Jean-Marie Roger Tillard (1927-2000): o “polygonum”

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02 Setembro 2020

“Há uma aliança entre a humanidade e o Evangelho. Se tentas erradicá-la, um dia ela reaparecerá, apesar da perseguição, dos banhos de sangue ou da propaganda ideológica”, escreve Francesco Strazzari, cientista político e professor de Relações Internacionais na Scuola Universitaria Superiore Sant'Anna, relatando as palavras do teólogo Jean-Marie Roger Tillard, em artigo publicado por Settimana News, 01-09-2020. A tradução da versão espanhola é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

Neste tempo em que se multiplicam os estudos e análises sobre a , a religiosidade, o aumento do ateísmo e do agnosticismo, são mais que palpáveis o abandono da Igreja e a incerteza sobre o futuro. Se pede por reformas sobre a formação do clero – que diminui inexoravelmente –, sobre a vida dos sacerdotes e religiosos, assim como uma nova sensibilidade litúrgica e a renovação do catecismo. Parece que tudo está a ponto de cair e há os que trazem as inquietantes palavras de Jesus de Nazaré: “O filho do homem, quando vier, encontrará fé na terra?” (Lc 18, 8).

Voltei a reler um escrito do teólogo francês Jean-Marie Roger Tillard: “Somos os últimos cristãos?”. Texto de uma conferência pública que – conclusão de um Congresso celebrado nos dias 24 e 25 de novembro no Colégio Universitário Dominico de Ottawa, em 1996 –, transmitiu na apresentação de um livro dedicado a ele como professor desde 1958 na faculdade teológica do Colégio. Um texto comovedor e inquietante, evocador e emblemático. Começa com a história do judeu Yossel Rakover que, em meio à barbárie nazista do gueto de Varsóvia, em 1943, grita a Deus e confessa sua fé, apesar do silêncio do Eterno.

Conheci a Tillard: teólogo de renome internacional, perito no Concílio Vaticano II, escritor valioso, homem apaixonado do diálogo, tanto com a Ortodoxia quanto com o mundo anglicano. De impressionante e elegante aparência, com um olhar sombrio, com um pouco de tristeza interior.

Tive contato com ele ao final de sua vida, atingido por um tumor incurável, em Ottawa. Fazia muito frio, algo que também tinha um significado simbólico. Frio porque os passos na união dos cristãos eram muito lentos. Não me expliquei de outra maneira o recurso ao caso de Yossel Rakover e seu grito, quase blasfêmia: “Creio no Deus de Israel, ainda que tenha feito de tudo para destruir a fé que tenho nele”.

Tillard, que estava no Colégio Dominicano, em sua sala cheia de livros de todos os tipos, falou comigo com uma voz doce e misteriosa de um homem que, no frio, na tempestade, no silêncio da noite, na luta amarga e contínua contra o mal, continuava a clamar sua fé.

Quando ele me falou, foi a história da Igreja que me passou: a das origens e a do presente. Igreja local como comunhão e Igreja universal, comunhão de Igrejas. Inúmeras citações, tanto da Escritura quanto da Tradição, referências a concílios de todas as épocas, aos escritos dos santos padres e aos textos de teólogos.

Fiquei impressionado com a referência ao polygonum, um arbusto de sua ilha de Saint Pierre e Miquelon, no Atlântico. “É um arbusto de que gosto muito: pela cor, pela elegância, pelas folhas, pela função ecológica e, sobretudo, pelo seu simbolismo. Se um polygonum brota em algum lugar, não importa o quanto você tente, não há nada que você possa fazer para fazê-lo desaparecer. Para sua surpresa, um dia ele reaparecerá e voltará a brotar. Um pequeno pedaço de raiz escondido entre dois torrões de terra é suficiente para fazê-lo brotar novamente. Por quê? Antes de mais nada, não há dúvida disso, porque é uma planta forte, que resiste a toda violência do tempo e dos homens, que a arrancam, cortam, queimam com herbicidas perversos. Mas, acima de tudo, porque existe um acordo secreto entre esta planta e o solo, enriquecido e purificado por sais minerais, dos quais estão cheias as suas raízes.

A terra da minha ilha pedregosa, frequentemente açoitada por ventos violentos, formou uma aliança com o polygonum para não se tornar uma rocha estéril. Parece-me que seus detratores são ingratos com este arbusto”.

O grande teólogo continuou: “O simbolismo é claro. No fundo do desejo, há uma aliança entre a humanidade, também devastada pelos furacões, e o Evangelho. Se tentas erradicá-la, um dia ela reaparecerá, apesar da perseguição, dos banhos de sangue ou da propaganda ideológica. Porque, graças à referência a Deus deixado por Ele no seu desejo, a humanidade sempre se recusará a ficar sem esperança”.

O mal galopou. O câncer não lhe deu trégua. Ele encerrou nossa conversa com um pensamento que me deixou sem palavras. “Correndo o risco de parecer anacrônico, quero terminar afirmando a necessidade da contemplação. Na verdade, creio que sem ela não podemos compreender o que implica esta confiança de que falei. Yossel Rakover, Teresa de Lisieux são contemplativos. Eles descobrem em si mesmos, entre as lágrimas e o silêncio, um espaço misterioso habitado pelo Espírito de Deus.

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