Em nova assembleia plenária, superioras gerais buscam ''semear esperança profética''

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02 Mai 2019

Nos três anos desde que o Papa Francisco anunciou que criaria uma comissão para estudar a história das diáconas na Igreja Católica, sinalizando uma possível abertura para acabar com a prática da instituição global em relação a um clero composto só de homens, houve poucas notícias sobre o trabalho do grupo.

A reportagem é de Joshua J. McElwee e Chris Herlinger, publicada por National Catholic Reporter, 30-04-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Embora dois membros disseram no início deste ano que a comissão entregou um relatório para Francisco, o próprio papa nunca falou publicamente sobre o assunto, não dando qualquer indício de suas próprias opiniões.

Agora, isso parece estar pronto para mudar. Aproximadamente 850 líderes das congregações mundiais de religiosas católicas estão se preparando para ir a Roma entre os dias 6 e 10 de maio para o encontro trienal de uma semana de duração da União Internacional das Superioras Gerais (UISG), uma organização que representa mais de 450.000 irmãs e freiras de todo o mundo.

Foi durante uma sessão de perguntas e respostas com esse grupo em maio de 2016 que Francisco anunciou pela primeira vez a criação da comissão. Embora a União Internacional das Superioras Gerais não tenha dito se os membros farão perguntas ao papa novamente, elas devem se encontrar com ele neste ano, no dia 10 de maio.

“Obviamente, essa pergunta foi feita há três anos”, disse a Ir. Pat Murray, diretora executiva do grupo, em uma recente entrevista à equipe do GSR. “Não sabemos o que o papa dirá. (...) Nós apenas temos que esperar para ver.”

A audiência das irmãs com o papa ocorrerá no último dia da sua assembleia, que tem como tema “Semeadoras de esperança profética”. As participantes incluem líderes de congregações de 80 países que falam pelo menos 13 línguas diferentes.

Os organizadores e as participantes dizem que o tema da reunião de cinco dias foi escolhido para ajudar as religiosas a discernirem como podem atuar como agentes de cura e construtoras de pontes em um tempo de divisões políticas e culturais.

“Eu espero ser desafiada. Espero ter uma experiência de solidariedade global entre irmãs e espero voltar para os Estados Unidos perguntando: ‘Como podemos ser semeadoras de esperança profética?’”, disse a Ir. Carol Zinn, diretora executiva da Leadership Conference of Women Religious (LCWR), a principal associação de líderes congregacionais dos Estados Unidos.

“Como você vive uma visão de esperança no nosso contexto atual?”, perguntou Zinn, das Irmãs de São José da Filadélfia, em uma entrevista. “A plenária está bem situada em relação ao tipo de palestras e discussões de que precisamos hoje.”

Para além das questões sociais mais amplas, a plenária trienal também ocorre enquanto a organização vem desempenhando um papel mais importante para elevar o perfil das mulheres dentro da estrutura de tomada de decisão composta só por homens no Vaticano.

A liderança do grupo tem buscado mais envolvimento nos encontros globais de bispos, conhecidos como Sínodos, e se uniu ao grupo global que representa os padres e irmãos religiosos para pressionar para que as mulheres possam votar nesses encontros, assim como os homens.

Em um evidente sinal do sucesso de seus esforços, todo o conselho executivo de 10 membros da União Internacional das Superioras Gerais foi convidado para participar da cúpula convocada por Francisco em fevereiro dos presidentes dos bispos do mundo inteiro para discutir os abusos sexuais clericais. Apenas três religiosas foram convidadas para o Sínodo dos jovens em 2018.

A Ir. Carmen Sammut, presidente da organização, destacou a sua crescente influência dentro do Vaticano em uma carta de março a seus membros de todo o mundo.

Papa Francisco saúda a Ir. Carmen Sammut, presidente da União Internacional das Superioras Gerais, durante uma audência no dia 12-05-2016 com as superioras das ordens religiosas femininas na Sala Paulo VI, no Vaticano. Durante uma sessão de perguntas e respostas com os membros da organização, o papa disse que estabeleceria uma comissão para estudar se as mulheres podem atuar como diáconas (Foto: CNS/L’Osservatore Romano)

“O papel representativo da UISG cresceu em importância durante esses últimos anos”, disse Sammut, superiora geral maltesa das Irmãs Missionárias de Nossa Senhora da África. “Somos cada vez mais chamadas a participar dos encontros e somos consultadas sobre assuntos importantes que surgem.”

A irmã mercedária Filo Hirota, que atuou no conselho executivo da União de 2013 a 2016, elogiou Sammut pela sua liderança e pela sua disposição em desafiar o Vaticano a incluir mais as mulheres, especialmente nas reuniões sinodais.

Hirota, que é japonesa, mas viveu em Roma como superiora da sua ordem de 2012 a 2018, disse que a União não foi incluída no Sínodo sobre a família em 2014. Sob a liderança de Sammut, o conselho executivo do grupo escreveu uma carta a Francisco dando cinco sugestões de como ele e o Vaticano poderiam incluir mais as mulheres.

No Sínodo seguinte em 2015, a União Internacional das Superioras Gerais recebeu o convite para três representantes, incluindo Sammut.

