"Uma igreja que é machista não é cristã". Entrevista com Carlos Osma, evangélico e militante gay

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02 Julho 2019

"A Bíblia foi roubada de nós, cristãos LGBT", diz Carlos Osma, espanhol, professor de matemática, que também se define como cristão, protestante e gay. Também afirma que "uma igreja que é machista não é cristã". "Pertence simplesmente a algumas pessoas", explica. “E eu acredito que a Bíblia tem muitas histórias, que todos, não apenas crentes, não crentes, gays, lésbicas ... fazem parte de nossa cultura. Então, tem coisas para contribuir. Eu acredito que todos podem lê-la".

De passagem por Buenos Aires, para apresentar seu livro Solo un Jesús marica puede salvarnos (um grande título que escandalizou a muitos), conversou com o jornal Página12 sobre o que significa ler a Bíblia em uma chave gay, e por qual razão convive com uma instituição cujas posturas conservadoras condenam à dor e ao ostracismo muitas pessoas que saem da norma.

"Como a maioria dos protestantes, a Bíblia me acompanha desde antes de começar a ler. Todas as histórias dos patriarcas, do rei Davi, da rainha Ester e da vida de Jesus, eu as conheço desde que faço uso da razão, e desde sempre me fascinou. Sei que o texto bíblico pode ser um lugar de opressão, e sei disso porque vivi em minha própria carne, mas também que é uma fonte de libertação ... e essa é a minha vontade quando escrevo sobre a Bíblia, transmitir tudo aquilo que me permitiu me libertar, que me fez mais feliz ... Não entendo a Bíblia como uma lei, mas como um lugar onde podemos encontrar o Deus de Jesus, do Evangelho, explica em seu blog (homoprotestantes.blogspot).

A entrevista é de Sônia Santoro, publicada por Página/12, 01-07-2019. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Milita em torno do tema da identidade sexual na religião protestante, mas não tem um papel institucional na igreja.

Não. Eu participo de grupos cristãos, católicos, protestantes e ecumênicos. Pessoalmente, sou protestante e pertenço a uma igreja de tradição histórica, mas aberta à comunidade LGBT.

De onde você é?

Itinerante. Nasci no País Basco, mas fui educado na comunidade valenciana. Eu moro em Barcelona há mais de 20 anos.

Sua família é religiosa?

Sim.

Foi antes crente que gay? Como é essa relação?

Em relação à descoberta da minha identidade, sim. Eu descobri minha identidade quando tinha 12 ou 13 anos de idade. Tampouco sabia como nomeá-la. Hoje em dia, há muito mais informação. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, sentia uma atração. Mas, eu não tinha as ferramentas para entender o que estava acontecendo comigo. Na Espanha, há poucos protestantes. Quando minha família foi morar em Valência, não havia ninguém protestante, só minha família. Lá, as reuniões eram realizadas em casa, minha mãe lia a Bíblia, conversávamos. Mas, até os meus 15 anos não fui a uma igreja, porque ali não havia.

Sentiu-se bem na igreja?

A igreja que começamos a frequentar, quando eu era adolescente, era muito conservadora. Aí era impossível, era uma contradição absoluta. Mas, não apenas a identidade sexual era uma contradição, mas a maneira como entendiam a fé, a rigidez, o medo de pensar, de lhe fazer perguntas. Tudo isso produziu choques. Depois, quando fui para Barcelona, a igreja da qual faço parte agora sofreu perseguição franquista, e são pessoas mais sensíveis à diferença. Então, embora em princípio não fossem uma comunidade inclusiva, pouco a pouco começaram a se abrir. São comunidades muito abertas para escutar os outros. Agora, casam pessoas do mesmo sexo, não há nenhuma diferença.

Estudou matemática.

Sim, sou professor do ensino médio. Eu também estudei ciências religiosas. São minhas duas paixões. A matemática que gosto muito e a religião. Eu combino as duas coisas, uma parte é o meu trabalho tradicional e a outra é uma vocação. Escrevo para o meu blog e várias revistas cristãs, principalmente LGBT.

Por que surgiu a ideia do livro?

Há vários anos, escrevo para revistas. Foi um momento para fazer uma revisão. E oferecer ferramentas que eu não tive quando era adolescente para poder viver sua orientação sexual e sua fé sem problemas. A Bíblia é o elemento principal, então, peguei artigos que eram uma leitura de um texto da Bíblia lido a partir de uma experiência gay.

Li um artigo sobre a parábola do filho pródigo. Como seria a perspectiva nesse caso?

