Um pacto entre ética e tecnologia: caso contrário, robôs e algoritmos mandarão nos seres humanos. Entrevista com Vincenzo Paglia

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26 Fevereiro 2019

Começou nessa segunda-feira, 25, na Sala Nova do Sínodo, no Vaticano, o congresso “Robo-ethics”, três dias de reflexão sobre a humanidade que se depara com o progresso científico, por ocasião do 25º aniversário da Pontifícia Academia para a Vida, presidida pelo arcebispo Vincenzo Paglia. Estudiosos e cientistas de todo o mundo irão intervir. Entre os muitos oradores, também está Hiroshi Hishiguro, criador do robô humanoide “Geminoid”, que realizou um encontro público na Capela-Auditório da Universidade La Sapienza” de Roma, dialogando com o teólogo Paolo Benanti.

A reportagem é de Paolo Conti, publicada em Corriere della Sera, 25-02-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Dom Paglia, esse encontro internacional revela um temor: que a inteligência artificial e a sua capacidade operacional possam substituir o ser humano em alguns pontos importantes.

O temor é legítimo. A precisão e a confiabilidade de alguns instrumentos possibilitam a substituição de funções de avaliação e de decisão habitualmente desenvolvidas pela inteligência humana.

Em termos mais imediatos...

Encontramo-nos diante de um novo panorama: uma espécie de invasão da técnica que certamente ajuda a humanidade a resolver problemas objetivos, como a autossuficiência de alguns idosos ou de quem têm que lidar com graves deficiências: mas o risco é de que a máquina possa guiar o ser humano, e não o contrário. Não nos esqueçamos de que o termo robô significa “servo”, isto é, deve permanecer a serviço do humano. Hoje, urge um novo pacto entre humanismo e técnica.

A partir de qual consideração?

A técnica é fruto do trabalho do ser humano que deve manter o senhorio sobre a inteligência. Tomemos os algoritmos: muito úteis, mas eles não podem governar sem, por sua vez, ser governados pelo ser humano. Um algoritmo é matemática: mas o ser humano, que estudou esse algoritmo, também é mistério.

Outro tema é a substituição do robô no trabalho, o possível apagamento de áreas de emprego.

O perigo é concreto. Sem uma resposta ética, o futuro pode se tornar cheio de armadilhas ligadas à possibilidade de o ser humano ter uma ocupação. Recebemos uma grande atenção sobre esses temas de expoentes de diversas fés religiosas: o mundo cristão, o judaísmo, o Islã, o hinduísmo. Da pesquisa acadêmica também. É preciso uma nova aliança entre ética, direito, tecnologia, a própria política. A humanidade lidou mal com a questão ecológica no passado recente. Exploramos a criação, em nome do lucro, provocando danos incalculáveis. O Papa Francisco respondeu com a encíclica Laudato si’. Hoje, perfila-se um novo desafio: que a casa comum do ser humano, a Terra, permaneça não apenas habitável para os nossos filhos e netos, mas que continue tendo o Humano no seu centro. Demos o exemplo do cuidado dos idosos ou de quem não é autossuficiente: nenhuma máquina jamais poderá substituir a tessitura de relações interpessoais que fundamentam a própria Humanidade. Nenhuma máquina jamais poderá tomar o lugar da relação indispensável entre médico e paciente.

Alguns os acusam de deixar de lado os temas “tradicionais”: aborto, eutanásia...

Exatamente o oposto. A problemática de que estamos falando diz respeito ao próprio sentido contemporâneo da vida humana: é importante “redefinir” o que significa, à luz das novas tecnologias. Tomemos a gravidez. A sua interrupção se torna ainda mais escandalosa quando descobrimos, graças à pesquisa, a quantidade de relações que o nascituro inaugura, começando pela relação com o pai. Quanto à eutanásia, não somos chamados a ajudar o “trabalho sujo” da morte. Devemos ajudar o trabalho da vida, porque a morte não pertence somente a quem morre, mas também a qualquer um que esteja próximo desse indivíduo. Esta também é uma fronteira ética da contemporaneidade: o cuidado da vida entendida não como um universal abstrato, mas como um entrelaçamento estreito de relações entre seres humanos.

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