O Holocausto à luz do Sinai

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01 Junho 2019

Por causa do pecado de Israel, Moisés quebrou as primeiras tábuas recebidas no Sinai. Moisés as reescreveu, indicando com os dez mandamentos linhas de ética universal para a promoção da vida. "Escolha a vida", diz a Torá, não "escolha o bem". Com o buraco negro do Holocausto, no qual apareceu o mal absoluto, radical, foi planejada com lucidez implacável a destruição de todo o povo de Israel. Com este horrendo tremendum da história, estrela da “irredenção” de acordo com o professor de pensamento judaico em Trento e Urbino, foi posto na história um evento para ser conhecido, mas que não se pode com-preender (P. Levi).

O texto é de Roberto Mela, professor da Faculdade Teológica da Sicília, em artigo publicado por Settimana News, 27-05-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Também as segundas tábuas foram destruídas e com elas foi quebrado o pacto de Deus com Israel e com a humanidade.
Com Auschwitz, surge a questão não respondida sobre o silêncio de Deus e O exílio da Palavra (A. Neher), sobre o fato de ele ser um "Deus que se esconde /’el mistratter". Deus desviou os olhos e seu povo correu o risco de ser aniquilado.

O que emerge de Auschwitz para alguns pensadores é uma revelação, um apelo de Deus para mudar e tomar nas mãos o próprio destino. Para outros, não houve nenhuma revelação, porque Deus se revela apenas no bem e para o bem. Do Sinai, desceu-se na história segundo uma resposta cada vez mais doente a Deus e à sua Torá.

Massimo Giuliani 
Le terze tavole. La Shoah alla luce del Sinai
(As terceiras tábuas. O Holocausto à luz do Sinai,
em tradução livre, Conifer 19),
EDB, Bolonha 2019, pp. 176, 16,50 €
ISBN 978-88-10-56020-4

O Holocausto à luz do Sinai  (p. 43-96) mostra os resultados terríveis e incompreensíveis - irremediáveis para Giuliani - do homem longe de Deus e do próprio homem. Invertendo o título de Rosenzweig, Auschwitz é para o estudioso a estrela da irredenção.

O Holocausto à luz do Sinai (p. 97-150) mostra a aliança quebrada, em pedaços. Peças recolhidas por Israel que, assumindo existência não só como destino, mas também como missão, decidiu fazer conversão, tešuvah, para tomar o fio da própria existência, mesmo sem a presença de Deus escondido e silencioso, para se dedicar à Torá, à oração, ao retorno para Sião e à constituição do Estado de Israel.

Auschwitz, Sinai e as terceiras tábuas

Na'aśeh we-mišma, "faremos e ouviremos", disse o povo no Sinai. Depois do Holocausto, Israel colocou isso em prática. Auschwitz não pode destruir totalmente a aliança. Decidiu continuar acreditando em seu Deus, apesar de seu silêncio e a ocultação de seu rosto (hester panîm). Decidiu não deixar a vitória para Hitler, sucumbindo ao peso do genocídio e da memória estéril encerrada no luto. Em vez disso, prevalece uma memória carregada de fé de vontade de se dedicar ao bem, de construir humanidade e justiça para todos.

Estas são as terceiras tábuas. Terceiras tábuas, imateriais como as outras, mas que pretendem sustentar à vida do Israel crente e não - assim como de todos os povos - reunido em torno de uma memória coletiva não dobrada ao mal sofrido, mas aberta a obras de justiça e de paz.

Auschwitz não é um novo Sinai. Comparação audaz adverte Emil L. Fakenheim. É sim um templo de lágrimas, mas não é um novo templo ou um lugar de revelação. Colocar Auschwitz no coração do judaísmo, como o Sinai, é o mais grave dos erros, afirma Michael Wyschgorod, porque Israel prossegue a vida não para responder a Auschwitz, mas pela fé no Deus do Sinai. "O que não podemos punir se manifesta como imperdoável", afirma Hannah Arendt, e também para Giuliani o evento de Auschwitz é irredimível e nem mesmo Deus pode perdoar no lugar das vítimas.

"Se o mundo pudesse ouvir, ‘se assim se pode dizer /kivjakôl’, a voz do Senhor que chora, explodiria", escreve Kalonymus Kalman Shapira em suas homilias escritas para apoiar os judeus no gueto de Varsóvia. "Ouve a minha oração, Senhor; escuta o meu grito de socorro; não sejas indiferente ao meu lamento" (Sal 39:13).

Invertendo uma categoria reveladora que se refere a Deus por Rudolf Otto, Arthur A. Cohen lembra que colocar uma simetria entre o Sinai e o tremendum é um gesto de terrorismo teológico. São eventos assimétricos e incomensuráveis. Há uma simetria, mas não axiológica. A combinação leva a pensar, a não esquecer, a assumir para si responsabilidades. "É como se Deus tivesse permanecido, ‘se assim se pode dizer /kivyakôl’, sem poder diante de tais terríveis acontecimentos", tenta explicar David Weiss Halivni.

