É preciso falar em transfobia. Artigo de Renato Dornelles

Foto: Panda Filmes/Divulgação

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10 Outubro 2026

Filme premiado em Gramado, Filhas da Lua, a partir da realidade de quatro personagens, aborda a temática da violência contra mulheres trans e travestis dentro e fora das prisões.

O artigo é de Renato Dornelles, publicado por ExtraClasse, 08-10-2026.

Renato Dornelles é jornalista, escritor e cineasta, documentarista com foco em Segurança Pública e escreve mensalmente para o Extra Classe. É autor dos livros Falange Gaúcha, A Cor da Esperança e Paz nas Prisões Guerra nas Ruas, diretor e roteirista dos longa-metragens Central, Olha Pra Elas e da série de TV Retratos do Cárcere.

Eis o artigo.

Consagrado pelo júri oficial e pelo júri popular, o filme Filhas da Lua garantiu o prêmio máximo na categoria longas-metragens gaúchos da 54ª edição do Festival de Gramado. A obra é dirigida por Tatiana Sager e Gabriel Sager Rodrigues, com Li Rassier de Andrade como diretor assistente. Eu próprio, juntamente com os três, assino o roteiro e também sou o produtor cinematográfico.

Evidentemente, a conquista nos traz grandes satisfação e alegria pessoais. Mas há motivos ainda mais especiais para eu celebrar. A obra completa uma trilogia iniciada pela parceria que formo com a Tatiana desde a década passada, com a realização do também longa-metragem Central, o Poder das Facções no Maior Presídio do Brasil, sobre o encarceramento masculino, a partir da realidade do Presídio Central de Porto Alegre. Lançado em 2017, o filme ficou dez semanas em cartaz e foi o terceiro documentário mais assistido em salas de cinema do país naquele ano, com mais de 16 mil espectadores.

Na sequência e como reflexo do sucesso obtido por Central, em 2020 levamos à TV a série Retratos do Cárcere, que, com 13 episódios, permaneceu no ar durante dois anos em dois canais. Cada um dos capítulos, de forma independente (com início, meio e fim e sem dependência dos demais), abordou um aspecto do sistema prisional no Brasil, como o encarceramento em massa, o surgimento e a expansão das facções, o sacrifício de familiares de presos, a religiosidade, entre outros.

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Em 2023, ainda sob reflexos da pandemia de covid-19, que mudou a realidade das salas de cinema não só no Brasil, mas como em praticamente no mundo todo, lançamos o longa-metragem Olha Pra Elas, abordando graves problemas do encarceramento feminino, através de depoimentos de detentas e apenadas, principalmente de quatro prisões gaúchas.

Central e Olha Pra Elas obtiveram uma grande repercussão e algumas premiações não apenas no país, como também no exterior. Houve exibições em Portugal, Itália, Espanha, Estados Unidos e praticamente toda a América do Sul. Considerando também episódios da série Retratos do Cárcere, foram realizados mais de 200 cines-debates, nos quais, após as exibições, as obras foram discutidas pelos participantes.

Os cines-debates ocorreram principalmente em universidades, mas também houve em escolas, associações comunitárias e de representação da sociedade civil, entidades de classe, como OABs, associação de juízes, de promotores e de defensores públicos. Também em órgãos oficiais, como a Procuradoria-Geral da República, a Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), ligada ao Ministério da Justiça, e a Câmara dos Deputados.

Entre os reflexos da repercussão das obras, destaco o fim do antigo Presídio Central de Porto Alegre. Considerada a pior do país pela Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o sistema prisional da Câmara dos Deputados, entre 2008 e 2009, e a pior da América Latina pela Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da OEA, em 2013, a prisão teve o seu mais grave problema retratado em Central: o domínio das facções na maioria de suas galerias.

Na atual década, o governo estadual, com um investimento de R$ 139 milhões, colocou abaixo os antigos pavilhões, abrindo espaço para outros, bem mais modernos, que compõem a atual Cadeia Pública de Porto Alegre. Nesta, diferentemente do que ocorria no Presídio Central, os presos são contidos em celas, em vez de ficarem soltos nas galerias e, pelo menos até o presente momento, não há superlotação. Isso minimiza o poder e as ações de grupos criminais.

Tanto no início das obras de derrubada dos antigos pavilhões, como na inauguração da Cadeia Pública, as autoridades reconheceram publicamente a importância da repercussão do documentário Central para a adoção da medida histórica. Já Olha Pra Elas, entre outras coisas, foi utilizado pela Senappen em seminários nas cinco regiões do Brasil para a elaboração de uma nova política de encarceramento feminino.

Por conta deste conjunto da obra, considerado uma importante contribuição para o desenvolvimento do Audiovisual no RS, e por “darmos voz a pessoas marginalizadas pela sociedade”, eu e minha sócia nos projetos, Tatiana Sager, fomos homenageados pelo Instituto Estadual do Cinema, com o Prêmio Iecine Destaque durante o Festival de Gramado.

E é isso que esperamos obter com Filhas da Lua, que trata de outro segmento discriminado dentro e fora do sistema prisional: mulheres trans e travestis. Já há 16 anos, o Brasil ocupa o primeiro lugar no indesejado ranking dos países que mais matam pessoas trans e travestis no mundo.

A transfobia é real e ocorre no dia a dia em todo o país. Mas é praticamente invisível diante dos olhos da sociedade. Filhas da Lua, a partir da realidade de quatro personagens trans e travestis, aborda a temática dentro e fora das prisões.

Como diz o diretor assistente e roteirista da obra e homem trans, Li Rassier de Andrade, são “travestis que buscam a liberdade física e social, e resistem ao sistema carcerário desumano e às imposições da normatividade homem x mulher, feminino x masculino”.

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