O deus branco e tétrico de Trump mudou o papel dos católicos dos EUA. Artigo de Alberto Melloni

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09 Novembro 2020

Abriu-se uma fissura na qual o trumpismo conseguiu enfiar um pé-de-cabra financeiro e ideológico para tentar uma ruptura permanente na Igreja.

A opinião é de Alberto Melloni, historiador italiano, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha.

O artigo foi publicado em Domani, 06-11-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

As eleições presidenciais estadunidenses trouxeram um turbilhão de análises sobre a composição no voto e do voto religioso: com o seu desfile de clichês que explicam que o vencedor (seja quem for) não cometeu os erros do antecessor ou que os parâmetros da vez anterior não se aplicam “a uma América profundamente mudada”.

Assim, ao lado dos cálculos sobre o voto das mulheres brancas, dos Estados Unidos “profundos”, dos negros e dos latinos, chega pontualmente a “socioanálise” do voto das pessoas que se dizem religiosas. Que muitas vezes evita uma pergunta simples: que não é se a fé tem importância nas eleições presidenciais (a resposta é sim, sempre), mas se os dois compromissos eleitorais que viram o candidato Donald Trump exploraram ou mudaram a fisionomia do cristianismo estadunidense e do catolicismo de modo particular, do qual, fortalecido pelos seus 51 milhões de eleitores, é ipso facto protagonista.

O ecumenismo do ódio

As tendências eleitorais dos mundos religiosos são as mesmas há décadas: e, como demonstraram Blandine Chelini-Pont e Mark J. Rozell (editores de “Catholics and US Politics After the 2016 Elections: Understanding the ‘Swing Vote’”, publicado pela Palgrave), a chegada de Trump não mudou essas tendências. Mas introduziu um princípio de divisão que pretendia redesenhar a fisionomia religiosa do país, apontando para um acordo transdenominacional integrista, que o Pe. Antonio Spadaro definiu com um oxímoro como o “ecumenismo do ódio”, que é o legado mais difícil se o católico Biden ganhar, ou a questão mais dramática se Trump ganhar agora, ou outro como ele ganhar em 2024.

Em um país que, desde sempre, está “dividido” entre culturas, concepções ou economias, as tradições religiosas constituíam nervuras transversais, divididas entre os partidos, com uma proporção o que é cada vez menos importante. O mundo branco anglo-saxão protestante (o wasp), com a sua piedade, a sua moral e o seu horror religioso à hipocrisia moveram grandes progressos civis do direito da família ao da pessoa. Os católicos deviam demonstrar uma lealdade nacional superior e muito raramente puderam aspirar à presidência, precisamente porque eram suspeitos de uma maior fidelidade ao pontífice incompatível com a constituição ou de uma fidelidade à constituição incompatível com uma religiosidade límpida.

Um deus branco e tétrico

Os mundos do cristianismo congregacionalista, as ortodoxias da diáspora, as Igrejas uniatas, o judaísmo histórico e a comunidade islâmica dos convertidos e dos imigrantes, as oscilações de uma espiritualidade agnóstica a viagens para universos religiosos exóticos, degustados em pequenos goles.

Nessa paisagem, o crescimento das Igrejas pentecostais e evangélicas foi lento dentro do país e rápido fora. Ou, melhor, se havia um empenho, ele dizia respeito ao transplante de Igrejas pentecostais e evangélicas para a América Latina, para dividir e enfraquecer o catolicismo e as suas teologias da libertação que apenas alguns analistas em Washington e em Roma realmente acreditavam que eram a expressão de uma contaminação marxista e não uma resposta ao pecado estrutural da exploração e da violência contra o pobre.

Depois, chegou Trump e a sua capacidade de dar voz a um deus estadunidense, de pele branca e de alma tétrica. De pregar um evangelho da riqueza (o prosperity Gospel), hostil aos migrantes, supremacista, sintonizado com o catolicismo antipapal, desinteressado pelo judaísmo, analfabeto diante do islã. Essa voz dividiu as Igrejas: episcopais, protestantes tradicionais, batistas, acostumados a lidar com pequenos concorrentes antagonistas e fundamentalistas que pregavam no Cinturão da Bíblia ou na televisão viram-se superados por uma ala evangélica marchante, que soube distorcer temas e refrões em um fundamentalismo novo.

O catolicismo indócil a Francisco encontrou em Trump um apoio moral e material para organizar não algum congresso teológico ou revista, mas um pedaço do colégio cardinalício e do colégio episcopal: o papa, que dera o maior golpe desde os tempos de Leão XIII contra um líder estadunidense (“Quem constrói muros não é cristão”, declarou ele em plena campanha eleitoral), viu-se contra aqueles que souberam usar contra ele os erros cometidos nos papados anteriores (os ineptos consagrados bispos, os não resolvidos ordenados padres, os integristas elevados como vacina contra a secularização) e as suas modalidades de governo solitário ao decidir e apressado ao punir.

Assim, abriu-se uma fissura na qual o trumpismo conseguiu enfiar um pé-de-cabra financeiro e ideológico para tentar uma ruptura permanente na Igreja. A divina misericórdia quis que as ferramentas escolhidas para essa operação (os Bannons, os Siri, os Salvini, para citar os da temporada passada) não estivessem à altura da tarefa e pararam em um uso blasfemo das devoções católicas ou em gafes diplomáticas (como a de Pompeo): mas a rachadura permanece.

As eleições de 2020 (aliás, quem ganhou?) não a geraram, mas também não a curaram: se for Biden quem vai liderar os Estados Unidos, ele terá de lidar com isso – e não porque entrou nessa rachadura algum bispo que queria lhe negar a comunhão por ele ser contrário a uma legislação antiabortista; se for Trump, será o papa quem deverá lidar com isso, e desta vez não bastará uma frase de efeito no avião.

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