A eutanásia, problema humano. Artigo de Andrés Torres Queiruga

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21 Fevereiro 2020

"Usar a eutanásia para qualquer outro propósito que não seja aquele ao qual aponta sua etimologia (ajudar a ‘morrer bem’), seria uma indignidade humana, seja pela ortodoxia religiosa ou por programa de partido". 

A opinião é de Andrés Torres Queiruga, teólogo espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, 16-02-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo. 

Usar a eutanásia para qualquer outro propósito que não seja aquele ao qual aponta sua etimologia (ajudar a ‘morrer bem’), seria uma indignidade humana, seja pela ortodoxia religiosa ou por programa de partido

O papel da Igreja é infundir confiança, anunciando a segurança de um Deus Abbá, “pai-mãe”, que envolve nossa vida com um amor mais poderoso que a morte, capaz de nos salvar e nos plenificar com uma esperança contra toda desesperança

Karl Jaspers falou com profundidade sobre as “situações limite”. Definem o mais específico do ser humano e não podemos mudá-las, mas sim somente esforçarmo-nos para geri-las da melhor maneira possível. Nascer, ser nascidos, é uma. A morte é outra, a última; em alguns aspectos a mais delicada. Desde que há humanidade, ela esteve rodeada de um profundo respeito, por veneração, medo ou esperança. Hoje, o medo a converte em tabu para muitos. A eutanásia a traz, por via indireta, à publicidade, expondo-a a ser utilizada com fins espúrios, pervertendo seu significado.

Usá-la para qualquer outro propósito que não seja aquele ao qual aponta sua etimologia (ajudar a ‘morrer bem’), seria uma indignidade humana, seja por ortodoxia religiosa ou por programa de partido. Como seria miséria intelectual resolvê-la a base de tópicos: esquerda contra direita, ou laicismo contra a Igreja. Há muito tempo que estas tentações contaminam o meio-ambiente. Digno e inteligente somente pode ser buscar entre todos os que possamos considerar melhor para ajudar às pessoas nessa difícil situação.

Disso, uma primeira necessidade: dignificar a discussão pública com diálogos honesto e informação fidedigna; mostrar a seriedade suprema do assunto, evitando que seja entregue aos tópicos fáceis ou, pior ainda, criando um ambiente “tanatófilo”, trivializando a morte e promovendo de maneira irresponsável essa letal tendência ao suicídio que está sendo uma praga tão terrível como soterrada.

Trata-se, insisto, de uma pergunta radicalmente humana, anterior a toda divisão de partido, credo ou ideologia. Não sou moralista especializado na casuística específica, nem médico que possa calibrar o modo ou a efetividade das distintas medicações. Desde a teologia, me interessa insistir em que a eutanásia não é imediatamente um problema religioso, mas sim um problema moral: buscar quais recursos médicos, quais leis civis, quais ajudas pessoas são as mais adequadas para ajudar que a pessoa possa enfrentar dignamente sua morte.

A resposta não está escrita na Bíblia, mas sim na realidade, examinando entre todos os processos psíquicos, as relações familiares, as consequências sociais da decisão que irá tomar. Porém, tampouco, nesses slogans, que com apriorismo dogmático repetem como evidente a identificação de “morte digna” com eutanásia ativa ou suicídio assistido.

É preciso pressupor a honestidade dos demais, respeitando o princípio dialógico de que todas as posturas sérias buscam a morte digna e desejam encontrar a melhor maneira de alcançá-la.

Concretando mais, penso que há dois extremos a evitar. Da sua parte, hoje a religião deve reconhecer que, no nível moral, não se tem nem mais, nem menos direito que os demais para participar no diálogo e que, como disse Habermas, deve traduzir e apresentar nesse sentido moral as razões que possam vir de sua rica herança tradicional. Os demais devem, portanto, respeitar essas razões; não as que, com uma audácia ignorante, lhe é atribuída muitas vezes (neste sentido, deveriam ler, por exemplo, o documento da Conferência Episcopal Espanhola, “Semeadores de esperança”, 2019).

Qual é, então, o papel da religião neste problema? Creio que nada mais, porém também nada menos, que centrar-se em seu papel específico. Esclarecerei isso com um exemplo. Quando, ao falar do tema no número 106 da revista Encrucillada afirmei: “o que é bom para Ramón Sampedro, é bom para Deus”, disse algo que é evangelicamente axiomático, porém que escandalizou muitos. A um amigo que me reprovou, com um parecer oficial, respondi: por acaso o que é bom para ti não é bom para tua mãe? Se Jesus de Nazaré nos ensinou algo, é isso consiste justamente em que a única coisa que Deus busca é o bem de suas criaturas, nosso bem. O problema está em que, por respeito e para não anular nossa autonomia, é preciso deixar a nós a tarefa de encontrar o caminho e a decisão de segui-lo.

Em um passado pré-moderno era compreensível que a Igreja pensasse que tudo estava já ditado na Bíblia e que, portanto, dispunha a priori de resposta para qualquer caso novo. Hoje compreendemos que, com o Evangelho em mãos, seu papel autêntico consiste, por um lado, em chamar e urgir ao cumprimento das normas que todos descubramos com as melhores; por outro, e sobretudo, em infundir confiança, anunciando a segurança de um Deus Abbá, “pai-mãe”, que envolve nossa vida com um amor mais poderoso que a morte, capaz de nos salvar e nos plenificar com uma esperança contra toda desesperança.

 

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