“O Concílio é magistério da Igreja. Se você não segue o Concílio, você não está com a Igreja”

Audiência Papa Francisco - Escritório Catequético Nacional italiano da CEI. (Foto: Vatican Media)

10 Fevereiro 2021

Publicamos aqui o discurso proferido pelo Papa Francisco na audiência aos participantes do encontro promovido pelo Escritório Catequético Nacional da Conferência Episcopal Italiana, no dia 30 de janeiro passado.

 

O discurso foi publicado pela Sala de Imprensa da Santa Sé. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Caros irmãos e irmãs,

 

Dou-lhes as boas-vindas e agradeço ao cardeal Bassetti as suas cordiais palavras. Recuperou as forças, obrigado! Saúdo o secretário-geral, Dom Russo, e todos vocês que apoiam o compromisso da Igreja italiana no âmbito da catequese. Estou contente em compartilhar com vocês a recordação do 60º aniversário do nascimento do Escritório Catequético Nacional. Instituído ainda antes da configuração da Conferência Episcopal, ele foi um instrumento indispensável para a renovação catequética depois do Concílio Vaticano II. Esse aniversário é uma ocasião preciosa para fazer memória, dar graças pelos dons recebidos e renovar o espírito do anúncio. Para esse objetivo, gostaria de compartilhar três pontos que espero que possam lhes ajudar no trabalho dos próximos anos.

 

O primeiro: catequese e querigma.

 

A catequese é o eco da Palavra de Deus. Na transmissão da fé, a Escritura – como recorda o Documento de Base – é “o Livro; não um subsídio, mesmo que fosse o primeiro” (CEI, Il rinnovamento della catechesi [A renovação da catequese], n. 107). A catequese, portanto, é a onda longa da Palavra de Deus para transmitir na vida a alegria do Evangelho. Graças à narração da catequese, a Sagrada Escritura se torna “o ambiente” no qual é possível se sentir parte da mesma história de salvação, encontrando as primeiras testemunhas da fé. A catequese é tomar pela mão e acompanhar nessa história. Suscita um caminho, em que cada um encontra um ritmo próprio, porque a vida cristã não nivela nem homologa, mas valoriza a unicidade de cada filho de Deus. A catequese é também um percurso mistagógico, que avança em constante diálogo com a liturgia, âmbito no qual resplandecem símbolos que, sem se imporem, falam à vida e a marcam com o sinal da graça.

 

O coração do mistério é o querigma, e o querigma é uma pessoa: Jesus Cristo.

 

A catequese é um espaço privilegiado para favorecer o encontro pessoal com Ele. Por isso, ela deve ser tecida por relações pessoais. Não há verdadeira catequese sem o testemunho de homens e mulheres de carne e osso. Quem de nós não se lembra de pelo menos um dos seus catequistas? Eu me lembro: lembro-me da irmã que me preparou para a primeira Comunhão e me fez muito bem. Os primeiros protagonistas da catequese são eles, mensageiros do Evangelho, muitas vezes leigos, que se põem em jogo com generosidade para partilhar a beleza de ter encontrado Jesus. “Quem é o catequista? É aquele que conserva e alimenta a memória de Deus; conserva-a em si mesmo – é um ‘memorioso’ da história da salvação – e sabe despertá-la nos outros. É um cristão que põe essa memória a serviço do anúncio; não para se fazer ver, nem para falar de si, mas para falar de Deus, do seu amor, da sua fidelidade” (Homilia para o Dia dos Catequistas no Ano da Fé, 29 de setembro de 2013).

 

Para fazer isso, é bom recordar “certas características do anúncio que hoje são necessárias em toda a parte: que exprima o amor salvífico de Deus como prévio à obrigação moral e religiosa, que não imponha a verdade mas faça apelo à liberdade, que seja pautado pela alegria, o estímulo, a vitalidade e uma integralidade harmoniosa que não reduza a pregação a poucas doutrinas, por vezes mais filosóficas que evangélicas. Isto exige do evangelizador certas atitudes que ajudam a acolher melhor o anúncio: proximidade, abertura ao diálogo, paciência, acolhimento cordial que não condena” (Exortação apostólica Evangelii gaudium, n. 165). Jesus tinha isso. É a geografia da humanidade inteira que o querigma, bússola infalível da fé, ajuda a explorar.

