El Salvador. “A intromissão dos Estados Unidos na guerra do país foi terrível”, constata ex-secretária de Dom Óscar Romero

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27 Abril 2019

Ela esteve na guerrilha e foi secretária de Dom Romero. Filha de um pequeno proprietário camponês, católico e sem militância política, que cultivava milha, arroz, feijão e verduras, María Isabel Figueroa (Suchitoto, Cuscatlán, 1948) se mudou para estudar na capital, El Salvador. Sua mãe se dedicava às tarefas domésticas e a cuidar da família numerosa, formada por 10 irmãos.

A reportagem é de Enric Llopis, publicada por Rebelión, 26-04-2019. A tradução é do Cepat.

Em El Salvador, a jovem estudou, começou a carreira universitária – cursou um ano de Filosofia – e a participar nas comunidades cristãs de base e no movimento popular. Desempenhou seu primeiro trabalho em uma associação de cooperativas dependente da Arquidiocese de San Salvador. Em seguida, trabalhou no arquivo diocesano com Dom Luis Chávez y González (antecessor de Óscar Romero), que esteve à frente da Arquidiocese de San Salvador, entre 1938 e 1977. A garota tinha então 22 anos e continuava com o trabalho voluntário – nos bairros humildes e periféricos da capital – com as comunidades eclesiais de base, “muito ligadas aos sindicatos, cooperativas e movimento universitário”, recorda.

Seguia, assim como muitos salvadorenhos, a mensagem do Concílio Vaticano II (1962-1965), promovido pelo Papa João XXIII e entre seus objetivos estava o aggiornamento da Igreja Católica. Além disso, tomava impulso para a ação na II Conferência Geral do Episcopado Latino Americano (CELAM), realizada em 1968, em Medellín. “Íamos casa por casa nas ‘comunidades marginais’, dando-nos a conhecer como pertencentes a uma paróquia e criando confiança e amizade com as pessoas. Muitos eram católicos só porque haviam sido batizados, recebiam os sacramentos ou assistiam à missa aos domingos, mas não tinham um entendimento do que significava o Evangelho”, explica Figueroa. O primeiro tema de reflexão – em torno da Bíblia – versava sobre a injustiça.

Eram os períodos da presidência do coronel Arturo Armando Molina (1972-1977) quando, segundo recorda o ex-diretor do Instituto de Direitos Humanos da Universidade Centro-Americana (IDHUCA), Benjamín Cuéllar, ocorreu a “intervenção militar” na Universidade de El Salvador (1972). Além disso, em julho de 1975, “foram massacrados estudantes e o povo que acompanhava sua luta”, aponta Cuéllar (El Mundo de El Salvador, julho de 2017). O general Carlos Humberto Romero Mena, presidente do país entre 1977 e 1979, atuava como ministro da Defesa e Segurança Pública quando ocorreu o massacre.

No dia 24 de março de 1980, Óscar Arnulfo Romero foi assassinado por um “esquadrão da morte” ultradireitista, quando presidia uma missa na Capela do Hospital Divina Providência, em San Salvador. No dia anterior ao crime, concluiu deste modo a homilia: “Em nome de Deus, pois, e em nome deste sofrido povo cujos lamentos sobem até o céu cada dia mais agitados, suplico-lhes, rogo-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: Parem a repressão!”.

Alguns minutos antes, ecoaram os fatos “trágicos” da semana. Por exemplo, “registrou-se uma das mais fortes e dolorosas operações militares nas áreas camponesas. Os lugares afetados foram La Laguna, Plan de Ocotes, El Rosario”, com um balanço de “muitíssimos ranchos queimados, ações de saque e o que nunca falta, cadáveres”.

Sendo assim, Romero informou aos fiéis sobre um comunicado da Anistia Internacional, que recebeu ao entrar na igreja, com o seguinte conteúdo: “A Anistia Internacional recentemente condenou o Governo de El Salvador o responsabilizando por 600 assassinatos políticos”.

Romero foi nomeado Arcebispo de San Salvador, em fevereiro de 1977. María Isabel Figueroa trabalhou com o religioso, durante dois anos e meio, no escritório localizado na segunda parte do Seminário Maior de São José da Montanha. Lá também trabalhava como secretária sua companheira Silvia Maribel Arriola, religiosa assassinada pelo exército em janeiro de 1981, quando fazia atendimento – como enfermeira – na frente de combate.

