Greta Thunberg, uma profeta para o Advento. Artigo de Thomas Reese

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18 Dezembro 2019

Durante o Advento, nas leituras da Escritura usadas na missa, os católicos ouvem muitas coisas do profeta Isaías. Ele fala de esperança. Desertos florescerão; refugiados retornarão a Jerusalém; a paz e a justiça reinarão.

O comentário é do jesuíta estadunidense Thomas J. Reese, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de “O Vaticano por dentro” (Ed. Edusc, 1998), em artigo publicado por Religion News Service, 17-12-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Alegrem-se o deserto e a terra seca, o campo floresça de alegria”, diz Isaías. “Cubram-se de flores transbordando de contentamento e alegria.”

Essa é uma profecia alegre e esperançosa. É isso que Deus quer para nós.

Mas, de fato, as flores estão murchando, as terras agrícolas estão se transformando em deserto, e temos poucas chuvas ou inundações.

Os cientistas nos dizem que os oceanos estão subindo. As cidades serão inundadas. Os padrões climáticos mudarão. Milhões de pessoas sofrerão. O dano que estamos causando à Mãe Terra pode ser impossível de curar.

Como diz o papa Francisco na Laudato si’, “as previsões catastróficas já não podem ser olhadas com desprezo e ironia” (n. 161).

Os refugiados também não estão retornando para as suas casas, como Isaías previu. De fato, temos mais refugiados provocados por guerras, conflitos civis e mudanças climáticas. Todas as projeções dizem que isso vai piorar. E a nossa resposta é construir muros e fechar os nossos portões.

Outras Escrituras do Advento nos encorajam a ter paciência enquanto aguardamos a vinda do Senhor, mas eu concordo com a profeta Greta Thunberg, de 16 anos de idade, que o tempo está se esgotando.

“Eu quero que vocês entrem em pânico”, disse a adolescente sueca a CEOs e líderes mundiais na reunião do Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro passado. “Eu quero que vocês sintam o medo que eu sinto todos os dias. E então quero que vocês ajam. Quero que vocês se comportem como se a nossa casa estivesse pegando fogo. Porque ela está.”

Na cúpula climática das Nações Unidas em setembro, ela disse aos líderes mundiais: “Vocês roubaram os meus sonhos e a minha infância com as suas palavras vazias. (...) As pessoas estão sofrendo. As pessoas estão morrendo. Ecossistemas inteiros estão entrando em colapso”.

“Estamos no início de uma extinção em massa, e tudo o que vocês conseguem falar é sobre dinheiro e contos de fadas do eterno crescimento econômico. Como vocês se atrevem?”

Ela observou que os cientistas têm alertado sobre as mudanças climáticas há 30 anos, e que os líderes mundiais afirmam entender a urgência do problema.

“Eu não quero acreditar nisso”, disse ela. “Porque, se vocês realmente entenderam a situação e, mesmo assim, continuaram a não agir, então vocês seriam maus, e eu me recuso a acreditar nisso.”

Eu não sou tão confiante. Como membro da geração boomer, eu me pergunto: “Somos estúpidos ou maus?”. As gerações futuras terão que viver no mundo que nós arruinamos. Elas olharão para nós como nós olhamos para os alemães que viveram a Shoá e dirão: “Eles deviam saber”.

O papa adverte: “Às próximas gerações, poderíamos deixar demasiadas ruínas, desertos e lixo”.

“O ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida atual – por ser insustentável – só pode desembocar em catástrofes”, continua, catástrofes que já estamos testemunhando.

O papa Francisco argumenta que as mudanças climáticas não são apenas uma questão política ou econômica, mas também uma questão moral, pois afeta as pessoas e toda a criação de Deus.

Ele pede uma conversão pessoal, assim como uma mudança social.

Alguns católicos se juntaram a ele. Por exemplo, existe o Movimento Católico Global pelo Clima, que trabalha para dar vida à Laudato si’ pela justiça climática. E, em menor escala, na semana passada, do lado de fora da minha janela, eu vi painéis solares sendo entregues para os telhados da Gonzaga College High School, em Washington.

Isaías nos dá uma mensagem de esperança. Ele nos diz que Deus quer paz e prosperidade para todos os povos. Ele nos deu um planeta que pode nos alimentar, se cuidarmos dele e o protegermos como nossa casa comum.

Durante o Advento, recordamos a vinda de Cristo na história. Ele veio em pobreza e fraqueza. Ele nasceu de uma mãe adolescente em um país de terceira categoria que era ocupado por soldados estrangeiros. Em tenra idade, ele foi um refugiado no Egito, sendo expulso de sua casa por um tirano corrupto e sedento de poder. A vinda de Cristo mostra o amor e a compaixão de Deus e o seu desejo de habitar conosco, até mesmo na nossa dor.

O Advento também é um momento para lembrar que Jesus entra nas nossas vidas sempre que permitimos que ele tenha acesso. Ele vem até nós nas Escrituras, ele vem até nós nos sacramentos, ele vem até nós nas nossas famílias, nos nossos irmãos e irmãs, especialmente nos pobres e refugiados. Jesus está constantemente se oferecendo a nós todos os dias das nossas vidas.

Por fim, o Advento é um tempo para relembrar que Cristo voltará. Jesus virá para estabelecer o reino do seu Pai, um reino de prosperidade e paz, um reino de justiça e amor. Cristo virá no último dia com poder para julgar o mundo. Ele vai consertar todas as coisas.

Mas o que faremos enquanto isso? As Escrituras nos dizem para sermos pacientes, mas não para ficarmos de braços cruzados enquanto esperamos, não para sermos como os ricos exploradores condenados pelos profetas.

O que devemos fazer é ser como Cristo: alimentar os famintos, cuidar dos cegos e deficientes, encorajar os fracos de coração e pregar o evangelho por palavras e ações. E, hoje, acrescentaria Jesus, proteger a Mãe Terra, nossa casa comum. É isso que somos convidados a fazer até que Cristo volte.

Greta Thunberg é uma profeta do Advento que nos dá esperança, mas nos desafia a preparar o caminho do Senhor, protegendo a criação do Pai. Ela sofreu o mesmo desprezo e os mesmos ataques lançados contra outros profetas pelos poderosos e ricos.

Será que vamos ouvi-la ou concretizaremos as catástrofes que os cientistas preveem?

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