07 Outubro 2026
Os agressores não perceberam que a porta do abrigo abria para fora, e ele escapou ileso. A experiência traumática de três anos atrás reafirmou seu compromisso com uma resolução pacífica e sugere que a raiz do problema é a ideologia sionista.
Pedro Goldfarb fez o ensino médio em meados dos anos 1970 no Colegio Nacional Buenos Aires e fez parte da efervescência política por meio de sua militância no movimento Hashomer Hatzair, de judeus laicos socialistas. Mas poucos anos depois abandonou o sionismo como ideologia e entrou no Partido Comunista de Israel. Em 1981, depois de se formar agrimensor na UBA, emigrou para Israel, para o kibutz Nir Itzchak, em frente às cidades palestinas de Khan Yunis e Rafah – perto do Egito –, um dos atacados em 7 de outubro de 2023. Ele se salvou por milagre e relata o episódio, entrevistado no livro do sociólogo Guillermo Levy, Sobre los escombros de Gaza (Marea, 2025). O relato é arrepiante:
“Às 6h20 da manhã aconteceu algo inaudito. Estávamos acostumados a que, de vez em quando, chegassem mísseis de Gaza; nos metíamos no quarto de segurança, ouvíamos cinco minutos de mísseis, tanques ou helicópteros do Exército, e tudo voltava ao normal. Naquela manhã não foram um ou dois, foram vinte. Durante 15 minutos eram mísseis e antimísseis voando de um lado para outro. Um parente que trabalha em segurança me perguntou por WhatsApp: ‘Pedro, o que está acontecendo aí? Há rumores de que terroristas entraram desde Gaza e estão invadindo os kibutzim’. Na minha casa ainda não estava acontecendo nada, mas percebi que a coisa vinha feia. Liata Tzili, que morava no kibutz Nir Oz, me ligou. Estávamos em contato e, de repente, não ouvimos mais nada dela. Soubemos que foi uma das levadas para Gaza e voltou depois de dois meses. Nós nos trancamos no abrigo interno. Às 7h45 comecei a dizer a todos ao telefone: ‘Não posso falar porque tenho terroristas em casa’”.
A entrevista é de Guillermo Levy e Julián Varsavsky, publicada por Página|12 em 07-10-2026.
Eis a entrevista.
Daqui de dentro vocês ouviam o que acontecia no resto da casa?
Durante quatro horas, dois grupos distintos de terroristas estiveram dentro da minha casa. O primeiro foi um grupo armado que metralhou a casa inteira e destruiu o que pôde. Eu tinha no criado-mudo meu passaporte e dinheiro para uma operação que eu precisava fazer: levaram tudo o que havia. Ficaram uma hora e meia e até tiveram tempo de se sentar, abrir a geladeira, comer e beber tranquilos. Eu tinha garrafas de vinho. Como eles são muçulmanos, não bebem. E se dedicaram a quebrá-las. Minha mulher é de origem iraquiana; escutava tudo e me traduzia o que acontecia lá fora. Queimaram nosso carro e tentaram incendiar minha casa, mas não encontraram o registro do gás, que fica escondido num armário. Tentaram abrir o quarto de segurança e não conseguiram. Eu tenho problemas nas mãos; elas não têm força, então era minha mulher quem segurava a maçaneta, fazendo força para que não entrassem. E não os deixou entrar.
Mas não havia trava de segurança nem chave?
Não. Eram só abrigos antimísseis. O fato é que, para sorte nossa, a porta do quarto de segurança abre para fora. E eles tentaram entrar empurrando para dentro. Então minha mulher fazia força de dentro e eles faziam força de fora para dentro: estavam ajudando ela. Depois de meia hora sem conseguir abrir, disseram: “Aqui não tem ninguém, então não há nada a fazer aqui”. Num momento de desespero, eu disse à minha mulher: “Escute, deixe a porta de lado, entre na cama, eu saio e me entrego para que não peguem você”. Ela me disse: “Saímos vivos os dois ou ninguém sai vivo. Então não se faça de valente”. Algum tempo depois me dei conta de que em Nir Oz houve situações parecidas. O marido se entregou e a mulher se salvou. E ele foi morto quando estava em cativeiro em Gaza. Nós ficamos no quarto até as 5h30 da tarde: onze horas. Eu estava de cueca, minha mulher estava de camisola.
É estranho que não tenham atirado na fechadura. A porta é de metal, mas esse é o ponto fraco.
É o que me pergunto até hoje. Ao meu vizinho Moshe Rozen, argentino, deram um tiro na mão, justamente porque ele estava segurando a fechadura.