No escritório, María Isabel Figueroa cuidava da correspondência – muito abundante -, fazendo a sua seleção e resumo. A então secretária destaca duas etapas em relação ao posicionamento de Romero: “Antes de ser arcebispo, acredito que foi um sacerdote-bispo com valores humanos e caritativos, mas conservador, sem um compromisso muito definido com o povo”. E mais, se o Papa Paulo VI o nomeou quarto Arcebispo Metropolitano de San Salvador, “não pensávamos que tivesse feito isso para favorecer a igreja dos pobres que construíamos a partir de Medellín”.

A ativista destaca como ponto de inflexão no compromisso de Óscar Romero a morte de seu amigo, o sacerdote jesuíta Rutilio Grande, em março de 1977. Rutilio Grande foi baleado junto com os paroquianos Manuel Solórzano, de 72 anos, e Nelson Rutilio Lemus, de 16, por “esquadrões da morte” da Guarda Nacional, no município de Aguilares.

“Foi notória a ausência das autoridades que oficialmente costumam prestar ajuda nestes casos”, criticou, em um comunicado, a Arquidiocese de San Salvador. “Na paróquia de Aguilares, em cuja jurisdição estava seu povo natal, El Paisnal, Rutilio dedicou os quatro últimos anos de sua vida para proclamar o Evangelho e a justiça do Reino de Deus entre os camponeses. Na mesma linha de Jesus, denunciou o explorador e conscientizou o explorado sobre a dignidade e seus direitos”, explica o diretor do Centro Monsenhor Romero e professor de Teologia da Universidade Centro-Americana (UCA), Rodolfo Romero (Rutilio Grande: mártir da evangelização rural em El Salvador, conferência em Roma, março de 2019).

Dois dias após o crime, Dom Romero presidiu uma missa de exéquias em todo o país – na catedral de San Salvador -  por Rutilio Grande, da qual participaram milhares de pessoas. “Romero começou a denunciar a violência nas homilias”, afirma María Isabel Figueroa (por exemplo, em maio de 1977, por conta do assassinato do sacerdote Alfonso Navarro Oviedo e o menor Luisito Torres, perpetrado pela organização ultradireitista União Guerreira Branca; ou pela detenção e expulsão do país do sacerdote jesuíta Jorge Sarsanedas).

Nesta segunda etapa, “Romero se aproximava dos sacerdotes mais comprometidos e se tornou mais acessível às comunidades que chegavam para compartilhar o que acontecia na região”, acrescenta Figueroa, que continuava trabalhando nas comunidades eclesiais de base, em bairros como Zacamil (San Salvador).

Em 1980, María Isabel Figueroa entrou na guerrilha. Ficou cinco anos no campo e outros sete na cidade.

O relatório anual da Comissão Interamericana de Direitos Humanos recolheu a “ação coordenada” que, em maio de 1980, o exército de El Salvador encabeçou com a colaboração de tropas hondurenhas e que passou para a história como o massacre do rio Sumpul (entre 300 e 1.500 camponeses mortos, segundo as fontes, que tentavam entrar em Honduras).  Na carnificina de El Mozote (departamento de Morazán), que também afetou os lugarejos e casas próximos, as forças armadas salvadorenhas perpetraram a execução extrajudicial, em dezembro de 1981, de cerca de 1.000 pessoas.

Quatro décadas depois, em Valência, onde participou de um ato com moradores na Associação Vilanova del Grao, a ativista faz memória daqueles anos: “As marchas e protestos populares eram reprimidas e havia gente assassinada. Então, o povo se viu obrigado a definir ‘frentes de guerra’, com as quais começou a se defender. As pessoas que tinham problemas na cidade, podiam ir para o campo, nestas ‘frentes’, e lá se sentir mais protegidas, porque já haviam grupos de companheiros (armados) da FMLN [Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional]. Sabia-se que se o exército viesse buscar pessoas, haveria um enfrentamento”.

