Francisco: “Por voracidade, o homem arruína a água que nos dá vida”

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23 Fevereiro 2017

“O cristão não deve viver fora do mundo, sabe reconhecer na própria vida e no que o rodeia os sinais do mal, do egoísmo e do pecado”. O Papa da encíclica Laudato Si voltou a advertir sobre o perigo de que o homem considere a Criação como uma “propriedade” sua, atuando com “orgulho e voracidade”. Sua advertência ocorreu durante a Audiência geral de hoje, na qual se referiu especificamente ao exemplo da água, contaminada para explorar minérios, embora seja “uma coisa belíssima” que “nos dá a vida”. O cristão, disse Jorge Mario Bergoglio, “é solidário com quem sofre, com quem chora, com quem está marginalizado, com quem se sente desesperado”, mas ao mesmo tempo “aprendeu a ler tudo isto com os olhos da Páscoa”, fundamento da esperança. Francisco concluiu a audiência com um apelo pelo Sudão do Sul, cenário de um “conflito fraticida” onde, disse o Papa, não bastam as “declarações”, mas são necessárias medidas para resolver a emergência alimentar.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por Vatican Insider, 22-02-2017. A tradução é do Cepat.

“Muitas vezes – recordou o Pontífice argentino na Praça São Pedro, após o período durante o qual as audiências foram realizadas na Sala Paulo VI –, somos tentados a pensar que a criação é nossa propriedade, uma posse que podemos explorar a nosso agrado e a respeito da qual não precisamos prestar conta a ninguém. Na passagem da Carta aos Romanos, da qual ouvimos apenas uma parte, o apóstolo Paulo nos recorda, ao contrário, que a criação é um dom maravilhoso que Deus colocou em nossas mãos, para que possamos estabelecer relação com Ele e possamos reconhecer a rastro de seu desígnio de amor, para cuja realização todos somos chamados a colaborar, dia a dia”.

Contudo, quando se deixa vencer pelo egoísmo, “o ser humano acaba por destruir inclusive as coisas mais belas que lhe foram confiadas. E assim aconteceu também com a criação. Pensemos – prosseguiu Francisco – na água. A água é uma coisa belíssima e muito importante; a água nos dá a vida, nos ajuda em tudo. Mas, para explorar os minérios se contamina a água, suja-se a criação e se destrói a criação. Isto é apenas um exemplo. Existem outros. Com a experiência trágica do pecado, rompe-se a comunhão com Deus, infringimos a originária comunhão com tudo aquilo que nos rodeia e acabamos corrompendo a criação, fazendo-a assim escrava, submetida a nossa caducidade. E, lamentavelmente, a consequência de tudo isto está dramaticamente diante de nossos olhos, todos os dias. Quando rompe a comunhão com Deus, o homem perde sua própria beleza originária e acaba por desfigurar ao redor de si todas as coisas; e onde tudo antes falava do Pai Criador e de seu amor infinito, agora carrega o sinal triste e desolado do orgulho e da voracidade humana”.

No entanto, São Paulo convida a “prestar atenção nos gemidos de toda a criação. Os gemidos de toda a criação... Expressão forte. Se, de fato, prestarmos atenção ao nosso redor, tudo clama: clama a própria criação, clamamos nós, seres humanos, e clama o Espírito dentro de nós, em nosso coração”. E, ao mesmo tempo, “sabemos que fomos salvos pelo Senhor e já nos é dado contemplar e degustar em nós e no que nos rodeia os sinais da Ressurreição, da Páscoa, que opera uma nova criação”. O cristão, então, “não vive fora do mundo, sabe reconhecer na própria vida e no que o circunda os sinais do mal, do egoísmo e do pecado. É solidário com quem sofre, com quem chora, com quem é marginalizado, com quem se sente desesperado..., mas, ao mesmo tempo, o cristão aprendeu a ler tudo isto com os olhos da Páscoa, com os olhos do Cristo Ressuscitado. E, então, sabe que estamos vivendo o tempo da espera, o tempo de um desejo que vai além do presente, o tempo do cumprimento. Na esperança, sabemos que o Senhor quer curar definitivamente com sua misericórdia os corações feridos e humilhados e tudo o que o homem deformou em sua impiedade, e que deste modo Ele regenerará um mundo novo e uma humanidade nova, finalmente reconciliada em seu amor”.

Ao final da Audiência, Francisco fez um novo apelo pelo Sudão do Sul: “Despertam particular preocupação as dolorosas notícias que chegam do atormentado Sudão do Sul, onde a um conflito fraticida se une uma grave crise alimentar que afeta a Região do Chifre da África e que condena à morte por fome milhões de pessoas, entre eles, muitas crianças. Neste momento, é mais necessário que nunca o compromisso de todos a não ficar apenas em declarações, mas a fazer com que sejam concretas as ajudas alimentares e a permitir que possam chegar às populações que sofrem. Que o Senhor sustente estes nossos irmãos e a todos que atuam para ajudá-los”.

Antes da Audiência, o Papa se reuniu, na saída que se encontra ao lado da Sala Paulo VI, com os familiares das vítimas do atentado terrorista que sacudiu a cidade de Daca, no ano passado, entre os dias 01 e 02 de julho.

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