O documentário Francesco: “o caminho se abre caminhando”

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09 Novembro 2020

Francesco apresenta a evolução de uma Igreja e de um pontificado em uma série de altos e baixos, acertos, erros e renovações, à medida que mergulha na vida dos mais vulneráveis e pobres, abrindo novos caminhos. Caminhos que se abrem caminhando”, escreve David Holdcrof, jesuíta australiano, especialista em educação superior do Serviço Jesuíta aos Refugiados, em artigo publicado por La Croix International, 31-10-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

 

Para figuras tão amadas e igualmente insultadas, não é surpresa que Papas, reais e imaginários, continuem a fascinar os cineastas e a fornecer um terreno fértil para suas criatividades.

Os resultados variam desde a intriga picante de Os Borgias até a quase cômica Habemus Papam. Mais recentemente houve uma mudança para representações mais realistas, com Dois Papas, de Fernando Meirelles, tendo o melhor sucesso em reunir realidade e ficção em um pacote de entretenimento agradável.

O documentário de Evgeny Afineevsky, Francesco, compreende um tipo totalmente diferente de entretenimento.

Resultado de uma pesquisa mais pessoal do agnóstico e judeu Afineevsky, ele retrata com sucesso a extraordinária atividade e amplitude de um pontificado moderno. Mas não é um entretenimento leve e agradável.

O imediatismo da cinematografia, apresentação paralela dos principais temas com comentários fornecidos por entrevistas e tuítes, combinam-se para fazer o espectador se sentir no meio dos eventos retratados, ao mesmo tempo envolventes e inquietantes.

Na verdade, o poder do filme está em sua capacidade de passar do teatro papal, passando pela persona, até a conexão e o envolvimento humano que impulsionam o pontificado do Papa Francisco.

Afineevsky é mais conhecido internacionalmente por uma série de documentários que culminaram com o visceral Winter on Fire de 2013, indicado ao Oscar em 2013 – a história da revolta ucraniana – e o terrível Cries from Syria, sobre a guerra na Síria em 2017.

Na exibição que participei, o diretor falou de sua luta pessoal na realização de Cries e seu desejo de vincular seu próximo projeto com algo mais humano e esperançoso.

Na medida em que há esperança em Francesco, ela emerge gradualmente através de uma visão íntima do envolvimento do Papa com as questões “quentes” de nossos dias, o meio ambiente e a emergência climática, refugiados e imigração, violência e conflito, disparidade entre riqueza e pobreza, o lugar das mulheres na sociedade e na Igreja, família e sexualidade, e abuso sexual dentro da Igreja.

Entre estes estão alguns momentos extraordinariamente pungentes como quando o papa Francisco, um cardeal nos informa incrédulo, não usou proteção blindada como uma condição para sua visita, frequentou uma mesquita e encontrou sua congregação no pobre bairro muçulmano KM5 da capital da República Centro-Africana, Bangui.

Do outro lado da cidade, ele é recebido por crianças pobres em escolas que levam mensagens de paz e boas-vindas desenhadas em panos.

Em outra, ele furiosamente ordena que seus acompanhantes deixem um grupo de refugiados Rohingya no palco com ele, implorando perdão aos refugiados por não terem pronunciado a palavra ‘Rohingya’ – seguindo o protocolo solicitado – durante a visita anterior à vizinha Myanmar.

O ato mais longo do filme – e provavelmente o mais interessante – relata a acolhida do Papa aos sobreviventes de abusos em uma visita a Santiago, Chile, e sua subsequente ‘viagem’ pessoal, levando ao início de um processo de reforma eclesial.

Começa com a chocante negação, tratando como ‘calúnia’ as alegações de alguns manifestantes a respeito do notório padre Fernando Karadima e seus bispos protetores durante a visita do Papa a Santiago do Chile.

Sob narração de Juan Carlos Cruz, um dos sobreviventes, testemunhamos a transição por meio da reflexão e da compreensão de Francisco sobre seu próprio erro, a desinformação que em parte o levou até lá, e sua admissão, durante uma entrevista pessoal de três horas com Cruz, que ele, o papa Francisco, era parte do problema, levando a um pedido de desculpas.

Antes dessa entrevista, porém, ele despachou Charles Scicluna, o investigador-chefe do Vaticano, ao Chile para revisar os casos e recolher testemunhos.

O relatório resultante levou à convocação de todos os bispos chilenos ao Vaticano, onde Francisco imediatamente pediu-lhes a renúncia coletiva, reintegrando posteriormente apenas alguns – tudo isso acontecendo em questão de meses.

O testemunho de Cruz é poderoso e honesto – ele não era aceitaria um convite para o Vaticano pelo valor nominal, sabendo como poderia ser manipulado para fins de relações públicas. Ele também sabia que o processo institucional está inacabado e muitas outras vítimas ainda não receberam justiça.

Nós vimos o Papa assumindo o erro, imergindo com as pessoas afetadas e seus sofrimentos de uma maneira que gera um processo de discernimento e caminha para frente. Essa jornada espiritual é pessoal, social e institucional e nós vemos se repetir ao longo do filme.

Isso produz um tom mais universal; o enredo é mais sobre nós e o mundo que criamos que a biografia de um homem, não importa o quão admirável, e a posição que ele ocupa atualmente.

Essa não é uma visão triunfante, mas sim mais humana. Francesco é um grande antídoto tanto para a escassez de relatos sobre esse pontificado na mídia ocidental em geral quanto para a natureza unidimensional e excessivamente negativa de um ponto no tempo.

O momento é fortuito, já que a pandemia de covid-19 limita drasticamente novas viagens papais.

Francesco apresenta a evolução de uma Igreja e de um pontificado em uma série de altos e baixos, acertos, erros e renovações, à medida que mergulha na vida dos mais vulneráveis e pobres, abrindo novos caminhos. Caminhos que se abrem caminhando.

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