Filme sobre o cardeal Martini é exibido na catedral de Milão

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17 Fevereiro 2017

Toda a cidade se reuniu no seu lugar mais simbólico: a Piazza Duomo. Para o personagem mais carismático do último meio século de Milão: o cardeal Carlo Maria Martini, que agora alguns já o querem até “bem-aventurado”, homem muito amado também pela alma laica da cidade. E, não por acaso, o evento que reuniu a todos de noite, mas absolutamente todos aqueles que podiam estar lá, foi uma obra “laica”, o documentário assinado pelo mestre do filme dos silêncios, Ermanno Olmi: Vedete, sono uno di voi [Vejam, sou um de vocês].

A reportagem é de Massimo Luce, publicada no jornal La Stampa, 10-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Desde o título, uma identificação entre a cidade e o religioso que talvez mais do que ninguém soube encarnar o espírito moderno, intelectual e até mesmo operário da metrópole vertical. Um filme que repassa o pensamento e a obra do arcebispo, entre fé e compromisso.

Esperada para uma projeção excepcional na catedral à tarde, o filme narra os capítulos da vida de Martini, trazendo à tona a mensagem de escuta e de compreensão promovida pelo cardeal, entre temas como o encontro com os terroristas arrependidos ou o diálogo entre as religiões: “Há árvores que crescem fora dos jardins, onde a ordem entre as plantas é avaliada não em função econômica, mas espiritual”, explicou o diretor em Milão, durante uma pré-estreia, falando das razões pelas quais decidiu contar em um filme a figura do prelado. “Na sua época, eu fiz E venne un uomo, sobre o Papa João XXIII, uma figura que havia abalado as estratégias políticas e religiosas. Por isso, não me surpreendeu o fato de Martini reunir tanta simpatia.”

Quem expõe o pensamento do cardeal é a voz do próprio Olmi, que, trabalhando no roteiro com Marco Garzonio, coletou e interpretou as palavras de Martini, entre considerações autobiográficas, profissões de fé e mensagens sociais: “Ele era um homem de ciência, que, uma vez nomeado arcebispo, entendeu que colocar-se nos passos da humanidade era mais importante do que qualquer livro”, lembrou o diretor, oferecendo também a sua própria experiência pessoal. “Com Martini eu tinha feito a primeira entrevista depois da sua nomeação como arcebispo: ele me deixou envergonhado pela forma como escutava a mim, que era apenas um reserva. Ele dizia que tinha muitas coisas a aprender, e assim fez por toda a sua vida.”

Entre os materiais da época, fotos e entrevistas coletadas, o filme retoma, depois, lugares simbólicos para a vida de Martini, da casa da infância às montanhas que ele amava: do início até o fim, sempre retorna o quarto de hospital no Aloisianum de Gallarate, onde Martini expirou no dia 31 de agosto de 2012, e justamente nesse cenário, em uma rara gravação de vídeo dos seus últimos dias, vemos o ex-arcebispo, profundamente afetado pela doença, com um fio de voz, abençoar a diocese de Milão.

Foi nesses momentos que Martini expressou a sua última mensagem de preocupação com o atraso histórico da Igreja, como recordou Garzonio ao falar sobre o seu envolvimento no filme: “Foi a eleição de Bergoglio que me fez decidir realizá-lo. Nele, eu vi continuidade com a mensagem expressada por Martini naquela última conversa: o Papa Francisco fala de um novo governo da Igreja, do atraso sobre temas como vida, amor e família, da necessidade de que o povo de Deus frequente as Escrituras e de problemas como periferias e imigração”.

Desse modo, o filme também transmite a herança mais política e atual de Martini, uma herança ainda viva, como testemunha o tributo que a cidade e a diocese oferecem à memória do cardeal, projetando na catedral o filme Vedete, sono uno di voi: entre as autoridades presentes, estavam o cardeal Angelo Scola e o prefeito de Milão, Giuseppe Sala, com muitas personalidades da política e da cultura, do ministro Maurizio Martina ao ex-prefeito Gabriele Albertini, até Elisabetta Sgarbi.

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