Ações obscuras tentam manipular o próximo conclave

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14 Agosto 2020

Grupos de lobby e organizações midiáticas bem financiados estão tentando influenciar o próximo conclave. O correspondente da Tablet em Roma avalia as suas chances de sucesso.

O comentário é de Christopher Lamb, publicado em The Tablet, 13-08-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nestes meses, várias vozes há muito tempo insatisfeitas com o Papa Francisco começaram a bater os tambores pela mudança. Tem havido uma enxurrada de artigos na imprensa e de postagens nas redes sociais, e, no mês passado, dois livros foram publicados, ambos intituladosThe Next Pope” [O próximo papa].

Não há nada de incomum em debater nas trattorias romanas sobre quem pode ser o próximo papa, naturalmente exacerbadas quando o titular está na casa dos 80 anos de idade. Em 2020, entretanto, os oponentes de Francisco não estão apenas especulando vagamente, mas sim canalizando suas energias para tentar influenciar o próximo conclave. Vai haver uma batalha gigantesca.

Sejamos claros: embora Francisco tenha 83 anos de idade e tenha mantido uma agenda exaustiva durante sete anos e meio como o 266º sucessor de São Pedro, não há nenhum indício de que ele esteja doente ou sofrendo de algum problema específico de saúde.

O cardeal Michael Czerny SJ, um dos colaboradores mais próximos de Francisco, me disse durante um webinar para a Tablet no mês passado que o papa adaptou com sucesso o seu ministério à pandemia da Covid-19 e está “com boa saúde, bom humor e boa esperança”.

Francisco não mostra nenhum sinal de abrandamento. Depois das suas “férias caseiras” em julho na Casa Santa Marta, o papa disse na semana passada que suas Audiências gerais das quartas-feiras seriam dedicadas ao ensino social católico, para que a Igreja possa ajudar a “preparar o futuro” à luz da Covid-19.

Ele continua promovendo um programa de reformas do Vaticano, como vimos mais recentemente com uma série de novas nomeações que incluíram seis mulheres para o conselho que supervisiona as finanças da Santa Sé.

Em 1995, em um livro também chamado “O próximo papa”, o biógrafo papal e correspondente em Roma da Tablet, Peter Hebblethwaite, pesquisou os possíveis sucessores de João Paulo II, assim como fez outro distinto observador do Vaticano, John Allen, em 2002, para o livro “Conclave”.

Naquela época, porém, o papa polonês ocupava o cargo há mais de duas décadas e sofria do mal de Parkinson. Nem Hebblethwaite nem Allen foram tolos o suficiente para prever quando o próximo conclave poderia começar. Como Jesus advertiu, “vocês não sabem nem o dia nem a hora” (Mateus 25,13).

Novo papa?

Então, de onde vem as conversas atuais sobre um novo papa? As conversas sobre o conclave são mais audíveis entre uma minoria barulhenta de católicos, principalmente nos Estados Unidos, que guardaram pouco sigilo da sua esperança de que o pontificado de Francisco tenha sido um momento histórico infeliz.

Ele é um obstáculo à visão deles de uma Igreja que enfatiza a pureza doutrinal, defende o livre mercado irrestrito e se junta às guerras culturais para combater ao lado dos conservadores e dos tradicionalistas contra os liberais e progressistas. O objetivo deles é simples: garantir que o próximo homem a ser eleito papa siga a agenda teológica, política e social deles.

Algumas das atividades da campanha têm mais em comum com a cínica politicagem de Washington do que com a reflexão silenciosa e o paciente discernimento de espíritos. Junto com os novos livros, um projeto chamado "Red Hat Report" está em andamento com o objetivo de evitar a repetição do conclave de 2013.

Dossiês detalhados sobre possíveis cardeais candidatos ao próximo conclave estão sendo preparados. Ao lançar a iniciativa na Universidade Católica dos Estados Unidos em 2018, os organizadores disseram ter contratado ex-investigadores do FBI e planejado examinar a orientação sexual dos cardeais e editar seus verbetes na Wikipédia para vinculá-los a escândalos.

