Não é “confronto”, é repressão

Revista ihu on-line

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Mais Lidos

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


03 Dezembro 2015

É possível que um estudante de 15 anos, de bermuda, chinelo e mochila, enfrente um policial, com colete à prova de tiros, um cassetete na mão e uma arma de fogo na cintura? Que tipo de enfrentamento é esse?

A reportagem é de Marina Rossi, publicada por El País, 02-12-2015.

Quando dezenas de policias devidamente paramentados partem para cima de alunos menores de idade com a truculência que tem a Polícia Militar, isso não é confronto, mas repressão.

Sejamos coerentes: a polícia reprime manifestantes. E não entra em confronto com eles. A não ser que estejamos falando de manifestantes que sejam bandidos de alta periculosidade capazes de enfrentarem a polícia. Estudantes só conseguem, no máximo, correr dela. Isso quando as tiras das havaianas não soltam no meio do caminho.

Nos últimos dias, quanto mais o governo Alckmin falou em diálogo, mais a polícia reprimiu os adolescentes nas ruas e nas escolas. Essa atitude da PM, que não condiz com o discurso proferido pelo Governo, só contribui para o aumento da tensão com os estudantes. E a possibilidade de haver, de fato, uma negociação parece ficar ainda mais distante.

Soma-se a isso o já conhecido histórico de abusos da Polícia Militar. Em junho de 2013, a violência da PM para reprimir manifestantes deixou um fotógrafo cego de um olho e dezenas de feridos. O confronto, neste caso, tem sempre o mesmo perdedor.

Na língua portuguesa, confrontar significa pôr frente a frente; enfrentar. O dicionário Aurélio também define confronto como briga. E usa um título de uma reportagem dos resquícios da ditadura, quando, em 1985 o já extinto Jornal do Brasil escreveu "quatro pessoas ficaram feridas e 14 foram detidas em longo confronto de policiais com milhares de manifestantes." Há 30 anos dizia-se que manifestantes e a polícia entraram em confronto.

Já reprimir, significa sustar a ação ou movimento de; conter, reter, moderar, coibir (...). Essas palavras são mais coerentes com a ação da PM quando é acionada para controlar a manifestação dos secundaristas. Quando um batalhão munido usa bombas de efeito moral para conter um punhado de estudantes, ou arrasta meia dúzia deles para a delegacia mais próxima para encerrar uma manifestação.

Das jornadas de junho pra cá, São Paulo foi tomada outras dezenas de vezes por manifestações, principalmente na região central da cidade. Algumas delas contaram com a presença de black blocs, grupo de mascarados que tem como tática provocar a polícia que, neste caso sim, entra em confronto com o grupo e acaba por reprimir todo o resto da marcha. Essa é a diferença.

Nos últimos dias, as manifestações dos estudantes contrários à reorganização escolar não têm a participação dos black blocs. Ainda assim, elas estão terminando em repressão, o que demonstra que, no mínimo, a secretaria de Segurança Pública não aprendeu ainda a lidar com manifestações. Talvez nunca aprenda. Mas nós já não podemos ignorar a grande diferença entre confrontar e reprimir.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Não é “confronto”, é repressão - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV