A nomeação de cardeais e a busca de vozes de autoridade. Artigo de Alberto Melloni

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28 Outubro 2020

"Os novos cardeais Grech e Semeraro são, de fato, um para a função e o outro para a cultura, teólogos da sinodalidade da Igreja. Aqueles que sabem que "sinodal" não significa adiar decisões falando muito sobre elas numa paciente sequência de monólogos: mas tomar decisões numa sinfonia de vozes diversas, tornadas audíveis pelo empenho de santidade ou de estudo, pela meditação do direito ou da tradição, da sabedoria do governo ou do silêncio, da sabedoria da oração ou da comunhão", escreve Alberto Melloni, historiador italiano, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, em artigo publicado por Domani, 25-10-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O papa criou 9 novos cardeais, que serão responsáveis por eleger o sucessor. Cumpriu seu dever, pois é ele quem deve garantir o número de 120 eleitores, e aliás ultrapassou esse teto, que voltará ao patamar canônico em abril próximo, salvo falecimentos ou renúncias. E, além disso, ele nomeou quatro cardeais acima dos oitenta anos, continuando o costume de aumentar a parte sem direitos eleitorais, para honrar figuras merecedoras da gratidão papal ou de reconhecimento papal.

Três cardeais eleitores anunciados são italianos: Paolo Lojudice, arcebispo de cinquenta anos enviado a Siena há um ano e meio depois de ter sido auxiliar de Ostia; Mauro Gambetti, ainda mais jovem, guardião do convento de Assis, mas bolonhês de formação e estudos; e Marcello Semeraro, durante anos secretário do grupo de cardeais que devia ajudar o papa a governar a Igreja e que acabou redigindo a reforma da cúria, que colocou uma eclesiologia claramente conciliar a serviço do papa. Junto a eles, tornam-se cardeais eleitores o secretário-geral do Sínodo Grech, o arcebispo de Washington, de Santiago do Chile, da cidade filipina de Capiz e do sultanato de Brunei (onde vigora a sharia).

Também desta vez, como acontece a cada nomeação de cardeais, a banalidade levará os banais a cálculos barrocos sobre o efeito das origens geográficas sobre a maioria do futuro conclave. Esquecendo que ela escapa à natureza de uma cultura democrática, acostumada a pensar que a maioria depende dos votantes (ou seja, nas eleições presidenciais EUA há quatro anos, os 56,5% de Trump era o 31,47% dos grandes eleitores), onde a mecânica do conclave demanda 66,4% dos eleitores (que, para permanecer na comparação com os EUA, é um quórum inatingível).

O fato de entre os novos cardeais estarem europeus, americanos, asiáticos e africanos não mudará em nada o equilíbrio do colégio. Porque o colégio não se divide por nações e por continentes: mas por culturas, gerações, histórias pessoais, estudos, funções. E não se transforma numa "fornada": mas por um lento processo de acumulação, que durante décadas viu diminuir o número de cardeais europeus e italianos (que, em todo caso, são 22), e em que Francisco interveio com uma reforma do colégio cardinalício, não escrita, mas muito decisiva.

De fato, o Papa revogou a categoria das dioceses "cardinalícias", aquela pela qual o Papa se obrigava a conferir o título de cardeal ao escolhido, mesmo depois de se tornar o único eleitor dos próprios bispos. Decisão preparada pelos antecessores que começaram a não dar o barrete cardinalício ao novo bispo enquanto o cardeal predecessor estivesse vivo e não octogenário; e acelerado pelo Papa Bergoglio que, especialmente na Itália, deu o cardinalato aos bispos das sés pequenas ou marginais, e deixou sem barrete as igrejas mais importantes do país, como também aconteceu nesta inesperada indicação de outubro.

Um sinal tangível de desestima papal pela Igreja italiana? Uma reação à astuta preguiça com que a CEI retirou o discurso de Florença com o qual havia traçado um novo rumo bergogliano, indigesto para os bispos ainda fascinados pelos anos de Ruini? Um desejo de apontar como bispos exemplares (e, se octogenários, também padres ou religiosos) em sua opinião exemplares e exemplarmente marginalizados no regime anterior? Uma forma de mostrar jesuítica indiferença para com os amigos, mesmo ao custo de lhes pedir tarefas difíceis, como é o caso de D. Galantino que preside a mais complicada comissão cardinalícia e deixá-los sem o barrete? Talvez todas essas coisas juntas.

Mas também o sinal de uma esperança, inscrito nas duas nomeações da cúria mais importantes. Os novos cardeais Grech e Semeraro são, de fato, um para a função e o outro para a cultura, teólogos da sinodalidade da Igreja. Aqueles que sabem que "sinodal" não significa adiar decisões falando muito sobre elas numa paciente sequência de monólogos: mas tomar decisões numa sinfonia de vozes diversas, tornadas audíveis pelo empenho de santidade ou de estudo, pela meditação do direito ou da tradição, da sabedoria do governo ou do silêncio, da sabedoria da oração ou da comunhão.

Poucos meses antes do sínodo sobre a sinodalidade, corre-se o risco de uma bela assembleia de bispos, temperada com alguns ouvintes surpresa e uma, não surpreendente, delegação de jesuítas, que conversa sobre sinodalidade com uma inconclusão bem conhecida e que chega a decisões que depois o papa coloca de lado julgando-as imaturas. Não para o papa, mas para a igreja; portanto, são necessárias vozes de autoridade. Vozes que podem tomar a palavra em um consistório "verdadeiro" (não serviria um para se perguntar com que cara alguns cardeais podem tratar o papa como herético?). Vozes capazes de nortear um sínodo que impeça a hegemonia das frases feitas, capazes de pensar como subtrair o renascimento do Evangelho que chegará à hegemonia do fundamentalismo evangélico e dos ultraortodoxos católicos.

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