Argentina. O lenço da Mães no Vaticano

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16 Outubro 2017

- “Em quê podemos ajudar?” - perguntou Renato, na Itália.

- “Vocês poderiam organizar uma vigília para o Dia das Mães (data que é comemorada no dia 15 de outubro, na Argentina), na Praça São Pedro” - propôs Hebe de Bonafini.

A reportagem é de Nora Veiras, publicada por Página/12, 15-10-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Seu interlocutor ficou estarrecido. Ele queria colaborar com as homenagens dos quarenta anos das Mães, mas não estava acostumado a esta ousadia. A líder da Associação das Mães da Praça de Maio, então, foi averiguar. Tinha o privilégio de possuir contato com um interlocutor especial: o Papa.

"Escrevi a Francisco contando-lhe o que pensávamos e lhe perguntei como era possível fazer. Expliquei-lhe o quão mal estamos aqui, a perseguição que sofremos, e disse: 'Você sabe que há coisas que não se deve fazer, mas que são possíveis' ", explica esta mulher que aos 88 anos continua disposta a desafiar as pessoas.

Para reforçar o intercâmbio, também gravou uma mensagem de vídeo. Conseguiu o que queria: tornar a luta das Mães presente também no Vaticano, com o consentimento do Papa.

Quarta-feira passada, um emissário de Francisco ligou para a Casa das Mães. Haveria uma mudança de planos. Hoje será realizada na Basílica de São Pedro a canonização do "Beato Mateus Moreira e seus companheiros mártires", que foram assassinados em 1645 por soldados calvinistas holandeses na região do nordeste brasileiro. A implementação da cerimônia implicava outras regras de segurança. Concordaram, então, que um padre iria buscar, às 9:45, o grupo de mulheres de lenços brancos para fazê-las entrar na missa de canonização presidida pelo Papa e que se sentariam na primeira fila.

"Nós, as Mães, rompemos com o que estava estabelecido não porque somos loucas, mas porque foi possível", repetiu Hebe sentada no escritório onde todos os dias trabalha e coloca em prática as decisões da associação. "Desenhei também uns cartazes com os dizeres "Não passarão!" e os desenhos dos lenços das Mães. Elas iriam levar uma bandeira, mas como o evento não será na praça, elas vão pendurar em seus pescoços", explica.

O que significa para vocês estarem presentes no Vaticano? - o Página/12 pergunta.

- É um ato importante para as Mães, para que as pessoas vejam que continuamos lutando e também enxerguem como nos tratam. O mundo nos enxergará.
Essa é a inserção no mundo que as organizações de direitos humanos desenvolveram ao longo de anos de luta. Uma inserção no mundo que os protegeu das atrocidades durante a ditadura e lhes dá abrigo frente à perseguição das políticas do governo de Cambiemos.

“O que estão dizendo e fazendo agora com Santiago Maldonado é o que fizeram com os nossos filhos. Foi terrível e traiçoeiro. Houve mães que chegaram a ir ao México depois do terremoto de 1985, porque disseram que seus filhos estariam lá” - recorda enquanto faz ligações em uma continuidade estarrecedora.

Há muito tempo, em sua memória, ficou o dia em que as mães tomaram a catedral, em 2008, porque o governo de Buenos Aires não pagava os trabalhadores de uma cooperativa. Jorge Bergoglio era o Primaz da Argentina, nunca havia recebido as Mães, nem as Avós, e muito poucos especulavam de que forma ele poderia chegar a ser papa.

"Pensamos: como (Gabriela) Michetti (vice-chefe de governo naquela época) era amiga de Bergoglio, se tomarmos a Catedral o dinheiro irá surgir", argumentou Hebe.

- "Até que horas vocês ficarão?" - Bergoglio havia perguntado a elas, naquele momento.

- "Até que eles sejam pagos", disse Hebe.

- "Senhora, você sabe que é o Dia da Catedral e às 19h horas muita gente virá".

- "Não sabia, mas bem se vê que Deus me guiou até aqui por algum motivo", retrucou-lhe a mulher. Às 18h todos foram pagos.

Esse foi o único diálogo face-a-face entre o cardeal e Hebe até que o já convertido em Papa a recebeu durante duas horas, na residência de Santa Marta, em maio do ano passado.

- Como você passou da ocupação da catedral até este diálogo com o Papa?

- Quando o vi, pedi desculpas - não perdão -, porque em algumas coisas eu havia me excedido. Ele me disse: "Deixa isso pra lá, todos nós nos equivocamos na vida". Sabe o que aconteceu? Me reencontrei com a Igreja através dos Padres em Opção pelos Pobres. Meu filho mais velho, Jorge, estava em um grupo católico, do então padre, Federico Bachini, e daí o levaram. Quando me encontro com esses padres sinto uma felicidade... É como encontrar com os meus filhos, pelas coisas que meus filhos lutavam, por crianças felizes, que comem, que brincam, para que as coisas realmente mudem. Estes padres sempre estiveram lá: há 150 padres e freiras assassinadas - diz e recorda que hoje, em uma capela de Tigre, vão entregar a esse grupo o Lenço das Mães (ver artigo aparte).

Francisco "Paco" Oliveira, o pastor da Ilha Maciel, foi quem primeiro convidou Hebe para contar-lhe como lhe havia ocorrido de fazer uma vigília na Praça São Pedro. "Já me perguntaram coisas difíceis, mas a verdade é que... Eu não sei como eles se organizam", disse o padre desconcertado. Ela cortou caminho e apelou diretamente ao Papa. Renato, membro de uma das organizações italianas que apoiam as Mães, concordou com as combinações lideradas por Hebe.

No jogo de equilíbrio do Vaticano, quem conhece Bergoglio diz que a sua relação com a líder das Mães da Praça de Maio é marcada por sua necessidade de saldar as dívidas de sua história como pastor católico.

Passaram-se quarenta anos desde que em 1977 elas tomaram a decisão de se organizar. Quarenta anos da primeira vigília, da primeira assembleia, da primeira peregrinação a Luján, na qual usaram os lenços para serem identificadas, da primeira solicitação que desencadearia o sequestro e o desaparecimento de três mães: Azucena Villaflor, Esther Careaga e María Eugenia Blanco.

"Nestes momentos recordo de tudo, meus filhos, os sequestros - primeiro levaram o mais velho, depois de alguns meses, o mais jovem, e depois a minha nora -, a clandestinidade. O esforço de tantas pessoas, a responsabilidade de mostrar o que eles foram, por que motivos eles lutavam, o compromisso de defender e fazer o que eles queriam para o povo", repete Hebe de Bonafini, disposta a continuar a luta e construir algumas alianças que, alguns anos atrás, em outro contexto, seriam impensáveis. Ela espera que neste dia das mães, a luta inabalável dessas mulheres que se colocaram em pé frente ao terror apareça no Vaticano.

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