Como continuou o confinamento?
Quando o primeiro grupo foi embora, achamos que tínhamos escapado. Mas meia hora depois chegou outro. Eram moradores de Khan Yunis ou Rafah que vieram roubar. Eu tinha uns sapatos ortopédicos na entrada de casa e levaram. Deixaram os tênis deles para mim. Percebemos que eram gente comum porque ouvíamos as sandálias. Eles também tentaram várias vezes entrar no quarto e não conseguiram.
Esse segundo grupo não estava armado?
Não. Dividiram os cômodos para roubar. Só às 5h30 chegaram os soldados israelenses. Ouvimos que um dizia ao outro: “Aqui ninguém saiu vivo”. Bateram na porta e minha mulher estava com medo: doía muito o peito dela por todo o esforço que fez. Disseram: “Somos do Exército”. Não sabíamos se respondíamos. Depois soubemos que houve casos de gente que veio do outro lado da fronteira vestida de soldado de Israel e vários abriram a porta: foram mortos. Como percebemos que eram soldados israelenses? Porque um disse: “Sou o paramédico”. Eu tinha pedido um paramédico por telefone por causa das dores da minha mulher. E os árabes pronunciam o P como B. Então eu disse à minha mulher: “Ele não disse baramédico, disse paramédico; tem que ser um dos nossos”. Então abrimos.
Quanta gente de Nir Itzchak morreu?
Seis pessoas: Shajar Iaron, Ofek Arazi, Oren Goldin, Boaz Abraham, Lior Fabian Rudaeff, Tal Haimi, Ela Hamoi e Ofir Melman. Eram os encarregados da Força de Segurança para nos defender com o pouco que tinham; morreram em combate. O filho do meu vizinho caiu porque estava no grupo que saiu para defender o kibutz, Ofek Arazi. Uma grande amiga da minha filha morreu; foi baleada no festival Nova. Um soldado morreu perto daqui. E houve quatro sequestrados, vizinhos da casa dos fundos da minha. Clara, que é membro do grupo que emigrou comigo em 1981. Com ela estavam a irmã, o irmão e o companheiro. Clara foi libertada nos primeiros meses. E os outros dois foram resgatados pelo Exército.
Como mudou a sociedade israelense depois do 7 de outubro?
Mudou de forma tremenda. A tolerância sumiu do mapa. Gadi Moses é um dos criadores deste kibutz, e voltou do seu sequestro nos túneis de Gaza. Foi o responsável pela festa de Rosh Hashaná. Como todos os anos, soltou pombas como desejo de encontrar uma paz com nossos vizinhos do outro lado da fronteira. Quando isso chegou às redes sociais, ameaçaram e xingaram: “Para que fizemos tudo o que podíamos para salvar você? Teria ficado em Gaza”. O mesmo aconteceu com Yohebet Lifshitz, que voltou do sequestro e, quando foi entrevistada, culpou Netanyahu de ser o responsável direto por tudo o que aconteceu em 7 de outubro. E de novo: gente sem escrúpulos a inundou de mensagens mandando-a de volta para Gaza. Nas últimas semanas estamos vendo que quase não há resposta oficial do governo ao terrorismo judaico. Digo com todas as letras: terrorismo judaico. Terroristas judeus atacando palestinos na Cisjordânia, simplesmente por atacá-los. Não é que os palestinos tivessem feito algo a eles, atacam só por revanche. Fazem pogroms contra gente inocente que vive na Cisjordânia e quer viver em paz, como a nossa gente que quer viver em paz. Isso eu já disse no artigo do livro Sobre los escombros de Gaza: uma das coisas importantes que me aconteceram – e digo sem corar – foi que cheguei a Israel em 1981 com um grupo juvenil sionista e, poucos anos depois, tive uma tremenda decepção com as políticas do Estado, não só contra os palestinos de Gaza e da Cisjordânia, mas também contra os habitantes árabes israelenses que vivem dentro de Israel. Abandonei o sionismo e entrei no Partido Comunista, que integra a Frente pela Paz e a Igualdade, Hadash. A decepção é tremenda. Nesse artigo digo que Israel está à beira do precipício, considerando as respostas populares pelo mundo ao que está acontecendo em Gaza.
O senhor se arrepende de ter ido para Israel?