Normalmente, é uma leitura heteronormativa, homofóbica. Diria que somos o filho pródigo que parte e que temos que nos arrepender, essa seria a leitura tradicional. Para mim, a principal leitura dessa parábola é a atitude do pai, de sair antes que o filho venha, o pai sai para abraçá-lo antes que chegue à casa. Para nós, homossexuais, essa atitude de perdão é muito importante. É difícil. Perdoar todas essas pessoas que nos trataram mal por muito tempo e que agora se arrependem porque percebem que erraram.

Os gays, na realidade, são expulsos...

Essa é a realidade. Com um olhar homofóbico, temos que nos desculpar porque saímos. E não, nós não saímos, fomos expulsos. Nossos pais nos expulsaram, quero dizer, nosso ambiente familiar, que é a parte mais dura. Portanto, nossa experiência não tem nada a ver com a do filho pródigo. Tem mais a ver com a do pai. Buscar esse perdão, essa tentativa de reconciliação, especialmente para nós, fechar as feridas.

Um olhar original.

Existem outras pessoas com esse olhar. Contudo, muitos não estão baseados na Bíblia. Eu leio a teoria queer, feminista ... que te ensinam como olhamos para os textos. Por exemplo, como uma mulher veria isso. A partir de minha experiência, como eu leio, não como eu deveria ler, mas como eu leio. Porque normalmente a Bíblia foi roubada de nós, cristãos LGBT. Pertence simplesmente a algumas pessoas. E eu acredito que a Bíblia tem muitas histórias, que todos, não apenas crentes, não crentes, gays, lésbicas ... fazem parte de nossa cultura. Então, tem coisas para contribuir. Eu acredito que todos podem lê-la.

E por que somente um Jesus marica pode nos salvar?

Há um artigo dentro do livro com esse título, que é muito mais dirigido ao coletivo LGBT, porque mesmo entre as pessoas LGBT, pessoas afeminadas, aquelas que não cumprem o papel de homem tal ou de mulher tal, são marginalizadas.

Dentro do mesmo coletivo?

Sim, acredito que sim. E, ao final, para buscar aceitação, se me comportar de maneira masculina, recebo mais aceitação. Se sou afeminado, recebo menos aceitação. Se colocar no lugar dessas pessoas é muito importante. Era uma crítica a isso, que muitas pessoas, especialmente as mais afeminadas, trans, são aquelas que abriram o caminho para nós. Foi mais uma crítica dentro do coletivo, mas se tornou um problema para os conservadores.

Como o livro foi lido na igreja e fora dela?

Em ambientes conservadores, houve uma crítica furiosa. Porque leem de forma literal e minha proposta é tudo menos literal. Para muitas pessoas, o título é uma ofensa. A palavra marica a carrego tatuada na minha pele e tem muita gente que se ofende com quem a utiliza, apesar de dizer que é carinhosamente ... é tão carinhoso que se é usado ao lado de Jesus já não é tão carinhosa. Eu ganhei o direito de poder usar esta palavra e colocá-la ao lado de Jesus. Porque a sofri, muitos a sofreram. Então, sei que se ofendem, minha intenção não era ofender, pois foi direcionado ao coletivo LGBT...

Mas, em geral, estou muito feliz. Outro dia, conversava com uma garota trans e ela me dizia: "Carlos, nunca havia me atrevido a ler a Bíblia assim". Há um texto em que digo que na cruz morre a minha falsa heterossexualidade e ressuscita quem sou. Ela disse: para mim, isso faz sentido, mas quando eu li isso, chorei. Porque tem a ver com o que sou, com a minha identidade. Quando nasci, me diziam que eu era um homem e agora sou uma mulher. Então, o positivo é que as pessoas possam ler a partir de seu olhar. Porque roubaram a Bíblia de nós. É meu convite.

E na escola como o receberam?

Muito bem. Em uma classe, sempre tem alguém homossexual ou garotas lésbicas. Além disso, é uma idade muito complicada, porque é quando se descobre. Agora, na Espanha, avançou-se muito, mas para que as pessoas possam se aceitar aos 18 anos, quando vão para a universidade. Contudo, nos ambientes educacionais são muito homofóbicos. Então, você está diante deles. Eles sabem que eu sou gay...

Você disse a eles?

Eu falo normalmente. Quando eu vou fazer um problema de matemática, por exemplo, pego o livro e digo para trabalharem na compreensão de leitura: "Leiam os problemas, sublinhem o que as mulheres fazem nesses problemas e o que os homens fazem..."

Sempre são concepções machistas, certo?

Sim. Então, faço com que reescrevam. E depois lhes digo: "Agora, refaçam para ser inclusivos com tal" ... os muçulmanos, por exemplo, também incluo a diversidade sexual.

Boa dica para incorporar a perspectiva de gênero à matemática.

E você trabalha mais coisas. Ajuda a muitas crianças que estão passando por situações... e depois outros para que entendam que se alguma vez tiverem um comportamento machista, homofóbico, saibam que não é certo, que isso não é correto.

