“Candidata” ao Arcebispado de Lyon, Anne Soupa quer sacudir a instituição

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28 Mai 2020

Ao anunciar sua candidatura para tornar-se arcebispa de Lyon, a biblista Anne Soupa provoca muitas reações. E se, além da provocação óbvia à instituição, sua iniciativa levanta boas questões?

A reportagem é de Marie-Lucile Kubacki, publicada por La Vie, 26-05-2020. A tradução é de André Langer.

Em 2008, a biblista Anne Soupa fundou, com Christine Pedotti, o Comitê da Saia, depois que o cardeal André Vingt-Trois, questionado sobre o papel das mulheres na celebração dos ofícios, declarou à Rádio Notre-Dame: “O mais difícil é encontrar mulheres que tenham formação. Não basta usar saia; é preciso, além disso, ter algo na cabeça”. Doze anos depois, ela decidiu candidatar-se à sucessão de Philippe Barbarin como arcebispo de Lyon. “Alguns dirão que esse gesto é uma loucura, escreveu ela em seu comunicado; mas o que é loucura é que parece loucura quando não é. Nós temos apenas um modelo de bispo, o de um celibatário, avançado em idade e vestido de preto? No entanto, que ganho seria ousar oferecer outras faces a essa função!”

Replicada por toda a imprensa – e apoiada pela secretária de Estado da Igualdade de Gênero e de Luta contra a Discriminação, Marlène Schiappa, que aplaudiu a iniciativa pelo Twitter –, esta candidatura suscita, sem surpresa, reações contrastantes entre os católicos. No fundo, alguns reconhecem a legitimidade de querer colocar novamente em pauta a questão do lugar das mulheres no governo da Igreja, contestando, no entanto, o modo operacional. “A missão vem de um chamado e não de uma candidatura”, irritou-se um padre. “Quando uma católica batizada questiona o funcionamento eclesial, se a sua reação é: ‘nhã-nhã-nhã ela só precisa ir a outro lugar se não gostar’, reflete o que é a Igreja: não um clube, mas o corpo de Cristo. Não excluímos as pessoas! Penso que a iniciativa da senhora Soupa, certamente provocativa, permite-nos pensar na possível distinção entre o sacerdócio e o serviço de governo. E isso merece uma reflexão, não?”, reagiu Mélanie Duflot, presidenta do movimento Anúncio, que também é blogueira sob o pseudônimo “La catho de l'hosto”.

Mas por trás da “bomba”, em relação à qual muitos concordam em dizer que não tem chance de ter sucesso, qual é a verdadeira intenção de Anne Soupa? A principal interessada explica-se à revista La Vie

“Quero mostrar às mulheres que elas são capazes de pedir responsabilidades na Igreja, porque muitas vezes há uma internalização de sua segunda condição e elas não se consideram competentes. A capacidade de tomar a palavra dentro da Igreja é fundamental. Eu gostaria que o debate avançasse sobre a questão da distinção entre o ministério ordenado e o governo da Igreja. O Papa Francisco pediu aos teólogos que trabalhassem nisso, e acredito que nada aconteceu. Eu vejo a minha candidatura como uma maneira de apresentar para reflexão a questão sobre a articulação entre sacramento, poder e sacerdócio”. E o que ela faria se por acaso sua candidatura fosse aceita? A resposta é: “Eu pediria aos 57% dos católicos franceses que não frequentam a Igreja que viessem debater como vivem sua identidade como católicos e o que eles esperariam da Igreja”.

A iniciativa de Anne Soupa tem, portanto, uma dimensão maiêutica assumida e é, além da questão das mulheres na Igreja, esse desejo de provocar um debate que lhe garantiu um certo número de apoiadores. “Há algo de terapêutico em seu gesto. O que ela quer é mudar as coisas, comenta uma teóloga, para nos fazer pensar. É justo que o papa seja eleito apenas por votos masculinos? Quando ouviremos a voz de uma Hildegarda de Bingen ressoando novamente em uma catedral na presença de bispos e cardeais?” Um assunto sobre o qual a obra da teóloga francesa Anne-Marie Pelletier – nomeada pelo Papa em abril passado para uma nova Comissão Pontifícia encarregada de refletir sobre a questão do diaconato feminino – L’Église, des femmes avec des hommes (Cerf, 2019), já forneceu luz decisiva nos últimos meses.

Mas para outros, o método é contraproducente. “Basicamente, ela coloca boas questões, mas não da maneira correta e isso desacredita suas interrogações, por mais legítimas que sejam”, comenta um teólogo. “É perfeitamente legítimo fazer a pergunta sobre a relação entre governo e sacerdócio na Igreja, estima o dominicano François Daguet, doutor em teologia e diretor do Instituto Santo Tomás de Aquino. Mas Anne Soupa faz isso considerando implicitamente que se pode tratar do governo na Igreja como em outra instituição humana. É esquecer que a estrutura hierárquica da Igreja não é fruto de decisões humanas – o que Lutero já reivindicou –, mas que ela é de instituição divina. Se, durante 2000 anos, os aspectos essenciais do governo da Igreja não mudaram, é porque procedem do próprio Cristo, que instituiu os Doze com Pedro à frente. É essa estrutura que se perpetua através dos sucessores dos Apóstolos e de Pedro, ou seja, os bispos – de maneira colegiada – e o papa”.

