Buscar a verdade para se converter. O que ensina à Igreja o relatório sobre os abusos do bispo McCarrick

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04 Janeiro 2021

"O recente Vademecum é uma ferramenta necessária para ajudar todos os bispos e as outras pessoas responsáveis a saber claramente como lidar diante de casos de abuso, e por isso as leis recentes obrigam a denunciar não só os abusos cometidos, mas também os encobrimentos e as omissões por parte dos responsáveis eclesiais, que também devem ser consideradas falhas de extrema gravidade", escreve Federico Lombardi, ex-diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, em artigo publicado por Linkiesta, 01-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O vademecum publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé é uma ferramenta necessária para ajudar a regular-se diante dos casos de abusos no mundo eclesiástico. As leis recentes obrigam a denunciar até os encobrimentos e as omissões, explica o padre Federico Lombardi em um artigo publicado na “Civiltà Cattolica”.

Estamos publicando uma prévia do artigo “O Relatório McCarrick. Buscar a verdade para se converter" do padre Federico Lombardi, ex-diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, que será publicado no primeiro número de 2021 da revista La Civiltà Cattolica (p. 59-70).

No centro da questão e do Relatório estão as informações sobre o comportamento sexual de McCarrick, que infelizmente por muito tempo permaneceram praticamente anônimas ou não circunstanciadas ou incompletas ou - ao que parecia - de credibilidade incerta. Em vários casos, porém, foram claramente subestimadas ou simplesmente silenciadas, para não atingir os níveis mais altos de processos decisórios. O anonimato de algumas denúncias, que se revelarão fundadas - como a primeira, já nos anos 1980, de uma mãe preocupada com seus filhos - é um aspecto sobre o qual ocorre refletir com atenção. Embora seja justo exigir que as acusações sejam feitas sempre assumindo clara responsabilidade por elas, não se pode negar que às vezes seja extremamente difícil, senão impossível, ter a coragem de dirigir acusações graves contra pessoas de autoridade e poder muito superiores àqueles do acusador, que tem um receio fundado de não ser acreditado ou de vir a ser objeto de retaliação. Essa foi, evidentemente, a situação no caso McCarrick.

Portanto, justamente o novo esperado Vademecum para o tratamento de casos de abuso sexual, publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé, em sua primeira versão do último dia 16 de julho, convida a não descartar automaticamente as denúncias anônimas, mas ver se contêm elementos críveis. Dessa acusação por carta anônima, que remonta a meados da década de 1980, não foi encontrada nenhuma documentação em nenhum arquivo, mas a autora, um mãe de família, falou sobre isso em detalhes durante o processo e seu depoimento é muito esclarecedor sobre o comportamento abusivo de McCarrick, sobre sua insidiosidade e sobre a dificuldade de denunciá-los (cf. p. 37-47).

Outros problemas foram muito subestimados, como os conhecidos comportamentos imprudentes em relação a seminaristas ou jovens adultos. O fato de que em sua maioria não houvesse atos sexuais explícitos e de que menores não estivessem envolvidos não é absolutamente suficiente para justificar a tolerância prolongada, talvez favorecida na época por um clima cultural muito ambíguo sobre as relações entre os sexos em geral, e as relações homossexuais em particular. Também a este respeito, a condição de autoridade do arcebispo para com os seminaristas ou jovens sacerdotes conferia extrema gravidade a tais fatos e, ao mesmo tempo, tornava muito difícil sua denúncia. Era muito provável que houvesse abuso de poder. Deve-se acrescentar também que era completamente ingênuo e improvável pensar que em um comportamento frequente desse tipo se tratasse sempre de relações corretas sem ultrapassar os limites da relação sexual, bem como o limite da idade das pessoas envolvidas.

Portanto, as normas contidas no recente "Motu Proprio" Vos estis lux mundi, de maio de 2019, insistem na obrigação de denúncia de todos os eclesiásticos e religiosos, mesmo contra superiores hierárquicos e também quando se trata de abuso sexual de pessoas adultas, e sobre a organização em todas as dioceses de departamentos onde todos (não apenas os eclesiásticos) possam apresentar suas denúncias em condições de segurança.

O medo de escândalos exerce uma forte pressão negativa sobre quem deve ou deveria informar, ou sobre quem deve tomar decisões para agir. Isso também é compreensível. Muitas vezes, se prefere atenuar, por prudência ou benevolência equivocada para com o acusado, calar-se, ou esperar, na esperança de que o problema não volte a ocorrer. Isso também aconteceu no caso McCarrick. O Relatório descreve o evidente desconforto daqueles que, apesar de possuírem altas responsabilidades, não souberam gerir a situação frente ao surgimento das denúncias, e também por isso convidavam a deixá-las de lado, ou forneciam informações incompletas ou inexatas, quando solicitadas pelos escalões superiores. Mas as consequências de tais comportamentos e omissões, como sabemos, foram muito graves, tanto que hoje, à luz da experiência e da consciência que amadureceram, aprendemos a considerá-los indesculpáveis e a serem sancionados.

Portanto, o recente Vademecum é uma ferramenta necessária para ajudar todos os bispos e as outras pessoas responsáveis a saber claramente como lidar diante de casos de abuso, e por isso as leis recentes obrigam a denunciar não só os abusos cometidos, mas também os encobrimentos e as omissões por parte dos responsáveis eclesiais, que também devem ser consideradas falhas de extrema gravidade.

À medida que a carreira eclesiástica de McCarrick avançava para níveis cada vez mais elevados, o risco de escândalo tornou-se maior e a aplicação dos remédios mais difícil com o passar do tempo. No final, só a coragem de uma vítima de se expor com uma denúncia circunstanciada permitiu enfrentar a questão em toda a sua gravidade - recolhendo também os outros pesados testemunhos - e compreender as dimensões que continuavam ocultas e que, além do abuso sexual e do abuso de poder incluíam também o de consciência na forma muito grave do abuso do sacramento da confissão.

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