Enquanto isso, um dos livros publicados nestes meses sobre o próximo papa poderia ser descrito no jargão político como “pesquisa da oposição”, ao buscar empurrar o conclave no sentido de reverter a direção na qual Francisco tem conduzido a Igreja.

Escrito por Edward Pentin, correspondente em Roma do National Catholic Register e por “uma equipe internacional de estudiosos”, ele oferece perfis de 19 papáveis, os homens que Pentin considera os candidatos mais plausíveis para serem eleitos para suceder Francisco.

Estão incluídos na lista do Pentin três cardeais entre os mais proeminentes críticos conservadores da agenda de reformas de Francisco: o ex-chefe doutrinal do Vaticano, Gerhard Müller; o líder dos católicos tradicionalistas do mundo de língua inglesa, Raymond Burke; e o prefeito da Congregação para o Culto Divino, Robert Sarah.

O livro foi publicado pela Sophia Institute Press, que está por trás de vários títulos profundamente hostis a este pontificado. Ela opera em parceria com o conglomerado de mídia católica EWTN (Eternal Word Television Network), que oferece regularmente uma plataforma para aqueles que estão descontentes com este papa. O National Catholic Register é de propriedade da EWTN.

“Catolicismo light”

O outro livro sobre o “próximo papa”, escrito pelo biógrafo de São João Paulo II, George Weigel, não discute os possíveis sucessores de Francisco. Em vez disso, ele descreve as qualidades que Weigel considera essenciais se o novo papa quiser reverter a catastrófica direção para a qual ele argumenta que a Igreja está se dirigindo.

A crítica levemente velada ao papado atual inclui um forte desacordo com a decisão de Francisco de não responder aos quatro cardeais que desafiaram a ortodoxia da sua abertura a um retorno à Comunhão para os católicos divorciados e recasados.

Weigel argumenta que o próximo papa deve evitar a tentação daquilo que ele chama de “catolicismo light”: a diluição do ensino sobre questões morais – contracepção, aborto, divórcio, homossexualidade – é a razão pela que, segundo ele, a Igreja na Europa está moribunda, e um novo papa é necessário para reafirmar o ensino tradicional sem concessões.

Em uma medida altamente surpreendente, cada cardeal do mundo recebeu uma cópia do livro de Weigel, junto com uma carta elogiando seus conteúdos, escrita pelo cardeal Timothy Dolan, de Nova York. A decisão do cardeal dos EUA de defender um livro tão severamente crítico ao papado de Francisco parece contrariar a constituição de João Paulo II de 1996, que proíbe que os cardeais discutam os sucessores papais. Mais uma vez, isso ilustra os problemas que Francisco enfrenta em algumas partes da hierarquia dos EUA.

Por trás dessas tentativas de influenciar o próximo conclave está o desejo de ver o papado desempenhar um papel mais agressivo nas guerras culturais globais, algo que o papa se recusa a fazer. Em nível geopolítico, a sua repetida – e às vezes solitária – defesa dos migrantes e dos requerentes de asilo e a sua construção de pontes com outras religiões e culturas têm sido uma poderosa proteção contra as forças globais, especialmente entre os católicos conservadores nos EUA, que desejam alistar a Igreja Católica na sua batalha contra o liberalismo, o Islã e a China.

Francisco tem sido um contrapeso para as tendências nacional-populistas vistas no apoio popular a Donald Trump nos EUA, a Viktor Orbán na Hungria e ao líder da direita na Itália, Matteo Salvini. Todos procuram usar imagens e a linguagem cristãs em suas campanhas políticas.

Mas outro papa aos moldes de Francisco continuaria resistindo em atrelar o vagão da Igreja à agenda populista, e é por isso que as apostas no próximo conclave são tão altas.

No congresso digital da European Academy of Religion, no fim de junho, a professora Kristina Stoeckl, socióloga da Universidade de Innsbruck, fez uma análise das guerras culturais globais. Ela argumentou que os cristãos conservadores de várias denominações estão se unindo em torno de uma agenda de “valores tradicionais” que se opõe à proteção democrática liberal das minorias.

“Eles desafiam, muito frequentemente, a liderança das suas Igrejas”, explicou ela durante a conferência de abertura. “Olhem para as críticas de muitos católicos conservadores ao Papa Francisco.”