Para ele, é importante lembrar que o governo na Igreja não é, em primeiro lugar, da ordem do funcional. Isso não impede que muitos ministérios possam – e devem – ser assumidos por mulheres. “Mas é também aí que o peso de uma sociedade dominada por homens se faz sentir, matiza Daguet. E, no entanto, o que impediria uma mulher de ser, por exemplo, reitora de uma universidade católica? Desta vez, estamos no ‘funcional’ e não há nada que se oponha a que essas funções sejam ocupadas tanto por mulheres quanto por homens. Podemos até considerar esta ou aquela função dentro de um dicastério da Igreja, e foi o que Francisco fez ao nomear duas mulheres para o dicastério para os Leigos, a Família e a Vida”. Sobre este último ponto, alguns lamentam o fato de que não tenha havido mais nomeações de leigos em geral – além de Paolo Ruffini, para a Comunicação –, e de mulheres em particular, para cargos de direção dos dicastérios (equivalentes a ministérios) na Cúria romana.

Editor da Salvator, Michel Cool convida a não criar tensões sobre o modo operacional. “Já no século XX, as sufragistas realizavam ações espetaculares para serem ouvidas e reconhecidas: elas se acorrentavam aos portões do parlamento, faziam greves de fome... Quando nos deparamos com um muro tão duro como o concreto, somos tentados a atacá-lo com um martelete! A sabedoria seria abrir espaços para reuniões e diálogos para neutralizar os assuntos raivosos. Conversar e ouvir um ao outro é rejeitar toda forma de clericalismo, de espírito arrogante e é apostar na inteligência coletiva”. E prossegue: “Quando Anne Soupa disse que com cem ordenações por ano a Igreja da França não é mais capaz de garantir um bom governo, isso é totalmente absurdo? Quantos agentes pastorais, clérigos e leigos, não estão claramente preocupados com seu destino e de suas comunidades nos próximos cinco a dez anos? Não são assuntos que interessam a todos os católicos preocupados com o futuro de sua Igreja e a proclamação do Evangelho em uma sociedade secular e pluralista? Comparação não tem razão, diz o ditado. No entanto, o processo sinodal iniciado pela Igreja na Alemanha é um caminho que poderia inspirar outros, adaptados ao temperamento francês”.

“O Papa Francisco, que dizemos frequentemente que era ‘anticlerical’ – o que lhe rendeu mal-entendidos entre o clero que se sentia subestimado –, tomou o cuidado de não re-clericalizar a Igreja, como tem a tentação de fazer, ao ordenar, por exemplo, mulheres ministras, acrescenta Michel Cool. Isto está explicitamente escrito na exortação apostólica sobre a Amazônia! A solução que ele parece privilegiar é poder confiar posições de responsabilidade e de direção que não sofrem com a concorrência ou com a dominação clerical ou masculina. Ele fez isso nomeando, por exemplo, uma mulher para a vice-presidência da secretaria de Estado. Mas inclusive na França, já jogamos esta carta da corresponsabilidade: por exemplo, desde 2018, a Missão da França conta com uma delegada-geral que foi eleita pelos padres e leigos da comunidade e que trabalha em trinômio com o bispo e o vigário geral”.

E as mulheres cardeais? Para constar, a historiadora Lucetta Scaraffia despertou certa comoção no Vaticano ao fazer esta defesa em 2013. “A questão do cardinalato é delicada porque a função cardinalícia está atualmente ligada ao governo sacerdotal da Igreja, estima ainda François Daguet: cada cardeal recebe a regência de uma igreja em Roma. Mas as atuais prescrições canônicas não são, no momento, de instituição divina, e o próprio cardinalato não está intrinsecamente ligado à ordem sacerdotal. Com relativa regularidade, alguns sugerem que leigos, eventualmente mulheres, possam assumir essa função. O problema é que a principal função do Colégio dos Cardeais é a eleição do Sumo Pontífice. De fato, o colégio cardinalício é uma redução do colégio episcopal, responsável por eleger o bispo de Roma e aconselhá-lo. Esta é a razão pela qual o Direito Canônico vincula o cardinalato e o sacerdócio ministerial. Mas, no que diz respeito às funções de conselho do Papa, é difícil entender por que as mulheres não poderiam assumir tais responsabilidades”.

A questão das mulheres no governo da Igreja permanece espinhosa, como testemunham as reações levantadas pelo gesto de Anne Soupa. Além da questão das mulheres, o que está em jogo é, fundamentalmente, a transição para uma Igreja mais sinodal e colegiada, que não se torne um parlamento, ou seja, uma estrutura calcada sobre um modelo gerencial ou político. Um cientista político falaria da transição de um modelo monárquico para um modelo mais democrático, mas a comparação atingiria rapidamente o seu limite, porque não permite integrar a dimensão mística e espiritual da instituição. Esta dualidade espiritual e política explica as dificuldades que surgem – e as divergências que aparecem – quando se trata de refletir sobre o poder na Igreja. “Ser bispo não é uma questão pessoal. Se o processo de escolha permanecer vertical, sem que o povo em questão tenha a iniciativa, o fato de que seja uma mulher aporta pouca coisa. É uma concepção clerical e não colegiada”, reage pelo Twitter Isabelle de Gaulmyn, editora-chefe do jornal La Croix.

Assim, o sínodo sobre a sinodalidade anunciado pelo Papa Francisco no Vaticano para 2022 merecerá uma atenção especial: “Como desenvolver a cooperação comum e fraterna entre os batizados ordenados e os batizados não ordenados, e para que sejam corresponsáveis pela vida eclesial, de acordo com o desejo do Papa Francisco?, pergunta-se Michel Cool. O pré-requisito para um progresso sério nessa direção é que as mulheres não estejam mais no ‘último banco’, para usar o título de um livro de Lucetta Scaraffia (Du dernier rang, Salvator, 2016)”. Um lugar para o qual Anne Soupa nunca se resignou.

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