Covid-19 mandou avisos prévios

Foto: Tomaz Silva/Agêcia Brasil

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06 Mai 2020

"Se as autoridades mundiais tivessem prestado atenção aos alertas da OMS (Organização Mundial da Saúde) não estaríamos frente a essa calamidade. Em setembro de 2019, pouco antes do novo coronavírus aparecer em Wuhan, a OMS advertiu que “enfrentamos a real ameaça de uma pandemia fulminante, sumamente mortífera, provocada por um patógeno respiratório que poderá matar de 50 a 80 milhões de pessoas, e liquidar quase 5% da economia mundial. Uma pandemia dessa dimensão seria uma catástrofe e desencadearia caos, instabilidade e insegurança generalizadas. O mundo não está preparado", escreve Frei Betto, escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros.

Eis o artigo.

 

Governantes como Trump e Bolsonaro tentam justificar o estrago que a pandemia causa em seus países com a alegação de que foram surpreendidos. Ainda assim, subestimam os riscos ao declarar que se trata de uma “gripezinha”...

Em maio de 2008, o National Intelligence Council, órgão de previsão geopolítica da CIA, enviou à Casa Branca informe no qual dizia que se previa, para antes de 2015, “o surgimento de uma nova enfermidade respiratória, altamente transmissível e virulenta, para a qual não existem contra-medidas adequadas, e que poderá se converter em pandemia global”.

O informe acrescentava que “se surgir uma enfermidade pandêmica provavelmente ocorrerá em uma área caracterizada por alta densidade populacional e estreita associação entre humanos e animais, como muitas áreas do sul da China e do sudeste da Ásia”. E os autores opinavam que as autoridades talvez demorassem a agir: “Poderiam passar semanas antes de obter resultados de laboratório precisos que confirmem a existência de uma nova enfermidade com potencial pandêmico. (...) Apesar dos limites impostos às viagens internacionais, os viajantes com leves sintomas ou pessoas assintomáticas poderiam transmitir a enfermidade a outros continentes. Ondas de novos casos ocorreriam em poucos meses. A ausência de uma vacina eficaz e a falta universal de imunidade converteria as populações em vulneráveis à infecção. No pior cenário, dezenas a centenas de milhares de estadunidenses, dentro dos Estados Unidos, adoeceriam, e as mortes, em escala mundial, seriam calculadas em milhões.”

Em janeiro de 2017, o Pentágono alertou Trump “da ameaça mais provável e significativa, para os cidadãos estadunidenses, de uma nova enfermidade respiratória”. E, nesse caso, “todos os países industrializados, incluído os Estados Unidos, careceriam de respiradores, medicamentos, leitos hospitalares, equipamentos de proteção e máscaras para enfrentar uma possível pandemia” (Ken Klippenstein, Military Knew Years Ago That a Coronavirus Was Coming, The Nation, New York, 1 abril 2020). Trump não deu ouvidos.

Se as autoridades mundiais tivessem prestado atenção aos alertas da OMS (Organização Mundial da Saúde) não estaríamos frente a essa calamidade. Em setembro de 2019, pouco antes do novo coronavírus aparecer em Wuhan, a OMS advertiu que “enfrentamos a real ameaça de uma pandemia fulminante, sumamente mortífera, provocada por um patógeno respiratório que poderá matar de 50 a 80 milhões de pessoas, e liquidar quase 5% da economia mundial. Uma pandemia dessa dimensão seria uma catástrofe e desencadearia caos, instabilidade e insegurança generalizadas. O mundo não está preparado”.

O presidente Obama, em dezembro de 2014, insistiu que se deveria investir em infraestruturas sanitárias para enfrentar a possível chegada de uma nova epidemia: “Pode ser que chegue um momento em que tenhamos que enfrentar uma enfermidade mortal. E para poder lidar com ela, necessitamos infraestruturas, não apenas aqui nos Estados Unidos, mas também em todo o mundo, para conseguir detectá-la e isolá-la rapidamente” (2 de dezembro de 2014, durante visita ao National Institute of Health (NIH), em Bethesda, Maryland).

Bill Gates, em 2015, também advertiu: “Pode ser que surja um vírus com o qual as pessoas se sintam aparentemente bem, mesmo infectadas, para viajar de avião ou ir ao supermercado... Isso faria com que o vírus se difundisse pelo mundo inteiro de modo muito rápido... O Banco Mundial calcula que uma epidemia planetária desse tipo custaria pelo menos três bilhões de dólares, com milhões de mortos” (BBC News Mundo, Londres, 23/3/ 2020).

David Quammen, escritor de divulgação científica e autor de Contágio – infecções animais e a próxima pandemia humana, viajou pelo mundo para pesquisar vírus zoonóticos, que passam dos animais aos humanos. Segundo ele, houve “falta de preparação dos governos e dos sistemas públicos de saúde para enfrentar um vírus como este. (...) A ciência sabia que ia ocorrer. Os governos sabiam que podia ocorrer, mas não se preocuparam em se preparar. Os alertas diziam: pode ocorrer no próximo ano, em três anos, ou em oito. Os políticos diziam a si mesmos: não gastarei dinheiro por algo que pode não ocorrer durante meu mandato. É por isso que não se gastou dinheiro em mais leitos hospitalares, em unidades de terapia intensiva, em respiradores, máscaras e luvas. Não havia vontade política, como não há para combater as mudanças climáticas” (El País, 19/4/2020).

Como afirma Ignacio Ramonet, do Le Monde Diplomatique, a Covid-19 foi mais previsível que o assassinato de John Kennedy e a queda das Torres Gêmeas. A tragédia poderia ser evitada, mas a lógica dos governos, deturpada pela teoria do Estado mínimo e redução de investimentos na área social, impediu que medidas eficazes fossem tomadas. Agora, a humanidade chora sobre o leite derramado. Até que surja uma vacina e o destino nos prive de mais um coronavírus.

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