Tîqqun 'Ólam

Em vez disso, lendo o Holocausto à luz do Sinai, em plena fidelidade ao pacto de Abraão, Moisés e Josué, para outros pensadores, Israel mostrou novamente que "‘am jiśrael ḥaj/ o povo de Israel vive". Alguns pensadores advertiram que, apesar da crise do Holocausto, é a escolha de renovar a aliança sinaítica que deve reentrar e iluminar os pensamentos dos filhos de Israel no futuro. Israel tem a tarefa de contribuir para o tiqu'm ôlam, para o "ajuste / reparação / redenção do mundo", afirma Fakenheim.

A escolha da vida do povo judeu incarna-se principalmente e messianicamente no retorno a Sião, na refundação de um estado judeu e na reconstrução de Jerusalém (assim Saks, Wassermann, Teichtal).

A aliança quebrada, no inferno

Na frente do sofrimento, pode-se conformar em viver a própria vida como existência-destino/fado (goral) ou vivê-la como existência-missão/vocação (jiûd), adverte o grande Joseph B. Soloveitchik . Ele lembra que, no Sinai, Deus transformou uma aliança-destino em uma aliança-missão, um povo de escravos em uma nação santa. O que foi aceito como fado/destino inconscientemente no signo da circuncisão, deve agora ser reapropriado de modo voluntário. A aliança deve ser "voluntarizada" (I.J. Greenberg).

Se Auschwitz foi a expressão da ocultação da face /hester panim de Deus, o Estado de Israel para Soloveitchik reflete o retorno de Deus à providência ativa. "Não há melhor testemunho da presença de Deus na história do povo judeu", afirma Eliezer Berkovitz, por sua vez. Para este estudioso, Auschwitz deve ser interpretada como "prova" da fé de Israel em um Deus que se esconde e ainda assim salva, apesar da aparência. O servo sofredor de Isaías é justamente o povo de Israel, e desta figura Israel deve se reapropriar, contra toda deriva cristã cristológica.

Em Auschwitz, Deus foi para o inferno com seu povo (E. Berkovitz, With God in Hell: Judaism in the Ghettos and Deathcamps). Naquele "buraco negro" aconteceu o exílio da šekinah, o sofrimento de um Deus que compartilha o destino histórico de seu povo (E. Lévinas). Depois de descer no Sinai, ter-se ligado e se unido com o humano, Deus desceu para saborear o pão amargo da alienação e da opressão.

A aliança voluntarizada

Depois de Auschwitz, agora "tudo depende do homem" (assim E. Lévinas resume a obra do rabino Ḥajjim de Volozhyn). Se "tudo depende do homem", se cabe ao povo judeu "salvar a Deus" (Etty Hillesum) e o que o Holocausto destruiu da fé e dos costumes tradicionais, muitos pensadores viram no sionismo o movimento de renascença judaica (M. Buber), o ato de autorredenção mais alto do povo de Israel após a destruição do templo pelos romanos. No coração do judaísmo, de fato, bastam o Sinai e o compromisso de continuar a aliança, segundo o rabino moderado David Herman (A Living Covenant. The Innovative Spirit in traditional Judaism).

Giuliani gosta muito do pensamento de Irving Jitzchaq Greenberg. Segundo este rabino, historiador e teólogo norte-americano, depois do Holocausto, nenhuma aliança é mais completa e sagrada que uma aliança quebrada. Da aliança despedaçada pela prova insuportável e insuperável de Auschwitz, é necessário repartir daqui, desta "estrela da irredenção" e voluntarizar a aliança: "Voluntary Covenant".

Ele é o autor que mais entendeu o lado hebraico específico da aliança quebrada. Em Auschwitz, o que está em jogo é o próprio Deus, a própria existência de Israel, o futuro de seus filhos e o senso de tradição que remonta a Abraão, à aliança com Deus e à promessa divina que desde então a acompanha.

"O mar não se dividirá pela segunda vez, afirma Greenberg, o poder divino autolimitou-se e sobre nós pesam responsabilidades adicionais”. O povo de Israel deve retomar nas mãos a própria vida, suas responsabilidades como testemunha de Deus, da justiça e da paz oferecidas a todos nas "terceiras tábuas".

O livro é uma obra esplêndida, densa de conceitos, pontuada por textos - muitos dos quais traduzidos pela primeira vez em italiano - de filósofos judeus, rabinos e teólogos sobre o tremendum de Auschwitz. Filosofia, teologia, qabbalah, midrash, midrash sobre midrah: todo o tesouro da hermenêutica judaica é explorada, para chegar a conhecer melhor, não a com-preender, a noite de Auschwitz.

Sobre Auschwitz se deveria calar, concorda Giuliani. No caso de falarmos sobre isso, isso é feito para que possamos assimilar com a mente e com o coração (não com o business ou a retórica vazia) a tremenda lição dada à humanidade e a noite expelida pelo mal radical para que nunca mais leve a melhor sobre os homens.

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