Religiões e ecologia. A fé pode salvar o planeta?

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06 Abril 2021

 

As religiões são movimentos em sintonia com o ecologismo? Qual é o papel das religiões em direção à sustentabilidade? São os líderes políticos ou os líderes religiosos que possuem maior influência nos comportamentos coletivos da população? Quando 80% da população mundial se identifica com uma fé, as religiões podem se tornar uma ferramenta poderosa, com um impacto real no meio ambiente.

A reportagem é de Sira Lara, publicada por El Ágora Diario, 31-03-2021. A tradução é do Cepat.

Do ponto de vista moderno, a consciência pública sobre o cuidado com o meio surgiu na segunda metade do século XX, nos países industrializados, a partir de diversos desastres como vazamentos de petróleo, poluição de rios e degradação de habitats e com a publicação de obras emblemáticas como Primavera Silenciosa, de Rachel Carson. Neste contexto, o início do movimento ecologista costuma ser datado em 22 de abril de 1970, com a celebração do primeiro Dia da Terra, nos Estados Unidos. Uma corrente que, desde então, não parou de crescer.

Mas, existiu uma prévia consciência ecologista? A resposta está nas religiões. De um modo geral, todas as religiões fazem uma reflexão teológica sobre o cuidado da natureza. Nas tradições abraâmicas (cristianismo, judaísmo e islã), Deus chama os crentes a cuidar da criação e nas religiões orientais (como o budismo, o hinduísmo e o xintoísmo), a harmonia com a natureza é a principal expressão do caminho de purificação e ascensão. Mas são as tradições indígenas da África, América e Oceania que cuidam do meio ambiente de forma mais direta, já que uma grande maioria destes grupos mantém uma forte conexão espiritual com a mãe natureza e praticam uma firme ética de equilíbrio e respeito aos ecossistemas.

O que parece certo é que quanto mais nos distanciamos da natureza, através da industrialização e de abordagens mais antropocêntricas, mais penalizamos o planeta que alimenta o faminto e sacia o sedento.

E diante deste contexto de incerteza pela inexorável mudança climática que já é uma realidade, o que as religiões podem fazer? Como podem ajudar a salvar a humanidade não do ponto de vista espiritual, mas físico?

Partamos do mais tangível, o nível de influência. Não resta dúvida de que embora estejam cada vez mais separadas do poder político, ao menos formalmente e em especial no ocidente, as religiões e seus principais representantes continuam gozando de um poder ético e cultural muito importante na sociedade. E o que dizer do poder econômico [?]. Segundo dados da Unesco, as organizações religiosas controlam 8% da terra habitável de nosso planeta, 5% das florestas comerciais e 10% das instituições financeiras. Estima-se que existem 37 milhões de igrejas, 3,6 milhões de mesquitas, 20.000 sinagogas e inumeráveis outros templos e lugares de culto espalhados por todo o mundo.

De acordo com um relatório do Pew Research Center, 54% da população mundial adulta considera a religião uma parte “muito importante” em sua vida e o restante, mesmo que a prática religiosa varie muito conforme a parte do mundo, raramente escapa da religião como manifestação cultural e tradicional em todas as comunidades do mundo. No total, 80% da população se identifica com uma fé. Sem dúvida, um dado muito poderoso no momento de definir tendências globais.

Consciente deste impacto, a Organização das Nações Unidas aprovou, em 2008, uma resolução para promover o diálogo inter-religioso e intercultural, a compreensão e a cooperação para a paz, e estabeleceu um grupo de trabalho sobre Religião e Desenvolvimento, em 2010, formado por 19 organizações da ONU.

Após desenvolver uma série de iniciativas com organizações religiosas, a ONU Meio Ambiente lançou, em 2017, o projeto Faith for Earth, Fé pela Terra, para interagir estrategicamente com entidades religiosas e se associar a elas para avançar no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Desde então, já construiu uma rede de mais de 750 organizações religiosas para aproveitar o poder da fé em nome do planeta.

Faith for Earth possui três objetivos principais: inspirar e empoderar as organizações religiosas e seus líderes para atuar na proteção do meio ambiente, tornar ecológicos os investimentos e os ativos das organizações religiosas para apoiar a implementação dos ODS e proporcionar conhecimentos e redes para que seus líderes transmitam com eficácia mensagens relacionadas à sustentabilidade e ao meio ambiente aos tomadores de decisões e ao público.

Uma nova ética para mudar o rumo

As questões ecológicas atuais são essencialmente questões éticas. O imperativo moral e os sistemas de valores das religiões podem ser uma ferramenta útil para mobilizar sensibilidades com o objetivo de conservar o meio ambiente para as gerações futuras.

Para que o ser humano continue sendo uma espécie viável, em um planeta cada vez mais degradado, é necessária uma reavaliação global de seus valores, de seu modo de vida, de sua maneira de se relacionar com a natureza. Neste sentido, o historiador da religião Thomas Berry falou sobre a criação de um novo mandamento dentro da escala ética que introduza um novo conceito de “pecado ecológico”, em consonância com o que supõe para todas as religiões o pecado do homicídio, suicídio ou genocídio. É um novo crime moral: o biocídio ou o geocídio.

Há décadas, filósofos contemporâneos vêm desenvolvendo o campo da ética ambiental, que recentemente foi acolhida com entusiasmo no âmbito religioso. O exemplo mais destacado é a encíclica Laudato Si’ (2015), do Papa Francisco, “sobre o cuidado da casa comum”.

