Silêncio oficial torna o documentário 'Soldados do Araguaia' relevante

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27 Março 2018

"Filme tem poucas e desinteressantes imagens, mas compensa por uma banda de som explosiva", afirmou Inácio Araújo em sua crítica ao documentário. Publicado por  Folha de São Paulo, 22-03-2018.

Soldados do Araguaia

Quando: estreou na última quinta-feira (22)

Produção: Brasil, 2017, 14 anos

Direção: Belisario Franca

Eis o artigo

“Soldados do Araguaia” tem um bom princípio: observar a campanha militar de combate à guerrilha rural que o PCdoB instaurou no começo dos anos 1970 não do ponto de vista dos guerrilheiros, nem dos oficiais do Exército, mas de um grupo de recrutas intimados a participar da campanha —nas tropas oficiais— graças a seu conhecimento da intrincada região.

Sabe-se que o Exército procurou apagar todas as marcas dessa campanha. E, a julgar pelo depoimento dos hoje senhores recrutados em Marabá, Pará, trata-se de uma providência sadia. Aliás, a julgar pelo que narram os recrutas, uma das poucas providências sadias nessa história até hoje engavetada.

Em “Soldados do Araguaia” temos um filme com imagens poucas e quase sempre pouco interessantes, o que é compensado por uma banda de som que não será exagero chamar de explosiva.O que dizem os ex-recrutas? Eles falam de coisas como sacos de cabeças cortadas e de mãos decepadas. Falam de voos de helicóptero que deviam levar prisioneiros a Brasília, mas que regressavam alguns minutos depois (depois, subentende-se, de terem jogado os prisioneiros no ar). Falam também deles próprios sofrendo tortura, sendo forçados a coisas tais como comer lama —com o duvidoso objetivo de se imunizarem contra a dor do outro, na hora em que tivessem, eles, de se tornar torturadores.

Em poucas palavras: coisas de revirar estômagos os mais resistentes, mas que lançam dúvidas não só sobre a operação (sobre elas não existem mais que sombra e dúvidas), como sobre o caráter daqueles que a conduzem (sádicos de primeira, a se crer nos depoimentos).

Claro, sempre se poderá argumentar que tais depoimentos foram montados por exímios atores. Ou que os ex-recrutas (que segundo eles nunca receberam baixa, nem documento de participação na campanha) narram meras alucinações.

Nada disso é impossível. Até porque o filme detém-se sobre um número restrito de personagens de Marabá (um dos locais de recrutamento nessa guerra que se desenvolveu às margens do rio Araguaia) e não se aventura entre outros habitantes do local, que seriam testemunhas mais distantes, e não menos fidedignas, de tais acontecimentos.

O fato é que o horror dos depoimentos, o tipo de barbárie praticado, segundo os ex-recrutas, pelos militares não apenas contra os guerrilheiros como contra inúmeros civis, continuará a assombrar a memória brasileira até que alguém se disponha a expor a documentação existente e mostrar o que de fato ocorreu naquela campanha.

Nesse sentido, malgrado as limitações da imagem, malgrado as dúvidas que se podem colar ao discurso dos recrutas (serão loucos? Militantes remanescentes do PCdoB? Atores bem treinados para fins subversivos?), o próprio silêncio oficial (que atravessa já uma pilha de governos democráticos) acaba por tornar o documentário relevante.

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