“Não foi apenas Carmen, foi todo o grupo que disse: ‘Bem, temos que fazer algo a respeito disso’”, disse Hirota, descrevendo o modo como o conselho executivo do grupo lidou com a situação em 2014. “A UISG representava as religiosas para a participação na vida da Igreja, especialmente no Sínodo.”

Essa tática de confrontar o Vaticano sobre os papéis das mulheres na Igreja pode chegar a uma votação logo após a assembleia de maio: como acontece em cada plenária a cada três anos, o grupo começará o processo de eleição das novas lideranças.

Sammut, que é presidente desde 2013, cumpriu dois mandatos e não pode ser reeleita.

O processo eleitoral começou antes da assembleia, quando as irmãs de vários grupos regionais continentais elegeram representantes para um conselho de delegadas que se reunirá na semana seguinte à assembleia. Esse conselho, então, elegerá um conselho menor de diretoras, composto por sete membros, e toda a nova presidência da União.

Hirota disse que a União deu um “salto qualitativo” com Sammut e Murray. Membro do Instituto da Bem-Aventurada Virgem Maria, Murray foi nomeada secretária executiva do grupo em 2014 e pode permanecer no cargo até 2023, de acordo com os estatutos da União.

“A UISG realmente se tornou uma comunidade de mulheres que compartilham a vida e a missão, apoiando e animando as religiosas em todo o mundo”, disse Hirota.

“Sinal e símbolo”

O foco da assembleia em serem “Semeadoras de esperança profética” se concentrará especificamente em três áreas em suas apresentações e discussões entre os dias 7 e 9 de maio:

- Cuidado da criação;
- Viver interculturalmente;
- Trabalhar pelo diálogo inter-religioso.

Entre as oradoras previstas: Ir. Judette Gallares, membro das Religiosas do Cenáculo e teóloga do Instituto para a Vida Consagrada na Ásia das Filipinas; a Ir. Adriana Milmanda, Missionária do Espírito Santo e diretora do Proyecto Ser Mujer da Argentina, um centro para o empoderamento das mulheres em situação de vulnerabilidade; e Donna Orsuto, professora de espiritualidade da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

Murray disse que os três assuntos surgiram a partir de “necessidades sentidas nas congregações religiosas”.

Sobre a interculturalidade, ela disse que as religiosas “sentem que este é um momento profético para a vida religiosa. Estamos em um momento em que, cada vez mais, há divisão, e há divisões que crescem por diversas razões”.

Sobre o diálogo inter-religioso, ela disse: “O papel profético da vida religiosa é ser uma ponte entre povos de diferentes culturas, mas também de diferentes religiões ou entre pessoas sem fé”.

Sobre o cuidado do planeta, ela disse que a discussão na assembleia também incluirá a reflexão sobre a nova campanha da União Internacional das Superioras Gerais, “Semeando esperança para o planeta”.

Essa e outras campanhas estão trabalhando para criar um esforço coordenado pela União sobre questões ambientais e fornecer recursos para o estudo da encíclica Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum, de Francisco, de 2015, que abraçou o consenso científico sobre as mudanças climáticas.

Murray chamou esses projetos de “sinal e símbolo” para os líderes de congregações religiosas de todo o mundo “para que possam responder em seu próprio contexto fazendo algo semelhante”. Como tal, disse ela, a plenária vindoura procurará dar às lideranças congregacionais “um modelo de nível internacional para que a própria liderança possa ser atualizada em nível mais local”.

Zinn concordou, chamando a União de “mesa comum das religiosas que estão respondendo às necessidades que são globais e locais ao mesmo tempo”.

Ela acrescentou que é grata pelo fato de que a plenária não se concentrará apenas no trabalho das irmãs, mas, mais importante, nas questões mais amplas que animam a vocação no momento contemporâneo.

“O ponto de partida para essa conversa [na plenária] é o futuro da vocação da vida religiosa”, disse ela. “Como podemos liderar isso? Como podemos liderar isso no futuro?”

Zinn disse que o foco nas diáconas pode deixar de lado um quadro um pouco mais completo, e a dinâmica importante “e muito mais profunda” agora dentro da Igreja está em enfatizar as conversas em curso sobre as relações mútuas entre os leigos e o clero da Igreja.

“Eu preferiria que as diáconas surgissem como o resultado do trabalho e do desenvolvimento crescente da mutualidade das relações”, disse ela, apontando para a necessidade de perguntas como: “O que significa ser um membro batizado da Igreja Católica?” e “Como crescemos no corpo de Cristo?”.

Recordando sua participação no passado nas reuniões da organização, Zinn disse que é “uma experiência muito poderosa estar naquela sala com 1.000 líderes religiosas”.

No último dia da assembleia, essas irmãs e freiras viajarão ao Vaticano para a sua audiência com Francisco na Sala Paulo VI da cidade-Estado.

Embora seja desconhecido o que o papa dirá, muitas esperam que ele fale sobre o papel das mulheres na Igreja e sobre as questões em aberto sobre o trabalho da comissão que estuda a história das diáconas.

Como disse Phyllis Zagano, membro dessa comissão, durante um evento recente, “eu não sei o que vai acontecer. Mas, se eu fosse o papa, eu não gostaria de entrar em uma sala com 1.000 freiras e não responder a essa pergunta”.

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