de UTI e a taxa de ocupação atual é de 56%.

A Secretaria de Saúde informou que o governo estadual já distribuiu 76% das vacinas recebidas para as prefeituras municipais. Ao todo, até o momento, as prefeituras vacinaram 55.320 pessoas desde 19 de janeiro, sendo que 37.118 pessoas tomaram a primeira dose e 17.902 a segunda. Os dados são referentes a toda população de Roraima.

Enfrentamento da covid na TI Raposa Serra do Sol em Roraima (Foto: Caique Souza/ ASCOMCIR)

 

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