Na sua época, não disse que todo o povo argentino estava a favor da ditadura civil-militar de Videla. Da mesma maneira, não posso generalizar e dizer que todos os habitantes de Israel são racistas, colonialistas e fascistas. Porque não é verdade. Meus filhos me perguntam exatamente isso há três anos. Depois do meu infarto posterior ao 7 de outubro, meus alunos de História me pediram que voltasse à escola. E me fizeram duas perguntas. “Como você está se sentindo?” E a segunda: “Mudou sua forma de pensar?”. E, para a surpresa deles, eu disse: “Sim, mudei minha forma de pensar. Agora sou mais de esquerda do que antes”. Sobre o arrependimento, meus filhos me perguntaram o mesmo. E eu disse a eles: “Não, não me arrependo de ter emigrado. Uma vez eu já fugi. E se eu saí da Argentina em 1981, duas vezes não fugirei: fico aqui e luto até o fim”.
Entrevistamos o historiador israelense Omer Bartov, que rompe o tabu sem pudor: disse que o problema de fundo é a ideologia supremacista sionista.
Omer Bartov tem razão em parte. Israel, para poder melhorar algo, para poder superar tudo isso, primeiro de tudo tem que abandonar o sionismo, nada menos que seu fundamento. Ser sionista e ser progressista é uma contradição. Os problemas do Estado de Israel são dois. O primeiro é o sionismo. O segundo é que os dirigentes acreditam que os EUA são a solução, quando na verdade são o eixo secundário do problema.
Sionismo é racismo?
As pessoas que se autodenominam sionistas e são de extrema direita – os fanáticos religiosos e também parte da direita liberal – e que não tratam de forma igualitária os vizinhos de Gaza e da Cisjordânia, por um lado, e os próprios habitantes árabes do Estado de Israel, são xenófobas e alimentam o colonialismo interno e externo do Estado.
A um dirigente do Meretz perguntaram na imprensa “o que é o sionismo”, e ele disse: “É amar Israel”.
O partido Meretz se autodenomina social-democrata, mas, a meu ver, tem os mesmos fundamentos doentios que o resto. A esquerda sionista em Israel não existe, não há esquerda sionista. Se alguém diz “eu amo Israel, sou sionista”, então o cidadão árabe de Nazaré dentro de Israel que diz que ama o Estado onde vive é sionista?
Falemos da perspectiva oposta: a de um palestino exilado durante a Nakba para Gaza em 1948. Alguns ainda vivem e seus filhos e netos foram bombardeados, massacrados nas Marchas do Retorno e bloqueados a vida toda. Um militante palestino ou um civil comum que cruzou para Israel para matar, roubar e se vingar poderia discriminar entre israelenses pacifistas e não pacifistas?
Alguém me ensinou uma vez que, quanto mais agressivamente eu tratar meu inimigo e fizer todo o possível para desumanizá-lo e para que não tenha voz nem voto, muito maior será a sede de vingança. Por isso, quando alguém me pergunta como vejo o assunto, aqui há dois povos. E terão que passar, talvez, uma ou duas gerações para tentar fazer um processo de reeducação de base. Ehud Barak foi primeiro-ministro de Israel e disse: “Se eu fosse um jovem palestino da idade adequada, em algum momento teria entrado numa das organizações terroristas”. Eu não posso deixar de culpar gente que veio me assassinar; não posso dizer “sou pacifista, não me matem”. Porque a questão vem da base: como disse aos meus alunos, o problema é que os israelenses de 16 e 17 anos não veem outra alternativa que não seja ir para o Exército e matar; quanto mais puderem matar, melhor. Quantos anos a África do Sul levou para terminar com isso? Várias gerações. E não chegaram a uma solução extraordinária, mas pelo menos estão tentando modificar todo o aparato de relações entre brancos e negros, depois de tantos anos de apartheid. O que posso esperar de um jovem de 12 ou 13 anos que vive entre os escombros de Rafah ou Khan Yunis? Que me queira bem? Mas é preciso fazer todo o possível para que isso mude. Não creio que eu vá ver, mas que ao menos vejam meus filhos. Tenho três netos. Que país deixo para eles? Que lugar de merda deixo quando as pessoas que estavam mais identificadas com uma ideia de esquerda me dizem “não há com quem conversar”, “você não vê que vieram nos matar?” O problema é que não concebem uma forma de análise em que vejam as duas partes da equação. Aqui só se vê a nossa parte da equação. A direita fascista, fanática e clerical busca anexar Gaza e limpá-la de habitantes. Depois reclamam porque os acusam de genocidas. E a maioria dos partidos de oposição ao governo fala em estabelecer uma supremacia militar que nos dê certa pseudotranquilidade, sem dar nem sequer um espelhismo de solução política.
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