“Aborto é um assunto preeminente para os católicos. Mas não o único”, afirma dom McElroy, bispo de San Diego, EUA

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22 Outubro 2020

Dom Robert W. McElroy é o bispo da diocese de San Diego e há muito tempo contribui com a revista America. Recentemente, dom McElroy falou com Sebastian Gomes, do “Voting Catholic”, um podcast da America Media que ajuda os católicos estadunidenses a discernir seus votos nas próximas eleições presidenciais. O bispo aborda o assunto do aborto, a polarização política de católicos e como votar de forma consciente. Essa entrevista foi editada devido ao tamanho e para maior clareza.

A entrevista é de Sebastian Gomes, publicada por America, 19-10-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis a entrevista. 

Eu quero começar com um encontro que ocorreu entre os bispos em novembro passado. Naquele encontro, uma nova carta introdutória para “Os cidadãos de fé” foi apresentada para a aprovação dos bispos. A carta incluía a seguinte declaração: “A ameaça de aborto permanece como nossa proeminente prioridade porque ataca a vida diretamente”. Poderia nos levar de volta a esse momento e nos dizer o qual o seu entendimento sobre essa declaração?

Na minha visão, o aborto é um assunto proeminente para os católicos – um de muitos.

Minha preocupação é que, quando se diz que o aborto é a questão proeminente que enfrentamos como nação, se esteja estabelecendo uma escolha eleitoral. O ensino da igreja é que avaliará os candidatos e decidirá quem você deve escolher, com certas qualidades sobre os candidatos, mas também tem a ver com suas posições em uma série de questões-chave no ensino moral católico. O conceito que os reúne é denominado bem comum. O bem comum é, na teologia católica, o avanço de toda uma série de questões da sociedade, que permitem a mais plena expressão, valorização e realização da vida humana e da dignidade para todas as pessoas em nossa sociedade e no mundo.

Dizer que o aborto é a questão proeminente em uma época política específica é reduzir o bem comum, de fato, a uma questão. E isso é uma distorção do ensino católico. Na verdade, a afirmação de que o aborto é “a” questão proeminente nesta campanha política para os católicos é em si uma declaração política, não doutrinária.

É difícil concluir que os bispos esperariam que católicos não fossem eleitores de único tema, apenas com base no que está escrito na carta. Como os católicos podem entender holisticamente o que os bispos estão dizendo?

Leia todo o documento. Porque quando você lê o documento, lá está essa noção mais ampla do bem comum. O documento aponta para todas essas questões diferentes sobre as quais nossa sociedade está dividida.

[Diz a você para] olhar para a mudança climática, que ameaça acabar com toda a humanidade. Veja as divisões que temos em nossa nação agora, em termos de raça e classe, os indocumentados. Você vê que todas as consequências da pandemia são ampliadas por questões de raça e classe. Se alguém lê isso com o coração aberto e luta com Deus, isso é ótimo. Mas não escolha uma frase.

Pergunto como um católico deve se envolver com as declarações do papa Francisco, bem como com as declarações que eles ouvem de seus bispos e leem aqui nos Estados Unidos.

Acho que o papa Francisco está nos apontando essa noção mais ampla do bem comum, que todos esses elementos devem ser levados em consideração e que é um erro reduzir o ensino moral católico a uma só questão. Isso não é fiel à nossa tradição.

Houve uma analogia interessante que surgiu há 30 anos nessas discussões, argumentando que o aborto é a questão moral primária. A analogia é porque a questão da vida é o alicerce da casa do bem comum. O bem comum é construído em cima dela, mas o fundamento é a vida e, portanto, entre as questões da vida, a defesa do nascituro [é] tão importante.

Mas eu diria o seguinte: a própria casa e os alicerces repousam sobre a terra, e a terra está em jogo na mudança climática e no cuidado com a criação. E então você não tem uma casa e não tem um alicerce se não tiver a terra [ou] um lugar habitável para nossa humanidade.

Você poderia comentar sobre a politização desses temas e como os católicos podem lidar com isso?

A tragédia para os eleitores católicos que são crentes e levam sua fé a sério é que, atualmente, a estrutura partidária da política estadunidense bifurca completamente o ensino católico. Existem certas questões em que, em geral, os republicanos representam muito melhor o ensino da igreja: aborto sendo um, eutanásia, muitas questões de liberdade religiosa. E então há certas questões em que o Partido Democrata [representa o ensino da Igreja]: mudança climática, questões de pobreza e racismo.

O problema que os eleitores encaram é que o católico está literalmente sem-casa na estrutura partidária dos Estados Unidos. Não há uma plataforma partidária que se aproxime do que é o ensino católico.

Algumas pessoas dizem que se você votar por um candidato ou outro, que você não é um católico real. O que você faria dessas declarações?

É um assalto terrível à nossa fé. A e a identidade católica não são reduzíveis a uma instância política. A fé católica é a crença em Deus, ter uma relação com Deus, entender a vida da Igreja, amar a Igreja, peregrinar no caminho da fé sobre a Terra. Isso que é a fé católica.

Mas para as pessoas falarem que em razão de um assunto político particular que você diverge do ensinamento da igreja não se é católico, reduz nossa fé a um simples credo político. Nossa fé é muito mais que isso.

