Paraguai homenageia jesuíta espanhol que enfrentou a ditadura de Alfredo Stroessner

O padre Francisco de Paula Oliva em março de 2018, em Assunção | Foto: Santi Carneri - El País

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

31 Março 2019

Religioso pa’í Oliva, de 90 anos, é um símbolo da luta pelos mais pobres e os direitos sociais.

A reportagem é de Santi Carneri, publicada por El País, 30-03-2019.

O Senado do Paraguai homenageou na quinta-feira por “sua inestimável contribuição à sociedade paraguaia e latino-americana” o jesuíta espanhol de 90 anos Francisco de Paula Oliva, mais conhecido em Assunção como Pa’í, paizinho em guarani. O pa’í Oliva ou Paco, como é chamado em sua Sevilha natal e em Huelva, para onde retorna sempre que pode para ver seus familiares, é um símbolo da luta cotidiana pela igualdade social no Paraguai. Oliva se tornou jesuíta aos 18 anos, em 1946, e em 1964 se instalou no Paraguai para trabalhar como professor. Ele se naturalizou paraguaio no ano seguinte e um mês depois foi expulso pela ditadura de Alfredo Stroessner. A polícia o prendeu, o colocou em uma lancha e o levou ao outro lado do rio, em território argentino. Lá ficou por nove anos, ajudando em Buenos Aires os imigrantes paraguaios e bolivianos enquanto era vigiado pela Polícia e o Exército.

Por convite da Igreja anglicana, Oliva viajou à Inglaterra pouco antes da ditadura argentina o sequestrar. Não o encontraram, mas dois de seus colaboradores desapareceram. Seu superior à época, com quem mantinha conversas constantes, era o jesuíta Jorge Bergoglio. Os dois voltaram a se encontrar em 2015, em Assunção, durante a visita de Bergoglio como Papa, e se abraçaram como velhos amigos.

Após sua passagem pela Argentina, Oliva morou no Equador e na Nicarágua. Esteve lá por sete anos, em plena Revolução Sandinista. Dessa experiência, o religioso diz que aprendeu lições que lhe serviriam mais tarde em seu retorno à Espanha e ao Paraguai. Voltou a Assunção em 1994, onde continua guerreando com a palavra. O Senado destacou seu trabalho no Paraguai a favor “da formação ética da juventude, da defesa da democracia, dos direitos humanos, da promoção da livre expressão e do pensamento crítico”.

Além de escutar diariamente sua voz incansável na rádio Fé e Alegria e o ler no Facebook, Twitter e em sua coluna semanal em um jornal do país, é possível encontrar Oliva em quase toda manifestação cívica em Assunção que apoia as pessoas vítimas de injustiças e perseguições políticas. Costuma se vestir com camisas brancas, usa óculos, sandálias, bengala e mede quase 1,80. O pa’í chega primeiro aos protestos e se não segura um cartaz fica sempre na frente, acompanhado de colaboradores, freiras e outros religiosos, líderes sociais indígenas e camponeses. Quando o pa’í Oliva está nos protestos encara a polícia, promotores e políticos de todos os tipos. Sempre respeitoso, mas firme, sempre conciliador, mas contundente.

“Sou o pa’í Oliva e quero falar com o delegado!”, gritou dias atrás diante do necrotério de Assunção, a centímetros dos escudos da polícia que guardavam a entrada. O religioso acompanhava os manifestantes de uma comunidade indígena que pediam para ver o cadáver de um parente que havia sido assassinado naquela noite. Não importa se é pela visita de um representante do FMI ou para ajudar uma pequena comunidade de um lugar remoto, o pa’í Oliva chegará em algum momento e os manifestantes automaticamente se sentirão mais seguros. Depois voltará para sua austera casa no Bañado Sur, um dos bairros mais humildes de Assunção, onde trabalha todos os dias na paróquia e na rua formando e educando em um de seus projetos mais emblemáticos, o Parlamento Jovem.

“Não dar o peixe, ensinar a pescar, e claro, quando chegam ao rio está privatizado’. Essa é uma das frases mais célebres do pa’í Oliva porque resume seu conceito sobre a luta social, em que todos tenham acesso ao bem-estar. Ele defende o apostolado a partir do social e aí entramos todos nós”, diz Mariluz Martín, que o conheceu em Huelva há 30 anos e conviveu com ele por um ano em Assunção.

“Não quero presos políticos no Paraguai! Defendo a soberania da terra, da água, da energia elétrica, da alimentação! O Paraguai precisa de união. Eu estou empenhado em fazer com que o Paraguai, o país que escolhi como pátria, não afunde”, disse aos senadores durante sua homenagem. O pa’í Oliva descreve seu trabalho como “a gota de água que cai sobre a pedra e que no final a quebra”. “Aceitei o prêmio como um reconhecimento ao povo paraguaio. Em nome de camponeses indígenas e mulheres. É para todos”, disse ao EL PAÍS. Oliva mantém sua mensagem conciliadora. Por isso, acha necessário continuar trabalhando com a juventude, criando líderes pela união social e “ajudando a pensar”.

Leia mais