Neste texto, o bispo de Roma, cabeça da Igreja Católica, defende a natureza, a vida animal e as energias renováveis e faz uma crítica contundente ao consumismo e o desenvolvimento irresponsável, com uma declaração a favor de uma “ação mundial rápida e unificada para combater a degradação ambiental e a mudança climática”. Também se detém especialmente no cuidado da água e a importância deste recurso para a dignidade do ser humano e o equilíbrio do planeta.

A partir da publicação desta encíclica, vieram as declarações do Papa Francisco pedindo aos países maior ambição climática, aos Governos mais cuidado com a biodiversidade e inclusive às petroleiras uma transição energética radical. Para o líder de 1,2 bilhão de católicos, a conservação da natureza e a luta contra a mudança climática são imperativos morais.

Não é mais apenas uma questão de amar a criação, mas de evitar o dano contra milhões de pessoas. Uma mensagem que está permeando a agenda das comunidades católicas de todo o mundo, adicionando os valores do ecologismo como marcantes em sua escala ética e moral.

Nos últimos anos, também ganhou força um movimento de “ambientalismo islâmico” que a opinião pública muçulmana reivindica com urgência, impulsionado pela Islamic Relief Worldwide, a maior organização não governamental internacional humanitária e de desenvolvimento muçulmano do mundo, junto com a Fundação Islâmica para a Ecologia e Ciências Ambientais (IFEES/EcoIslam). Em 2015, no Simpósio Islâmico sobre Mudança Climática, realizado em Istambul (Turquia), foi redigida a “Declaração Islâmica sobre a Mudança Climática”, adotada formalmente.

Muitos países muçulmanos são grandes prejudicados pelos efeitos da mudança climática e, ao mesmo tempo, são grandes emissores de gases do efeito estufa, como a Indonésia, e estão entre os mais poluídos do mundo, como Bangladesh e Paquistão, mas fazem pouco para frear esta situação.

A maioria destes Estados reluta em impor os conceitos ocidentais de ecologismo ou em ceder à pressão de países que já passaram pela industrialização sem precisar abordar a poluição ou reduzir as emissões. Consideram estas ingerências um “colonialismo ambiental”.

Mas os ecologistas muçulmanos ressaltam que os reticentes precisam apenas olhar para o Alcorão, onde há aproximadamente 200 versículos sobre o meio ambiente. É ensinado aos muçulmanos que “maior do que a criação do homem é a criação dos céus e a terra”. E este enfoque pode alcançar os corações e as mentes do 1,8 bilhão de muçulmanos de todo o mundo.

Um estudo de 2013, na Indonésia, mostrou que a inclusão de mensagens ambientalistas nos sermões islâmicos levou a uma maior consciência pública e preocupação com o meio ambiente. Em 2014, o mesmo país emitiu uma fátua (opinião legal islâmica) para exigir aos muçulmanos do país que protejam as espécies ameaçadas de extinção.

Também destaca o caso da Aliança das Religiões e Conservação (ARC) que envolveu estudiosos muçulmanos para convencer os pescadores da Tanzânia de que a pesca com dinamite, redes de arrasto e arpão vai contra o Alcorão. E eles os escutaram.

Sem dúvida, se as religiões se lançarem a “evangelizar” sobre o cuidado do meio ambiente e os recursos, a conservação da biodiversidade e a luta contra a mudança climática, a mensagem chegará com força a bilhões de pessoas. Uma porta-voz decisiva nesta cruzada em que está em jogo não Terra Santa, mas o planeta Terra.

Ensinamentos sagrados

Nos livros sagrados das principais religiões é possível encontrar ensinamentos que supõem a base ética e espiritual de conceitos muito atuais como o cuidado da biodiversidade, a poupança de recursos e a economia circular.

Exemplos claros podem ser o mandato de cuidar do Jardim do Éden, no Gênesis do Antigo Testamento, ou Jesus nos Evangelhos exemplificando seus ensinamentos por meio de elementos da natureza. No Alcorão também podemos encontrar passagens condenando o desperdício de água e no Talmude ensinamentos sobre como descartar os resíduos do lar de maneira segura para não prejudicar o ambiente.

Contudo, há teólogos ambientalistas que apontam a tradição judaico-cristã como suposta causa da crise ecológica, já que ao conceituar o ser humano como superior ao resto das criaturas viventes e difundir o mandato de Deus de “dominar a terra”, a civilização ocidental explorou os recursos em seu benefício, sem preservar o equilíbrio da criação.

Promotoras dos ODS

A Agenda Global 2030 e o ODS 17, Alianças, estão no coração do projeto Faith for Earth. Nenhum país ou grupo de países pode alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável por conta própria. Todas as partes interessadas, incluídas as organizações religiosas, devem fazer parte da solução.

As organizações religiosas foram reconhecidas como atores centrais na erradicação da pobreza, na melhoria da saúde e a educação das pessoas, na proteção do meio ambiente e no trabalho para o desenvolvimento sustentável. Sua agilidade é crucial, especialmente em nível local, para chegar rapidamente à população mais necessitada de ajuda.

As redes de organizações religiosas e líderes religiosos cruzam continentes e fronteiras políticas, o que as torna um meio viável e prático para avançar em sustentabilidade e justiça social. As religiões cuidam de 50% das escolas no mundo - 64% na África subsaariana -, seus investimentos alcançam 12% do capital mundial e administram um terço das instituições sanitárias em todo o mundo. Portanto, seu trabalho na efetivação de direitos básicos para populações vulneráveis é essencial.

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