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16 Dezembro 2019

"Que a fragilidade não seja um álibi que esconde a impotência ou a incapacidade de tomar nas mãos a própria vida".

O artigo é de Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, publicado por Jesus, 12/2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O grande monge Bernardo de Claraval cunhou uma exclamação extraordinária: "Optanda infirmitas!", "Ó desejável fraqueza!" (Sermões sobre o Cântico dos cânticos 25.7). Na vida de cada um de nós, é de fato decisivo experimentar a fraqueza, uma experiência inevitável que pode nos dar a consciência de não ser Deus, mas criaturas "com faltas", necessitadas da presença e cuidado umas das outras. Uma experiência que pode proteger contra, se a cegueira não for dominante, o orgulho, o narcisismo e o culto natural egolátrico do próprio "eu".

Infelizmente, no entanto, acima de tudo no espaço cristão, em vez de captar toda a bem-aventurança possível inerente à fraqueza, muitas vezes se elevam hinos à fragilidade. Existe uma forte confusão na linguagem sobre fraqueza, fragilidade e vulnerabilidade, e isso certamente não favorece um caminho autêntico de crescimento humano e cristão. A ênfase com que se fala de fragilidade e é invocada como justificativa de muitos comportamentos, é apenas uma estratégia para capturar pessoas frágeis e exercer sobre elas um poder e uma atração que não estão no espaço da caridade e da solidariedade.

De fato, as pessoas frágeis devem ser ajudadas a acessar a fortaleza, que é significativamente uma das quatro virtudes cardeais. A sua fragilidade, por outro lado, pede a quem as encontra que aprenda a se sentir vulnerável: vulnerabilidade não é fragilidade! No esvaziamento e no rebaixamento de Jesus Cristo (cf. Filip 2,6-8), Deus se fez vulnerável, um verdadeiro homem com uma vida na carne (sárx: Jo 1,14), e assim mostrou sua solidariedade conosco até a morte. As feridas, os estigmas da paixão, que também permaneceram no corpo glorioso do Cristo ressuscitado, contam essa vulnerabilidade de Deus para sempre. Sim, em nós humanos a vulnerabilidade é um local de encontro com Deus e com os outros: isso não é uma fraqueza, mas é a nossa força. Eis como podemos entender as palavras paradoxais do Apóstolo: "Pois, quando sou fraco é que sou forte" (2 Cor 12, 10).

Vulnerabilidade significa a capacidade de ser feridos, abertura e exposição ao outro, e nasce da confiança, renúncia ao controle, desejo de abertura ao outro. A fraternidade brota da vulnerabilidade, porque o muro da indiferença cai, o véu da lei desaparece (cf. 2Co 3,13-16) e o coração de pedra é transformado em coração de carne (cf. Es 11,19; 36, 26). É por isso que não é a fragilidade que deve ser buscada, porque, como todo mal e toda pobreza, nos é dada pela vida e pelos eventos em que estamos imersos; devemos sim procurar a fortaleza, libertar-nos da fragilidade e viver em plenitude. Que a fragilidade, portanto, não seja um álibi que esconde a impotência ou a incapacidade de tomar nas mãos a própria vida.

Viver exige ter confiança na vida, lutar em prol da vida e amá-la com todas as próprias forças. A existência de cada um de nós não é feita de ações heroicas e prodigiosas, mas perde sabor e sentido se for entregue à fragilidade, à indolência, à inércia, à inconclusividade. E a virtude da fortaleza – que fique claro - nada tem a ver com dureza ou a violência, porque exige justamente uma luta contra os impulsos mortíferos que habitam o coração humano: exige coragem, ousadia, determinação e, acima de tudo, perseverança, com a qual - Jesus nos disse - é possível "salvar" as nossas vidas (cf. Lc 21, 19).

Portanto, é mais do que nunca necessário estar vigilante para não ser seduzido por essas justificativas contínuas da fragilidade, também porque a experiência me diz que muitos acabam de fato usando egoisticamente as fragilidades alheias, sempre defendidas, a fim de defender as próprias; eles gostam de explorar a fragilidade alheia para conservar o poder exercido sobre eles psicologicamente ou com inconsistentes acentos terapêuticos. Nas vidas comunitárias e familiares, são bem conhecidas essas derivas que impedem uma verdadeira comunhão e contradizem um caminho comum, enquanto justificam dentro da convivência humana trilhas desprovidas de qualquer convergência e sem nenhuma solidariedade fraterna.

Portanto, não confundamos fragilidade com vulnerabilidade e não esqueçamos que a fortaleza é uma virtude cardeal, uma verdadeira pedra angular da vida humana e cristã.

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