Dias após a visita do Papa Leão, tumultos eclodem em Paris

Protestos estudantis na França. (Foto: RS/Fotos Públicas)

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08 Outubro 2026

Apenas alguns dias após a visita apostólica do Papa Leão XIV à França, realizada entre 25 e 28 de setembro, cenas de tumultos substituíram o clima de união e paz que marcou a viagem papal.

A reportagem é de Caroline De Sury, publicada por OSV News e reproduzida por America, 07-10-2026.

Os protestos que começaram em pequena escala na região de Paris, em 17 de setembro, espalharam-se por todo o país depois de 28 de setembro, obrigando ao fechamento ou causando interrupções em quase 900 das 3.700 escolas públicas de ensino médio da França até 6 de outubro.

“Depois daqueles dias de serenidade, da alegria de estarmos juntos e da paz” durante a visita papal, “a realidade rapidamente nos alcançou”, comentou o bispo Hervé Gosselin, de Angoulême, em 2 de outubro, durante uma conversa com o podcast Les Coulisses de l’Info, do jornal regional Charente Libre.

Desde o início dos protestos em Paris, os estudantes passaram a contar com a participação, em todo o país, de líderes sindicais e políticos, além de manifestantes encapuzados, que lançaram fogos de artifício, quebraram janelas com pedras de calçamento e atearam fogo a lixeiras.

Segundo a emissora pública de rádio France Info, o Ministério da Justiça informou que mais de 5 mil pessoas foram detidas pela polícia, enquanto várias centenas de policiais ficaram feridos.

Os medos dos jovens são compreensíveis, mas a violência é “desnecessária”

O bispo Olivier de Cagny, de Évreux, afirmou que muitos jovens enfrentam preocupações relacionadas às mudanças climáticas, ao desemprego, às guerras e ao isolamento social. Ao mesmo tempo, porém, classificou a violência como “desnecessária”.

“Que contraste entre essas cenas e aquelas testemunhadas durante a visita do papa”, afirmou, pedindo orações e a retomada do diálogo para pôr fim à violência.

Para a Le Figaro Magazine, a viagem do papa à França foi, portanto, “um intervalo abençoado, uma trégua providencial nestes tempos de sombrio clima de ansiedade”, escreveu Guillaume Roquette no jornal em 2 de outubro.

Diante da violência que eclodiu, o bispo Matthieu Rougé, de Nanterre, nos arredores de Paris, recordou a visita papal como um acontecimento que libertou as pessoas “da banalidade e da violência que afetam com demasiada frequência a vida pública contemporânea”. Segundo ele, foi um “momento de conforto” para uma França que mergulhou no caos poucas horas depois de o papa partir de Metz rumo a Roma.

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Instabilidade tem como principal causa a economia e o aumento dos custos

A onda de protestos tem caráter principalmente econômico: as negociações em andamento sobre o orçamento de 2027 devem ser difíceis, em um cenário marcado pela inflação e pelo aumento acentuado dos preços do gás.

Aos estudantes também se juntaram agricultores, incentivados por sindicatos do setor a protestar após um verão marcado por ondas de calor na França. A ausência quase total de chuvas afetou gravemente as finanças dos trabalhadores rurais. Ao mesmo tempo, a dívida pública francesa, que atingiu um novo recorde, torna cada vez mais difícil oferecer a assistência social reivindicada pelos manifestantes.

Para o bispo Gosselin, algumas das reivindicações dos estudantes são “fúteis”, como as relacionadas à má organização dos horários das aulas. Outras, porém, são “muito mais profundas”, pois expressam suas angústias em relação ao futuro e, em sua opinião, precisam ser ouvidas.

“Mas a violência é um fracasso”, insistiu o bispo. “Em nenhuma circunstância a violência pode ser justificada.”

Prefeito de Saint-Denis recebeu o papa e depois se juntou aos manifestantes

Os comentários do bispo também foram uma resposta a perguntas sobre o prefeito de Saint-Denis, Bally Bagayoko, muçulmano de origem maliana conhecido por sua associação amplamente divulgada com partidos da esquerda radical. Ele recebeu calorosamente o papa na chegada à vigília com os jovens, realizada em 25 de setembro no estádio nacional de Saint-Denis, e participou do evento.

Desde então, porém, Bagayoko passou a se manifestar ao lado dos estudantes, chegando a enfrentar uma ação judicial por “supostos atos de incitação à prática de um crime”. Em 29 de setembro, ele declarou publicamente que “a violência, em determinado momento, pode ser legítima”, embora tenha reconhecido que “sempre que puder ser evitada, é melhor”.

Diante dessas circunstâncias, líderes da Igreja têm reiteradamente defendido o diálogo em vez do confronto.

Para o bispo de Cagny, “a violência é desnecessária”, mesmo para resolver “problemas totalmente legítimos”, como as más condições de determinadas escolas ou a falta de professores.

“Um bloqueio pode ser uma forma válida de protesto se ajudar a abrir um diálogo”, enfatizou em conversa com o jornal La Croix, em 4 de outubro. “Mas, na situação atual, ninguém parece realmente entender o que está acontecendo.”

Guerras e redes sociais ampliam um “ambiente que provoca ansiedade”

O bispo de Cagny afirmou: “Não há como negar que o mundo em que os jovens estão crescendo pode parecer assustador para eles”. O futuro “pode parecer sombrio; as mudanças climáticas são uma fonte de ansiedade, assim como as perspectivas de desemprego”, observou.

Para o bispo de Évreux, os jovens estão enfrentando um “ambiente que provoca ansiedade”, alimentado pelas guerras e amplificado pelas redes sociais.

“As famílias às vezes também são enfraquecidas pelas crises, pela falta de comunicação e pela onipresença das telas”, observou o bispo de Cagny, destacando que os jovens “muitas vezes são deixados sozinhos para enfrentar suas angústias” e “às vezes têm dificuldade em acreditar que o diálogo é realmente eficaz para resolver conflitos”.

“Eles se deparam com um mundo que percebem como violento e incerto e, hoje, rebelam-se contra essa situação”, acrescentou.

Para o bispo de Cagny, “essa violência interior pode permanecer latente, sem ser expressa, e, quando surge uma oportunidade de manifestação, como acontece com esta mobilização, alguns se lançam nela, movidos por uma espécie de fascínio pela violência, sem compreender plenamente suas consequências”.

“Paradoxalmente, eles não percebem que são eles próprios que recorrem à violência”, afirmou o bispo.

“Diante da violência, os jovens, especialmente, precisam reencontrar o caminho do diálogo. Devemos rezar para que essa violência cesse.”

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