Momento carregado

Tudo isso significa que o próximo conclave provavelmente ocorrerá durante um momento altamente carregado na história global, um momento em que há uma batalha abertamente pública sobre o próprio significado do cristianismo, com uma minoria fazendo tudo o que pode para garantir que o líder da Igreja Católica esteja totalmente alistado na sua campanha para se opor aos valores liberais.

Meu palpite é de que os livros e os dossiês com orientação ideológica terão pouco impacto no próximo conclave. Dada a longa história de tentativas de manipulá-los, as eleições papais foram deliberadamente planejadas para resistir a interferências externas.

Antes do conclave de 2013, por exemplo, Mario Cuomo, o ex-governador de Nova York, deu uma entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera apoiando o cardeal Dolan como “o homem certo para este momento extraordinário da história”. Isso foi muito mal recebido pelos eleitores.

O papa escolheu mais da metade dos homens que vão entrar na Capela Sistina e votar no seu sucessor diante do impressionante e inspirador afresco do “Juízo Final” de Michelangelo. Escolher cardeais é a coisa mais próxima ao planejamento da sucessão por parte de um papa. Com as suas escolhas de pontos distantes do globo, como Tonga, Panamá, Suécia, Iraque, Paquistão e Cabo Verde, Francisco remodelou radicalmente o Colégio dos Cardeais. Ele não impôs nenhum modelo teológico particular.

Mas ele está determinado a não nomear nenhum guerreiro cultural movido pela ideologia e, em vez disso, escolheu pastores reconhecidos pela sua proximidade com seu povo e pelo seu testemunho do Evangelho.

A extraordinária extensão geográfica dos cardeais eleitores será em si um fator significativo. Isso dificulta ainda mais que eles sejam influenciados. Poucos compartilham as mesmas preocupações estreitas que obcecam os grupos de lobby conservadores dos EUA. É verdade, também, que muitos dos cardeais eleitores mal se conhecem. Muitos não falam italiano ou não conhecem a Cúria Romana.

Aqueles que esperam influenciar o próximo conclave estão tentando explorar isso fornecendo informações (negativas) suficientes sobre os candidatos de quem não gostam, a fim de preparar o caminho para alguém que compartilhe a agenda deles.

Mente aberta e fé forte

Mas eu acho que seria um erro subestimar a velocidade com a qual os cardeais mais novos compreenderão a dinâmica da sutil, porém brutal, política interna de Roma e como funciona um conclave.

A maioria dos cardeais eleitores irá a Roma para a próxima eleição papal com a mente aberta. Eles farão um discernimento dos candidatos durante as cruciais reuniões pré-conclave e os muitos jantares e encontros privados que ocorrem nos dias que antecedem a votação, nos quais todos os cardeais, incluindo os que têm 80 anos ou mais e não têm direito a voto, estão plenamente envolvidos. Um requisito essencial que eles estarão procurando é que o candidato venha de uma Igreja local com uma fé forte.

“O papa deve representar de alguma forma toda a Igreja e deve ter suas raízes em uma Igreja local verdadeiramente unida”, como explicou o cardeal indiano Telesphore Toppo no profundo relato de Gerard O’Connell sobre o conclave de 2013, intitulado “The Election of Pope Francis” [A eleição do Papa Francisco].

Os cardeais também valorizam a continuidade. Cada bispo de Roma se baseia no trabalho do seu antecessor. Não existe um “self-made pope”.

É difícil imaginar como um futuro papa poderia fazer o relógio voltar para trás nas reformas de Francisco, que estão profundamente enraizadas no Concílio Vaticano II.

Em vez de impor uma agenda específica à Igreja, o papa colocou em prática um modelo de liderança baseado no discernimento do movimento do Espírito Santo nas circunstâncias de hoje. Não podemos saber o que acontecerá no próximo conclave, ou quem sairá como o próximo papa. Mas qualquer tentativa de grupos de lobby de arrancar e de descartar as sementes de renovação plantadas durante o pontificado de Bergoglio será um tiro pela culatra.

Como o cardeal Óscar Rodríguez Maradiaga, um dos conselheiros mais próximos de Francisco, me disse uma vez, “a Igreja não tem marcha à ré”.

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