'Homem e mulher os criou': E como ficam os LGBT?

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05 Julho 2019

Uma reflexão sobre o documento 'Homem e mulher os criou: para uma via de diálogo sobre a questão do gender na educação'. 

O texto é de Luís Corrêa Lima, sacerdote jesuíta e professor do Departamento de Teologia da PUCRio. Trabalha com pesquisa sobre gênero e diversidade sexual, e no acompanhamento espiritual de pessoas LGBT.

Eis o artigo. 

No ano em que se comemoram os 50 [anos] de Stonewall, a grande eclosão dos protestos de LGBT em favor de sua cidadania, o Vaticano lançou um documento sobre estudos e controvérsias a respeito de gênero. O texto é da Congregação para a Educação Católica, intitulado: Homem e mulher os criou: para uma via de diálogo sobre a questão do 'gender' na educação (disponível aqui). Basicamente reitera ensinamentos tradicionais da Igreja Católica sobre antropologia e sexualidade, ao mesmo tempo que abre alguns caminhos potencialmente promissores.

O título remete aos primeiros capítulos da Bíblia, à criação do ser humano homem e mulher, para se unirem por toda vida, procriarem e povoarem a terra. O subtítulo é bem interessante, propondo um diálogo, via de duas mãos, no tratamento de um assunto polêmico e não raro explosivo que é gênero. Uma boa novidade deste documento é a distinção entre ideologia e diversas pesquisas sobre gênero realizadas pelas ciências humanas, reconhecendo não faltar investigações procurando aprofundar adequadamente o modo em que se vive, nas diversas culturas, a diferença sexual entre homem e mulher.

Não há, portanto, razão para histeria toda vez que se fala de gênero. É necessário buscar a reflexão serena. Os estudos sobre este tema são bastante heterogêneos e não há uma teoria unificadora e abrangente. Em geral, evidenciam o papel da cultura e das estruturas sociais na configuração e na relação entre os gêneros, questionam a subalternidade de um gênero a outro, e, nas últimas décadas, contemplam a realidade de pessoas LGBT.

Quando à chamada ideologia de gênero, a hierarquia católica a acusa de negar diferença e a reciprocidade natural entre homem e mulher, de prever uma sociedade sem diferenças de sexo, e de promover uma identidade pessoal e uma intimidade afetiva desvinculadas da diversidade biológica entre homem e mulher. A identidade humana fica à mercê de uma opção individualista. O sexo biológico (sex) e função sociocultural do sexo (gender) podem se distinguir, mas não se separar. Não se deve aniquilar a natureza, que abrange tudo o que recebemos como fundamento prévio de nosso ser e todas as nossas ações no mundo.

A bem da verdade, há uma realidade bem complexa nestas questões. Pesquisas de neurociência afirmam que a biologia do sexo não se reduz à genitália e à anatomia. É o cérebro que define a identidade de gênero e a orientação sexual. No caso de pessoas transgênero, o cérebro e a percepção de si não correspondem à genitália e ao restante do corpo. A pessoa se sente homem em um corpo de mulher, ou se sente mulher ou travesti em um corpo de homem. Com relação à orientação sexual, há odores ligados à masculinidade e à feminilidade, os feromônios, que quando inalados são identificados pelo cérebro e influem na percepção e no comportamento. No mundo animal, estes odores são fundamentais na aproximação entre os sexos e no acasalamento. Tomografias especializadas revelam que o cérebro de mulheres homossexuais responde aos feromônios de forma diferente do cérebro de mulheres heterossexuais, e de forma similar ao de homens heterossexuais. Experimentos semelhantes com homens homossexuais chegaram a resultados opostos e simétricos. Mesmo considerando também fatores psicossociais incidindo nesta realidade, ser LGBT não é escolha e nem opção individualista. São faces da complexa diversidade entre homem e mulher. Não se pode impor a todos que vivam como se fossem heterossexuais e cisgênero, isto é, identificados com o sexo que lhes é atribuído ao nascer.

Outra boa novidade deste documento é o alerta contra o bullying, que é a prática de atos de violência física ou verbal, intencionais e repetidos, contra uma pessoa indefesa, podendo causar-lhe danos físicos e psicológicos. Na educação de crianças e jovens, deve-se respeitar cada um na sua condição diferente e peculiar. Que ninguém seja vítima de violência, insultos e discriminações. Isto é muito importante, pois muitas vezes crianças e jovens LGBT são duramente oprimidos. Não é raro a escola e até a própria família tornarem-se um inferno para estas pessoas.

Como o documento é uma proposta para fomentar o diálogo, e não um pronunciamento definitivo e inquestionável, cabe ouvir os demais parceiros possíveis deste diálogo, entre os quais os especialistas nas diversas pesquisas sobre gênero, bem como as pessoas em questão, que são os próprios LGBT. Sua experiência de vida e sua consciência não podem ser negligenciadas. A prática pastoral do papa Francisco, recebendo em sua casa homossexuais e transgênero com seus respectivos companheiros, é um exemplo muito feliz de acolhida e escuta, que deveria ser seguido pelos pais de família que têm filhos assim.

Enfim, este diálogo é um longo processo que, se bem conduzido, poderá trazer um grande benefício a todos. Há muitas feridas a serem curadas e vidas a serem salvas da opressão, da depressão e do suicídio. Como diz com toda razão uma pesquisadora de gênero, que todos possam viver e respirar em seu próprio gênero e sexualidade, sem medo da patologização, da marginalização e da violência.

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