O mal em tempos pandêmicos e as armadilhas do maniqueísmo

Andrés Torres Queiruga, na abertura do evento de Pascoa IHU, intitulado “A questão do mal e do sofrimento no mundo [pós] pandêmico à luz do mistério pascal”, fala da resposta do cristianismo ao problema do mal

Foto: Cathopic

Por: João Vitor Santos | 23 Março 2021

 

Assim como nas guerras, as grandes catástrofes pandêmicas nos fazem pensar: por que tanto sofrimento? Por que Deus permite isso, tantos mortos por Covid-19 e tanta gente sofrendo? A interpelação faz até mesmo o mais fiel dos crentes pensar. Nessas situações-limite, podemos ser levados a respostas rápidas e o desespero pode nos levar a concluir que todo o mal que passamos, como agora na pandemia, é castigo divino. No entanto, o Prof. Dr. Andrés Torres Queiruga, de Santiago de Compostela na Espanha, nos propõe uma outra chave de leitura. “O mal como problema nasce com a humanidade”, recorda. “E ele nos toma de assalto, como agora na pandemia. Por isso a importância de uma perspectiva Evangélica”, propõe.

 

Queiruga foi conferencista da edição 2021 da Páscoa IHU, “A questão do mal e do sofrimento no mundo [pós] pandêmico à luz do mistério pascal”.

Na palestra do último dia 16 de março, sob o título “O mistério pascal e a resposta cristã à questão do mal e do sofrimento (uma abordagem na perspectiva da teologia trinitária do sofrimento de Deus)”, destacou que o mal é uma preocupação de todas as religiões, mesmo daqueles que não creem em Deus. “O cristianismo é uma resposta a esse problema universal. A questão é que há grandes ambiguidades na hora de o enfrentar”, observa.

 

Assista à íntegra da conferência abaixo

 

 

Assim, aponta para o risco de cairmos num maniqueísmo em que jogamos com a própria figura de Deus, que nos leva a interrogar se Deus é bom ou mau. “Quando nos vemos diante do mal, do coronavírus, por exemplo, pedimos para que Deus acabe com o mal. Supomos que pode acabar, mas não pode. Afinal, se Deus é amor e há mal no mundo, isso não pode vir de Deus”, reflete.

 

Para superar esse maniqueísmo, sugere que pensemos que Deus está conosco no mundo apesar do mal. “Vejam, novamente no exemplo do novo coronavírus, se pensarmos que Deus poderia evitar a doença, por que não o faz? Isso nos leva, na verdade, a um falso problema”, observa. Para ele, é preciso que entendamos de onde vem o mal. “O mal é do mundo, é da finitude do mundo. Logo, é um produto inevitável da finitude”, diz.

 

Isso significa que o vírus, por exemplo, não é criação de Deus como castigo, mas sim que Deus está conosco para que possamos enfrentar o vírus mesmo dentro de nossa finitude humana. “O mundo produz o mal. E por que Deus cria o mundo? A resposta cristã é que o mundo vale a pena apesar do mal. É isso que Jesus nos ensina ao se fazer humano como nós”, reflete.

 

Queiruga: “O mundo produz o mal. E por que Deus cria o mundo? A resposta cristã é que o mundo vale a pena apesar do mal. É isso que Jesus nos ensina ao se fazer humano como nós” | Foto: reprodução/IHU

 

“Deus não está na enfermidade, mas no enfermo”

 

Para ilustrar essa sua chave de leitura, o professor Andrés Torres Queiruga recupera a frase do pregador do Papa, que chama atenção de que “Deus não está na enfermidade, mas no enfermo”. Na lógica trazida por ele, é pensar que Deus não criou a doença e não a pode tirar do mundo, mas pode e está ao lado daquele que sofre com a doença. “Deus não está no vírus, mas nas pessoas que lutam contra o vírus”, completa Queiruga.

 

 

 

Para ele, é nesse mesmo sentido que a morte de Jesus precisa ser compreendida. “Muitos veem a morte de Jesus como grande sacrifício e há certa verdade nisso. Mas podemos limitar essa ideia do sacrifício, pois Deus se faz humano e finito e assim é confrontado com o mal”, explica. Assim, demonstra que o Cristo tinha plena confiança no pai e mesmo na cruz afronta a morte ao se entregar ao Pai. “E por isso acho importante lembrar do capítulo 8 de Romanos, quando São Paulo medita e ao fim conclui que 'nada pode nos afastar do amor de Cristo'”.

 

“Pai, sei que está me ajudando”

 

Nesses tempos tão difíceis, os caminhos indicados por Queiruga nos estimulam a pensar que apesar de sofrermos com o novo coronavírus e os problemas do mundo, Deus está conosco, e não ausente, deixando que o mal aja, nem tampouco agindo pelo mal para nos castigar enquanto humanidade. É por isso que ele nos provoca a pensar na relação com Deus para além desse maniqueísmo e no que considera “uma via curta da teodiceia”.

 

 

 

E que forma melhor de repensar essa relação com Deus senão pela oração? É por isso que o professor Queiruga sugere: “a nossa oração não deve ser ‘pai, ajuda-me’, pois se creio em Deus sei que ele está comigo. Deve ser ‘pai, sei que está me ajudando apesar de não sentir. De tudo que está contra mim, espero que estejas comigo e me faças ver como me ajudar’”, reflete.

 

Teologia da Cruz no centro do próximo debate

 

A Páscoa IHU, “A questão do mal e do sofrimento no mundo [pós] pandêmico à luz do mistério pascal”, segue com uma nova conferência nesta semana, quarta-feira, dia 24-03, às 10h.

Desta vez, o Prof. Dr. Cesar Kuzma, teólogo, professor e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio, ministrará a palestra A teologia da Cruz e esperança cristã num contexto pandêmico. Contribuições no pensamento de Jürgen Moltmann.

O evento será transmitido ao vivo, no formato live, através do Canal do IHU no YouTube (e também disponível abaixo).

 

 

 

Na próxima terça-feira, dia 30 de março, já na Semana Santa, também às 10h, será a vez da palestra com Prof. Dr. Carlos Mendoza Álvarez, da Boston College, nos Estados Unidos.

Com o título “Falar de Deus em meio ao sofrimento humano. Reflexões a partir das vítimas da pandemia”, sua conferência também será no formato live, transmitido tanto pelo como pelo YouTube (e também disponível abaixo). Todas as conferências podem ser acessadas no canal do IHU no YouTube.

 

 

 

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