Papa Francisco reage aos ataques a ciganos na periferia de Roma: "Isso não é civilização"

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10 Mai 2019

“Quando leio nos jornais algo ruim, vou lhes dizer a verdade: sofro. Hoje li algo ruim e sofro porque isso não é civilização: não é civilização”. Assim falou o Papa, em transparente referência ao episódio da família rom, que recebeu uma casa popular no subúrbio romano de Casal Bruciato e está sendo ameaçada por militantes de extrema-direita, em um encontro de oração com 500 pessoas rom e sinti que ocorreu na manhã desta quinta-feira no Palácio Apostólico do Vaticano.

Francisco exortou seus convidados a não alimentar o rancor e a vingança, enfatizando que as organizações que na Itália são "mestras da vingança" e de "silêncio" são criminosas, não aqueles que vivem e trabalham com dignidade. Os cidadãos de segunda classe "existem", disse Jorge Mario Bergoglio, "é verdade", mas "são aqueles que descartam as pessoas”, aqueles que "com a vassoura na mão, jogam os outros para fora".

A reportagem é de Domenico Agasso Jr., publicada por Vatican Insider, 09-05-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

O bispo auxiliar de Roma, Giampiero Palmieri, que no dia anterior havia visitado a família Omerovic junto com o diretor da Caritas romana, Dom Benoni Ambarus, e com a prefeita de Roma, Virginia Raggi, convidou a família a participar do encontro diocesano que o Papa Francisco presidiria em São João de Latrão.

No encontro que aconteceu na Sala Regia, o Papa tomou a palavra após os testemunhos de Dom Cristian Di Silvio, padre cigano ("Lembro-me que quando falei sobre isso com meus colegas seminaristas, a primeira coisa que me perguntaram foi se eu vivia em um trailer, se eu pedia esmola e se minha família batia carteiras na estação Termini ... "), e três mães, Dzemila, Miriana e Negiba ("Algumas de nós vivem em apartamentos alugados, em casas populares, outras ainda no que são chamados de "campos nômades" que nada mais são do que favelas, guetos onde, por motivo étnico, as nossas famílias são segregadas das instituições municipais ... "). Francisco disse ter ouvido "muitas coisas que tocaram meu coração".

"As mães que leem as esperanças nos olhos dos filhos lutam todos os dias pela concretude, não pelas coisas abstratas: criar um filho, alimentá-lo, educá-lo, inseri-lo na sociedade: as mães são a esperança. Uma mulher que traz um filho ao mundo é esperança, ela semeia esperança, é capaz de abrir o caminho, de criar horizontes, de oferecer esperança", disse Jorge Mario Bergoglio, que continuou: "Em ambos os testemunhos sempre havia a dor amarga da separação, aquela que se sente na pele: eles te colocam de lado, "sim, você pode passar, mas ali, não me toques porque" ... no seminário eles perguntaram se você pedia esmolas, se você ia para a estação: a sociedade vive de fábulas, “não padre, aquelas pessoas são pecadores": e você não é um pecador? Somos todos pecadores, todos cometemos erros na vida, mas eu não posso lavar as mãos olhando para os pecados reais ou falsos das outras pessoas, tenho que olhar para os meus pecados. E se o outro é pecador e segue um caminho errado, aproximar-me e dar-lhe a mão para ajudá-lo a sair disso”.

"Uma coisa que me deixa com raiva é que estamos acostumados a falar sobre pessoas com adjetivos", disse o Papa, "não dizemos ‘essa é uma pessoa’, ‘uma mãe’, ‘um jovem padre’, mas colocamos o adjetivo, e isso destrói porque não deixa que ela seja uma pessoa. O adjetivo é uma das coisas que cria a distância entre a mente e o coração. Esse é o problema de hoje: se você me disser que é um problema político, social, cultural, de língua, são coisas secundárias, o problema é de distância entre a mente e o coração. ‘Sim, você é uma pessoa, mas longe de mim, do meu coração’, ‘os direitos sociais, os serviços de saúde, sim, mas entrem na fila, primeiro este, depois aquele’... ". "É verdade - disse o papa Bergoglio - há cidadãos de segunda classe, é verdade: mas os verdadeiros cidadãos de segunda classe são aqueles que descartam as pessoas, são de segunda porque não sabem abraçar, sempre com o adjetivo, descartam e vivem descartando, com a vassoura na mão jogando os outros para fora, com tagarelices ou outras maneiras. Em vez disso, o caminho mais belo é da irmandade: venha, a porta está aberta e todos nós devemos colaborar".

"Vocês - disse o Pontífice - terão um perigo, uma fraqueza, talvez a fraqueza de deixar crescer o rancor: se entende, é humano, mas peço a você por favor para ter o coração maior ainda. Nada de rancor e ir adiante com a dignidade da família, do trabalho, de ganhar o pão de cada dia, da oração, sempre olhando para frente. E quando o rancor vier, esquecer. Depois a história nos fará justiça porque o rancor faz com que tudo adoeça, o coração fica doente, a cabeça, da família, não é bom, o rancor leva à vingança e vingança ... acredito que não foram vocês que a inventaram, não é? Na Itália existem organizações que são mestras de vingança, vocês estão me entendendo, não é? Um grupo de pessoas capazes de criar a vingança, de viver no silêncio, são pessoas delinquentes, não pessoas que querem trabalhar. Vocês seguem em frente com dignidade e trabalho, e quando vierem as dificuldades, olhem para cima e verão que ali há alguém nos olhando: há alguém que te olha primeiro, alguém que gosta de ti e que foi obrigado a viver à margem como criança para salvar a vida, escondido, refugiado, alguém que deu sua vida pela cruz e alguém que está te procurando para consolar-te e animar-te e seguir em frente. Por isso, eu digo a vocês: nada de distâncias para vocês e para todos, com mente e coração, nada de adjetivos, não, cada um merece seu próprio adjetivo, mas nada de adjetivos gerais”.

“Agradeço muito a vocês, rezo por vocês e estou perto de vocês - concluiu o Papa Francisco - e quando leio nos jornais algo de ruim, vou lhes dizer a verdade: sofro ... hoje li algo ruim e sofro, porque isso não é civilização, não é civilização. O amor é a civilização, se avança com o amor”.

O cardeal Gualtiero Bassetti, presidente da CEI, abriu o encontro referindo-se ao que um amigo cigano havia lhe contado: “Você vê, padre, as verdadeiras distâncias não são as quilométricas, mas são aquelas entre a cabeça e o coração". "Padre Santo - disse o cardeal - nos ajude hoje a aproximar essas distâncias".

Também estiveram presentes no encontro o Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, Cardeal Peter Kodwo Appiah Turkson; o vigário do Papa para a diocese de Roma, cardeal Angelo De Donatis; o presidente da Comissão para as Migrações da CEI e da Fundação Migrantes, o bispo Guerino Di Tora; o novo arcebispo de Siena e o secretário da Comissão para as Migrações da CEI, monsenhor Paolo Lojudice e o bispo de Avezzano, monsenhor Pietro Santoro.

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