Redescobrindo a expectativa neste Advento

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16 Dezembro 2020

“Nesse Advento, o vírus nos recorda como é sentir a expectativa, sentir a necessidade de aliviar um fardo. À parte desses poucos doutores e pesquisadores que trabalham arduamente para desenvolver a vacina, o resto de nós experienciará esse alívio como algo trazido até nós, como um presente, um presente de fora. Para os cristãos católicos, o presente do Natal, o menino Jesus, é ainda mais maravilhoso, curando não apenas o vírus, mas as pragas originais da humanidade, o pecado e a morte”, escreve Michael Sean Winters, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 14-12-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

No domingo passado foi o Domingo Gaudete. Como na quaresma com o Domingo Laetare, o Domingo Gaudete, da Alegria, antecipa a festa vindoura, rompendo o período penitencial para nos lembrar o que está reservado no final do nosso período de jejum, oração e esmola. As vestimentas rosadas nos alertam para a luz no fim do túnel.

Advento, no entanto, tem perdido amplamente sua característica penitencial. De fato, poderia se argumentar que o Advento por si só se perdeu. Voltando a 2013, quando eu argumentei que enquanto a Fox News estava reivindicando uma não-existente “guerra contra o Natal”, havia realmente uma guerra contra o Advento. Quem ainda lembra que o Natal começa em 25 de dezembro?

As possibilidades comerciais do Natal são culpados óbvios no desaparecimento do Advento. Mas, mais geralmente, o Advento é sobre expectativa, e nosso compromisso societário para uma gratificação instantânea produziu uma psicologia espiritual que tem um árduo tempo para apreciação do desejo que ouvimos na voz de um Isaías ou de um Baruc. Eles não estavam esperando um novo liquidificador ou um belo blusão (Eu realmente preciso de um novo liquidificador, fica a dica.). Eles estavam esperando a libertação de seu sofrimento e de seu exílio. Eles estavam esperando um salvador. Eles queriam que seus fardos fossem retirados e sabiam que sua salvação só poderia vir de fora, que sua única esperança de recuperar sua identidade seria encontrada não na imaginação e no funcionamento de suas próprias mentes, mas no Deus de Abraão, Isaac e Jacó. Ele poderia aliviar seu fardo, terminar seu exílio e salvar seu povo.

Estou profundamente ciente do sofrimento de muitas pessoas em nosso próprio tempo: negros americanos e outras minorias que vivenciam o racismo de maneiras persistentes e variadas, as lutas dos trabalhadores pobres de todas as raças, as circunstâncias abjetas dos desesperadamente pobres, os desafios diários enfrentados por aqueles que lutam contra o vício.

No entanto, como cultura, os EUA pós-Segunda Guerra Mundial foi a terra da abundância. A nossa é a sociedade do “neopelagianismo auto-referencial e prometeico” contra o qual o papa Francisco advertiu na Evangelii Gaudium. Somos um povo sem o fardo de necessidades e, muitas vezes, sem o fardo de consciência. Se queremos algo, compramos. Se nos cansamos de algo, jogamos fora. O mundo é nossa ostra aqui nos EUA, a “maior nação da história” e “última e melhor esperança para a humanidade”. Gostamos de ser nossos próprios salvadores. Se houver um fardo a ser retirado, descobriremos como fazer isso.

Este ano foi diferente. Este ano, nós, como povo, fomos afetados pela covid-19. Encontramos um fardo que não conseguimos levantar sozinhos. Procuramos uma vacina para nos salvar dela. Esperar uma cura médica não é a mesma coisa que esperar um salvador, mas está mais perto do que qualquer coisa que nossa nação tenha experimentado em minha vida. Sim, queríamos o fim da Guerra do Vietnã, mas o fardo dessa guerra não recaiu sobre todos nós. Sim, queríamos o fim das várias recessões econômicas pelas quais passamos, mas milhões de americanos resistiram a essas recessões sem sequer mudar o estilo de vida. Os fardos da covid-19 têm sido desiguais, com certeza, com os pobres e marginalizados sofrendo de maneiras que os ricos não, mas a covid-19 tem sido um fardo para todos de alguma forma. Ela nos afetou não apenas de maneira ampla ou sistêmica, mas também de maneira cotidiana. Este ano, como os antigos israelitas, sabemos algo sobre a solidariedade do sofrimento.

Isso vai importar? Os profetas, lembre-se, chamaram o povo de Israel a retornar a seu ser mais verdadeiro, a ser obediente ao Senhor. Eles os exortaram à conversão. O Santo Padre, em sua encíclica Fratelli Tutti também nos chamou à conversão:

Enquanto eu escrevia esta carta, a pandemia de covid-19 irrompeu inesperadamente, expondo nossas falsas garantias. Além das diferentes formas com que vários países responderam à crise, sua incapacidade de trabalhar em conjunto tornou-se bastante evidente. Apesar de toda a nossa hiperconectividade, testemunhamos uma fragmentação que tornou mais difícil resolver problemas que afetam a todos nós. Quem pensa que a única lição a ser aprendida é a necessidade de melhorar o que já estávamos fazendo, ou de refinar os sistemas e regulamentações existentes, está negando a realidade.

Nesse Advento, o vírus nos recorda que como é sentir a expectativa, sentir a necessidade de aliviar um fardo. À parte desses poucos doutores e pesquisadores que trabalham arduamente para desenvolver a vacina, o resto de nós fará a experiência desse alívio como algo trazido até nós, como um presente, um presente de fora.

Para os cristãos católicos, o presente do Natal, o menino Jesus, é ainda mais maravilhoso, curando não apenas o vírus, mas as pragas originais da humanidade, o pecado e a morte. Ele é graça pura, e nada do que podemos fazer pode merecer a salvação que ele nos traz. No Advento, então, nosso trabalho é seguir os passos de um dos grandes santos do Advento, São João Batista, e nos deixarmos ser menos para que Jesus seja mais, para prepararmos nossos corações para a grande salvação, ou preparar o caminho, fazendo com que caminhos ásperos e tortuosos, tornem-se planos e retos.

Isso nunca é fácil, não para nós, estadunidenses diversos, mas existe um método infalível: confessar. Isso sempre nos faz perceber o quanto precisamos de um salvador. De todas as coisas ultrajantes que Donald Trump disse sobre religião, a mais ultrajante foi quando lhe perguntaram se já havia buscado o perdão de Deus, e ele respondeu: “Não tenho certeza se preciso. Eu apenas prossigo e tento fazer um trabalho melhor a partir daí. Acho que não. Acho que, se faço algo errado, acho, apenas tento consertar. Não coloco Deus nessa situação”.

Neste Advento, não seja como Trump. Seja como Francisco. Se reconhecermos o quanto precisamos de um salvador, reconheceremos que realmente temos algo para comemorar neste Natal – e a cada Natal. Então, e só então, podemos fazer nossas as palavras que ouvimos na missa de ontem:

O espírito do Senhor Deus está sobre mim,
porque o Senhor me ungiu;
enviou-me para dar a boa-nova aos pobres,
curar as feridas da alma,
pregar a redenção para os cativos
e a liberdade para os que estão presos
para proclamar o tempo da graça do Senhor.

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