O ex-Brigadas Vermelhas e o filho do motorista de Moro. Paz na igreja na frente de mil jovens

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14 Agosto 2018

"Eu sonhava em fazer a revolução para mudar o mundo e é por isso que atirei, feri e matei, transformando aquele sonho em uma tragédia", conta o ex-terrorista. "Meu sonho despedaçou-se quando mataram meu pai e eu era uma criança de 12 anos, mas depois eu entendi que não podia simplesmente odiar e guardar rancor; um assassino permanece tal sempre, mas uma pessoa pode mudar", complementa a vítima.

A reportagem é de Giovanni Bianconi, publicada por Corriere della Sera, 13-08-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Não só as pessoas, mas muitas coisas mudaram desde 1978, quando o ex-Brigadas Vermelhas Franco Bonisoli participou do massacre da rua Fani, para eliminar os guarda-costas e sequestrar o presidente da Democracia Cristã, Aldo Moro; e a ex-criança Giovanni Ricci entendeu que o tinha acontecido com seu pai - Domenico Ricci, agente dos carabineiros e motorista de Moro – vendo-o crivado de balas na imagem publicada na edição extraordinária de um jornal. Quarenta anos mais tarde, na Chiesa del Gesù, em Roma, em que Benigno Zaccagnini e outros políticos vinham para rezar e chorar nos dias do sequestro, Bonisoli e Ricci falam sobre isso para cerca de mil jovens de hoje, que vieram a Roma para encontrar o Papa, e que na vigília noturna assistiram ao encontro entre o carrasco e sua vítima. Nenhum deles tinha nascido quando Moro foi sequestrado e, 55 dias depois, encontrado morto no porta-malas do Renault vermelho, a trezentos metros da igreja, entre as sedes da DC e do PCI, que hoje não existem mais. Permanecem os prédios antigos, permanece a igreja centenária, e permanece o testemunho de duas pessoas que, com papéis muito diferentes, cruzaram aquela época de sangue e ainda carregam as cicatrizes. Em frente ao altar central, estimulados pelas perguntas de um padre, eles contam as razões da morte e da dor transformadas em esperança e redenção; um como responsável e outro como inocente, mas ambos através do encontro e do diálogo, que quase milagrosamente apagam todos os vestígios de sacrilégio ao ouvir um assassino falar na igreja, ou um padre que traz como exemplo o caminho que ele realizou.

“Em nome da revolução fiz uma escolha que me envolveu por completo e que transformava as pessoas em coisas, símbolos de serem abatidos, inimigos a serem eliminadas - explica o ex-Brigadas Vermelhas que repercorre a escalada violenta dos anos 1970, dos carros incendiados aos assassinatos. E quando me prenderam, continuei a lutar contra o estado na prisão até que as convicções começaram a desmoronar e eu pensei em me suicidar, porque com a luta armada também devia acabar a minha vida. Mas então um capelão nos chamou de ‘irmãos’ e começou a subida do inferno ao purgatório".

"Inicialmente, eu queria devolver para as pessoas que mataram meu pai todo o mal que me causaram - lembra Ricci - mas conhecê-las e descobrir que elas carregam uma cruz maior que a minha, pelo peso do que fizeram, permitiu-me não viver mais quotidianamente a morte de meu pai, lembrar dele quando estava vivo e não apenas morto; conservar a memória de uma pessoa, e não apenas de um assassinato".

Essas histórias podem parecer incríveis para garotos que não viveram o clima dos anos de chumbo e dos sonhos transformados em tragédia, e que vencendo o sono e o cansaço ouvem por mais de duas horas, o ex-terrorista lastimar-se pelos sofrimentos causados: "A única coisa que eu podia tentar, para remediar, era transformar o meu sentimento de culpa em sentimento de responsabilidade, procurando as vítimas e o diálogo com elas, pronto para aceitar tudo o poderiam jogar em mim, e agora torná-lo público. Por isso muitos ex-companheiros me criticam, mas eu não me importo; o que importa é sermos testemunhas confiáveis, e eu tento".

Até mesmo a estrada de Ricci não foi simples: "Meu irmão e muitas outras vítimas não compartilham meu percurso e eu respeito suas escolhas. Algumas pessoas escolhem o direito ao ódio, mas eu reivindico meu direito à paz e não morrer todos os dias, considerando quem me causou mal um homem e não mais um monstro."

No momento das perguntas algumas pessoas perguntam para Bonisoli o que pensa hoje de Moro, que sequestrou e condenou à morte há quarenta anos. "Uma pessoa excepcional - responde - tentava entender o que estava acontecendo ao seu redor, incluindo as razões de quem tinha feito a nossa escolha; se não o tivéssemos matado, ele poderia ter ajudado a fechar a época da luta armada mais cedo, com danos menores”. Ilaria, testemunha do caminho que Bonisoli e Ricci fizeram junto com outros ex-terroristas e outras vítimas, explica a razão para uma noite como essa, entre os eventos preparatórios para o Sínodo: "O desejo de comunicar aos jovens a rejeição da violência, através de uma história do passado que olha para o futuro”.

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