Você tem aconselhado católicos sobre isso?

Quando chegamos à conclusão sobre em quem vamos votar, sempre há um ar de arrependimento, porque sabemos que qualquer um dos principais candidatos fica aquém do nosso ensino em áreas substanciais. Kierkegaard tem esta citação maravilhosa: “Fazemos qualquer coisa com medo, temor e moléstia até a morte”. Em outras palavras, chegamos à conclusão. Então, qual é a melhor maneira de votarmos, para tentar promover o bem comum?

E quando fazemos isso, fazemos isso como um ato sagrado. Não o fazemos com uma sensação de triunfalismo, portanto, que queremos pisar no outro lado. E é difícil não fazer porque deixamos que nossa política se torne visceralmente como um jogo, como um esporte. Temos equipes para as quais torcemos. Mas esse não é o método católico de discernir o voto e a cidadania.

Ouvimos muito sobre a importância de estar bem informado e formar adequadamente a consciência. Você pode nos dar uma explicação simples sobre o que isso significa e como é?

Termos uma conversa com Deus que nos leve na direção certa em nossa essência. E assim, ouvimos o ensino da igreja e precisamos deixar de lado todos os gatilhos que existem em nossa sociedade e que têm como objetivo aumentar os antagonismos partidários. Eles fazem com que todos nós sigamos na direção errada quanto à consciência.

Perguntemo-nos a nós mesmos: quais são os melhores anjos de nossa natureza nos chamando a buscar nossa nação ou nosso estado ou nossa cidade? E deixamos de lado esses tribalismos, o auto-interesse, e realmente procuramos dizer: qual é o bem comum? Ou seja, o bem-estar de todos nas várias dimensões de suas vidas e de nossa sociedade como um todo. O que avança isso? E se nos esforçamos para fazer isso, então seguimos nossa consciência, e devemos votar dessa forma, e Deus nos chama para isso.

Mas um dos perigos em nossa sociedade é que vivemos em um mundo em que os canais de notícias e todos esses outros silos apenas reforçam nossas visões de mundo preconceituosas. E isso é um desastre para a consciência. Eu sinto que os silos em que estamos estão se autorreforçando em tantos níveis agora que prejudicam uma boa consciência.

Parece que formar sua consciência não é chegar a alguma conclusão de uma vez por todas. É algo contínuo, complicado e uma luta. E algo que precisa ser revisitado. Isso é correto?

Sim. É mais fácil quando você está votando em questões porque você está votando na questão. Você pode chegar a uma conclusão sobre o assunto com muito mais facilidade. Quando você está votando em candidatos, você tem que levar em conta as posições deles, mas também tem que levar em consideração seu caráter, sua liderança, sua competência e se perguntar, neste momento particular, quem vai ser melhor no alcance do bem comum? Seu julgamento é temporário porque, neste dado momento, o que nossa sociedade mais precisa prestar atenção é à promoção do bem comum e o chamado de Deus para nós na sociedade como criadores de um mundo melhor.

É correto dizer que uma consciência individual é a voz mais autoritária que nós temos que ouvir e refletir sobre? A Igreja ensina-nos a nos guiarmos, mas minha própria consciência é a autoridade maior. Está correto?

A Igreja pretende trazer-nos as proclamações do Evangelho vividas em várias épocas e transmitidas a nós com a sabedoria do desenvolvimento da nossa tradição doutrinal. Portanto, temos que dar grande crédito a isso.

Mas, na verdade, o ensino católico é sempre aquele no fundo do seu coração, quando você estava ali com Deus, depois de ouvir os ensinamentos da igreja, depois de ouvir outras questões e tratamentos disso, e você se senta e ora e pergunta, você sabe, o que Deus está lhe chamando a fazer?

Se você está fazendo isso de forma autêntica, então sua maior autoridade é a consciência. No ensino católico, você não só pode seguir sua consciência, como deve. É pecado não seguir uma consciência bem formada.

O grande inimigo da consciência é a racionalização. Nós frequentemente convencemo-nos de que as coisas a que Deus está nos chamando a fazer e a coisa certa a se fazer é o que melhor serve aos nossos interesses ou desejos. Nós racionalizamos, e isso é uma verdade no reino político. E, portanto, temos que ter muito cuidado com a racionalização que se insinua porque isso acontece.

Bispo, você também é um cidadão. Não vou pedir que você apoie um candidato ou revele como está votando. Mas como você, como católico e cidadão, aborda sua responsabilidade de votar no dia das eleições?

No final, tudo se resume ao mesmo processo para qualquer pessoa que seja crente, que esteja tentando levar em conta o Evangelho de Jesus Cristo, os ensinamentos da igreja, a situação que enfrentamos em nossa nação, em nosso estado, em nosso mundo em conta.

Algumas candidaturas, acho fácil de tomar posição. Ok, é nesse candidato em que vou votar. E algumas eleições são mais difíceis de chegar à conclusão. Então, eu sento e faço o meu melhor e examino as várias coisas e tento chegar a uma conclusão. Mas quando eu faço isso, e quando eu voto, não importa o quão claro seja para mim que eu deveria votar nesta ou naquela pessoa, há uma tristeza em mim mais pelo que não existe neles, do que existe por causa de nossa política no momento presente.

 

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