Religião tradicional africana e a veneração dos ancestrais

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05 Mai 2020

Ludovic Lado, antropólogo jesuíta diz que o costume africano de venerar os mortos assemelha-se à crença católica na comunhão dos santos.

A entrevista é de Lucie Sarr, publicada por La Croix International, 30-04-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O povo bamiléké compõe o maior grupo étnico de Camarões; seus membros vivem principalmente nas regiões ocidentais do país. São conhecidos por terem uma espiritualidade rica, centrada na veneração dos ancestrais.

O Pe. Ludovic Lado, jesuíta, antropólogo camaronês, conversou com Lucie Sarr, do sítio La Croix Africa, sobre este povo singular.

Eis a entrevista.

Qual a estrutura religiosa tradicional do povo bamiléké?

A estrutura religiosa tradicional dos bamilékés centra-se na veneração de relíquias dos ancestrais. Para ser “ancestralizado” – isto é, venerado como um ancestral –, o falecido deve satisfazer uma série de condições: ter tido uma boa morte (excluem-se mortes por afogamento, suicídio, etc.); ter sido casado e gerado descendentes; ter mostrado grande integridade moral durante a vida; ter sido objeto de cerimônias festivas de “ancestralização”, etc.

Após o enterro e o período de luto, aguardam-se alguns anos antes de se organizar uma cerimônia para exumar o crânio e trazê-lo de volta ao santuário da família, onde estão também os crânios dos demais ancestrais que precederam o falecido.

Este lugar do crânio é um lugar de sacrifícios e atos de veneração. É o lugar sagrado par excellence do agregado familiar, onde os descendentes do morto que foram “ancestralizados” vêm para fazer as oferendas.

No entanto, estes ancestrais não são deidades, mas intermediários entre Deus e as pessoas. Os membros não se dirigem a Deus diretamente, mas através dos ancestrais.

Entre os bamilékés, existe algum culto aos ancestrais?

Não sei se o termo “culto” seja apropriado. Prefiro falar de veneração dos ancestrais. Para o descendente do falecido “ancestralizado”, trata-se de ofertar sacrifícios no lugar sagrado onde se mantém o crânio exumado.

Isso pode ser feito para pedir um favor (proteção, saúde, trabalho, sucesso, etc.) para si próprio ou algum membro da família. Pode ser feito também para agradecer por um favor obtido.

Muitas vezes, é o sucessor do falecido ancestralizado quem coordena o sacrifício que consiste em borrifar com óleo de palma, sal ou sangue animal (de galinha, cabra, etc.).

Em geral, a cerimônia acontece quando alguém sente que está em perigo ou que nada funciona, consigo ou com alguém da família. O solo do lugar onde se mantém o crânio do ancestral é igualmente sagrado, e uns podem ser levados a esfregar ou marcar a testa dos filhos como uma forma de bênção.

Nas práticas rituais dos bamilékés, o que não é reconciliável com o cristianismo?

De minha parte, não vejo nada. Podemos comparar estes sacrifícios com aqueles do Antigo Testamento.

Em relação ao cristianismo, considero a veneração dos ancestrais como o Antigo Testamento do meu povo. De certa forma, podemos comparar a veneração com a “comunhão dos santos”, que inclui os falecidos.

Por isso, muitos teólogos africanos têm aprofundado a noção de ancestralidade ao estabelecer uma conexão entre Cristo e o ancestral no sentido africano do termo. Por exemplo, Christ our Ancestor é o título de um livro do teólogo tanzaniano Charles Nyamiti.

Isso é feito também com os santos enquanto figuras ancestrais. Há muitas teses teológicas sobre esse assunto.

Do ponto de vista pastoral, o que o clero tende a desencorajar entre os leigos é o sacrifício de cabras ou galinhas, e as libações dos ancestrais.

A realidade é que muitos estão na igreja enquanto as coisas vão bem, mas, numa situação de insegurança existencial, correm para a vila a fim de consultar-se com os adivinhos, e frequentemente isso envolve sacrifícios feitos aos ancestrais para implorar por ajuda.

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