Militou durante 12 anos no Exército Revolucionário do Povo (ERP), uma das cinco organizações que em outubro de 1980 constituíram a FMLN. As outras quatro foram o Partido Comunista de El Salvador (PCS), as Forças Populares de Libertação Farabundo Martí” (FPL), a Resistência Nacional (RN) e o Partido Revolucionário dos Trabalhadores Centro-Americanos (PRTC).

María Isabel Figueroa esteve na Frente Paracentral e na cidade de San Salvador. Da experiência revolucionária extrai algumas conclusões: “Sim, serviu, porque apesar de tanto sangue, luta e sacrifício das pessoas, se não tivesse sido assim, não teríamos alcançado o pouco que temos agora. Ao final, o exército e o governo chegaram a um empate de forças com o povo em levante com armas. Não puderam mais continuar e cederam ao diálogo”.

Em janeiro de 1992, foram assinados os Acordos de Paz no castelo de Chepultepec (México), que colocaram fim a 12 anos de conflito armado, com um balanço de cerca de 75.000 pessoas assassinadas e 8.000 vítimas de desaparecimento forçado (entre elas, mais de 1.000 menores). Em 1993, a Comissão da Verdade, surgida dos acordos, apresentou o relatório Da loucura à esperança. A Comissão registrou mais de 22.000 denúncias por “graves fatos de violência”, como execuções extrajudiciais, desaparecimentos forçados e torturas. As testemunhas destacaram a responsabilidade de agentes do Estado, grupos paramilitares e “esquadrões da morte” em 85% dos casos.

Segundo o relatório da UCA, de 2009: “El Salvador: verdade, justiça e reparação”, durante a guerra, o Estado salvadorenho utilizou “estratégias militares de controle e extermínio da população civil para combater os grupos insurgentes”.

Qual a influência dos Estados Unidos durante o conflito? “Ah!, a intromissão foi terrível”, responde María Isabel Figueroa. “Acredito que os problemas que temos na América Latina e o mundo são pelo imperialismo. Em El Salvador, tivemos a presença real dos Estados Unidos dirigindo a guerra. Os corpos dos combatentes eram salvadorenhos, mas até o tamal que se comia vinha enlatado dos Estados Unidos. Parece que gastaram milhões diariamente na guerra conosco”.

O historiador Héctor Ibarra Chávez, ex-membro do ERP e combatente durante uma década na guerrilha, destaca a conjuntura de dezembro de 1983: “Neste contexto de vitórias militares da FMLN e de um eventual ‘colapso moral’ das Forças Armadas, é que se inicia a escalada intervencionista dos Estados Unidos, com o risco de uma iminente intervenção com tropas norte-americanas”. Tratava-se de evitar, em termos da Administração estadunidense, “outra Nicarágua na América Central” (Brigada Rafael Arce Zablah. Missão Cumprida!Expediente Aberto, 2008).

Atualmente, María Isabel Figueroa participa da Associação Novo Amanhecer de El Salvador (ANADES), surgida de um movimento de mulheres provenientes das comunidades eclesiais de base de Zacamil e seu entorno, em 1986. O objetivo inicial – ampliado com o passar dos anos para programas de sustentabilidade, infância, saúde e desenvolvimento comunitário – era apoiar a criança órfã pelos assassinatos e a tortura durante a guerra.

“Na história de El Salvador há pessoas nefastas”, afirma a ativista já no final da conversa. Menciona o ex-major Roberto d’Aubuisson (1943-1992), treinado na Escola das Américas, a quem a Comissão da Verdade atribui a ordem do assassinato de Óscar Romero e a direção de um grupo de “esquadrões” paramilitares. D’Aubuisson foi também um dos fundadores do partido direitista ARENA, em 1981.

Além disso, Figueroa cita o grupo de militares de alta patente de "La Tandona”, a quem a UCA considera supostos autores intelectuais – a partir do relatório da Comissão da Verdade – do assassinato de seis jesuítas, uma trabalhadora e sua filha no recinto da Universidade Centro-Americana, em novembro de 1989 (este setor de oficiais “chegou a controlar a maior parte dos postos de poder nas Forças Armadas e, como consequência, se sentiam impunes na hora de atuar ilegalmente”, detalhou a UCA em um comunicado).

Na trincheira contrária, “não o conheci, mas Farabundo Martí me parece um líder valioso. E da Igreja, Dom Romero”, conclui María Isabel Figueroa.

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