 

 

E sobre esse ponto – o catequista – retomo uma coisa que deve ser dita também aos pais, aos avós: a fé deve ser transmitida “em dialeto”. Um catequista que não sabe explicar no “dialeto” dos jovens, das crianças, daqueles que... Mas com o dialeto não me refiro ao linguístico, do qual a Itália é tão rica; não, ao dialeto da proximidade, ao dialeto que eu possa entender, ao dialeto da intimidade. Aquela passagem dos Macabeus, dos sete irmãos (2Mac 7), me toca muito. Por duas ou três vezes, diz-se que a mãe os sustentava falando-lhes em dialeto [“na língua dos pais”]. É importante: a verdadeira fé deve ser transmitida em dialeto. Os catequistas devem aprender a transmiti-la em dialeto, isto é, aquela língua que vem do coração, que é inata, que é a mais familiar, a mais próxima a todos. Se não houver o dialeto, a não é transmitida totalmente e bem.

 

 

O segundo ponto: catequese e futuro.

 

No ano passado celebrava-se o 50º aniversário do documento “A renovação da catequese”, com o qual a Conferência Episcopal Italiana - CEI recebia as indicações do Concílio. A esse respeito, faço minhas as palavras de São Paulo VI, dirigidas à primeira Assembleia Geral da CEI depois do Vaticano II: “Devemos olhar para o Concílio com reconhecimento a Deus e com confiança no futuro da Igreja; ele será o grande catecismo dos tempos novos” (23 de junho de 1966).

 

 

E, voltando ao tema, por ocasião do primeiro Congresso Catequético Internacional, ele acrescentava: “É uma tarefa que incessantemente renasce e incessantemente se renova para a catequese entender esses problemas que surgem do coração do ser humano, a fim de os reconduzir à sua fonte oculta: o dom do amor que cria e que salva” (25 de setembro de 1971). Portanto, a catequese inspirada no Concílio está continuamente à escuta do coração do ser humano, sempre com um ouvido estendido, sempre atenta a se renovar.

 

Isto é magistério: o Concílio é magistério da Igreja. Ou você está com a Igreja e portanto segue o Concílio, ou, se você não segue o Concílio ou o interpreta ao seu modo, como quiser, você não está com a Igreja. Nesse ponto, temos que ser exigentes, severos. O Concílio não deve ser negociado para ter mais destes... Não, o Concílio é assim! E este problema que nós estamos vivendo, da seletividade em relação ao Concílio, se repetiu ao longo da história com outros Concílios. Faz-me pensar muito um grande grupo de bispos que, depois do Vaticano I, foram embora, um grupo de leigos, alguns grupos, para continuar a “verdadeira doutrina” que não era a do Vaticano I: “Nós somos os católicos verdadeiros”. Hoje, ordenam mulheres. A atitude mais severa, para conservar a fé sem o magistério da Igreja, leva você à ruína. Por favor, nenhuma concessão a quem tenta apresentar uma catequese que não esteja de acordo com o magistério da Igreja.

 

Assim como no pós-Concílio a Igreja italiana esteve pronta e foi capaz de acolher os sinais e a sensibilidade dos tempos, assim também hoje ela é chamada a oferecer uma catequese renovada, que inspire todos os âmbitos da pastoral: caridade, liturgia, família, cultura, vida social, economia... Da raiz da Palavra de Deus, através do tronco da sabedoria pastoral, florescem abordagens frutuosas aos vários aspectos da vida. A catequese, assim, é uma aventura extraordinária: como “vanguarda da Igreja”, ela tem a tarefa de ler os sinais dos tempos e de acolher os desafios presentes e futuros.

 

 

Não devemos ter medo de falar a linguagem das mulheres e dos homens de hoje. De falar a linguagem fora da Igreja, sim, disso devemos ter medo. Não devemos ter medo de falar a linguagem das pessoas. Não devemos ter medo de ouvir as suas perguntas, sejam elas quais forem, as suas questões não resolvidas, ouvir as suas fragilidades, as incertezas: disto, não tenhamos medo. Não devemos ter medo de elaborar instrumentos novos: nos anos 1970, o Catecismo da Igreja Italiana foi original e apreciado; os tempos atuais também requerem inteligência e coragem para elaborar instrumentos atualizados, que transmitam às pessoas de hoje a riqueza e alegria do querigma, e a riqueza e a alegria do pertencimento à Igreja.