Você também trabalha a partir da linguagem?

Para mim, uma das coisas que foi mais difícil é que escrevo me dirigindo como se meu leitor fosse uma pessoa gay. Aprendi isso porque quando ia à igreja sempre falavam no masculino, para homens. E as mulheres têm essa maravilhosa capacidade de saber que estão se referindo a elas. Também faço isso com os meus alunos. Ás vezes, falo com eles no feminino e eles ficam com raiva, então eu digo: "bom, mas isso acontece ao contrário". Mas, o livro é um convite para que um heterossexual faça o exercício que sempre fizemos para traduzir a nossa experiência na sua.

Como seria?

Por exemplo, quando falo da minha experiência da adolescência, que é de uma experiência gay. Mas, se você só vê uma experiência gay nisso, você nunca terá empatia com a minha. Eu tento fazer com que você possa se conectar com uma experiência de outra pessoa que tenha algo a ver com outra coisa. Porque, na realidade, muitas exclusões estão relacionadas.

Há um setor dentro das igrejas evangélicas muito conservador que, por exemplo, no Brasil, é contra os direitos sexuais e reprodutivos e a diversidade. Qual é a sua leitura?

Está relacionado a algo que acontece em muitas partes do mundo, não apenas na relação, mas fora dela. É o medo. Estamos em mudanças contínuas muito fortes, a sociedade muda em marcha forçada. Existem mais vozes. Então, algumas pessoas têm medo dessas mudanças e se colocam na defensiva, querem formas rígidas, que sempre sejam assim, sem mudanças, sem dúvidas. Infelizmente, dentro do movimento cristão é muito grande. Em nosso país, surgiu o VOX, por exemplo, e isso não tem nada a ver com a religião.

Muitas pessoas querem uma coisa segura, querem um mundo que não é este e estão dispostas a defendê-lo a todo custo. O que acontece é que do ponto de vista religioso, isso me surpreende muito, porque o cristianismo de Jesus não tem nada a ver com algumas normas detalhadas. Tem a ver com os seres humanos, com ouvi-los, com estar perto das pessoas, com compreensão. As formas rígidas para mim não são cristianismo, são outras coisas. Vem de fora, é um movimento que não é exclusivamente cristão, vem do outro lado, está acontecendo na sociedade.

No entanto, esses setores estão aliados com o poder e metidos no Estado...

Sim. É outra coisa que me faz pensar que não são movimentos cristãos. É que o cristianismo propõe, não impõe. Você não pode forçar as pessoas a acreditar, ser cristão. Então, todos esses movimentos que se aliam aos governos e pedem ... porque uma coisa é que pedissem liberdades para todos, mas o que pedem é restringir as liberdades para que somente aquelas que eles consideram existam. Esta é a coisa mais distante do cristianismo. Acredito que uma pessoa para ser cristã, católica, judia, ateia, deve ter a possibilidade de escolher, e é assim pela escolha, não quando que é imposto um caminho. Na Espanha, há muito alarme com o VOX. Mas, esses grupos já existiam, antes agiam secretamente, agora com os rostos descobertos, mas já existiam.

Qual é a relação do coletivo LGBT com as igrejas?

Na Espanha, por exemplo, quando se ia aprovar o casamento gay, realizaram uma manifestação em Madri, que foi organizada pela Igreja Católica, os evangélicos, os ortodoxos ... ou seja, a única atividade ecumênica no sentido de instituições religiosas foi realizada no meu país contra o casamento homossexual. Não para ajudar os refugiados, as pessoas que morrem no Mediterrâneo ... contra o casamento homossexual. Completamente distante do Evangelho.

Você nunca se afastou por esses motivos?

Não. Eu tenho fé. Outra coisa é que tem momentos que me sinto mais distante ou menos. Aceitar minha homossexualidade foi um enfrentamento com Deus. No começo, pensava que me rejeitava ... eu quero ter uma relação sincera, não de estruturas e normas.

Pergunto isso porque entrevistei várias vezes a religiosa brasileira Ivone Gebara, que foi "punida" pela Igreja Católica por se expressar pelo aborto, e ela continua nessa Igreja que tem tantas práticas discriminatórias contra as mulheres e pessoas LGBT. Sempre me pareceu muito forte que permanecesse...

Eu sou muito crítico. Eu denuncio a homofobia da igreja e a minha também. Eu vejo minha fé como cristão protestante e isso me dá significado, plenitude e muitas coisas positivas. Mas, não vou justificar o injustificável porque me parece a pior maneira de colaborar com a sua igreja e sua fé. Eu acredito que é necessário denunciar. Eu acredito que uma igreja não é cristã, enquanto não aceitar a todos. Uma Igreja que é machista não é cristã. Uma Igreja que é homofóbica não é cristã, ao menos completamente.

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