 

 

Terceiro ponto: catequese e comunidade.

 

Neste ano marcado pelo isolamento e pela sensação de solidão causados pela pandemia, várias vezes se refletiu sobre o sentimento de pertença que está na base de uma comunidade. O vírus escavou no tecido vivo dos nossos territórios, sobretudo existenciais, alimentando temores, suspeitas, desconfiança e incerteza. Pôs em xeque práticas e hábitos consolidados e, assim, nos provoca a repensar o nosso ser comunidade.

 

Entendemos, de fato, que não podemos fazer sozinhos e que a única forma de sair melhor das crises é sair juntos – ninguém se salva sozinho, sair juntos –, abraçando de novo com mais convicção a comunidade em que vivemos. Porque a comunidade não é uma aglomeração de indivíduos, mas a família em que é possível se integrar, o lugar onde é possível cuidar uns dos outros, os jovens dos idosos, e os idosos dos jovens, nós, hoje, daqueles que virão amanhã. Só reencontrando o senso de comunidade é que cada um poderá encontrar em plenitude a própria dignidade.

 

A catequese e o anúncio não podem deixar de colocar essa dimensão comunitária no centro. Não é o momento para estratégias elitistas. A grande comunidade: qual é a grande comunidade? O santo povo fiel de Deus. Não se pode seguir em frente fora do santo povo fiel de Deus, o qual – como diz o Concílio – é infalível in credendo. Sempre com o santo povo de Deus. Ao contrário, buscar pertencimentos elitistas afasta você do povo de Deus, talvez com fórmulas sofisticadas, mas você perde aquele pertencimento à Igreja que é o santo povo fiel de Deus.

 

 

Este é o tempo para ser artesão de comunidades abertas que saibam valorizar os talentos de cada um. É o tempo de comunidades missionárias, livres e desinteressadas, que não busquem relevância nem vantagens, mas percorram os caminhos das pessoas do nosso tempo, inclinando-se sobre quem está à margem. É tempo de comunidades que olhem nos olhos dos jovens desiludidos, que acolham os estrangeiros e deem esperança aos desanimados. É o tempo de comunidades que dialoguem sem medo com quem tem ideias diferentes. É o tempo de comunidades que, como o Bom Samaritano, saibam se fazer próximas de quem está ferido pela vida, para enfaixar as suas feridas com compaixão.

 

Não se esqueçam desta palavra: compaixão.

 

Quantas vezes, no Evangelho, se diz sobre Jesus: “E teve compaixão”, “sentiu compaixão”. Como disse no Congresso Eclesial de Florença, desejo uma Igreja “cada vez mais próxima dos abandonados, dos esquecidos, dos imperfeitos [...] Uma Igreja alegre com rosto de mãe, que compreende, acompanha, acaricia”. Aquilo que eu dizia então sobre o humanismo cristão também vale para a catequese: ela “afirma radicalmente a dignidade de cada pessoa como Filho de Deus, estabelece entre todos os seres humanos uma fraternidade fundamental, ensina a compreender o trabalho, a habitar a criação como casa comum, fornece razões para a alegria, o bom humor, também no meio de uma vida muitas vezes muito dura” (Discurso ao V Congresso Nacional da Igreja Italiana, Florença, 10 de novembro de 2015).

 

 

Eu mencionei o Congresso de Florença. Após cinco anos, a Igreja italiana deve voltar ao Congresso de Florença e deve iniciar um processo de Sínodo nacional, comunidade por comunidade, diocese por diocese: este processo também será uma catequese. No Congresso de Florença, está precisamente a intuição da estrada a ser feita nesse Sínodo. Agora, retomem-no: é o momento. E comecem a caminhar.

 

Caros irmãos e irmãs, agradeço-lhes por aquilo que vocês fazem. Convido-os a continuar rezando e pensando com criatividade em uma catequese centrada no querigma, que olhe para o futuro das nossas comunidades, para que estejam cada vez mais enraizadas no Evangelho, comunidades fraternas e inclusivas. Abençoo-os, acompanho-os. E vocês, por favor, rezem por mim, eu preciso. Obrigado!

 

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