06 Outubro 2026
Em grupos de foco, registrou-se o surgimento de uma “política de ressentimento”, na classe trabalhadora, quanto à imigração, crime e perda de controle sobre a comunidade, sentindo-se esquecida pelas elites cosmopolitas.
O artigo é de Fernando Nogueira da Costa, publicado por A Terra é Redonda, em 05-10-2026.
Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP).
Eis o artigo.
1.
No livro Left adrift: what happened to liberal politics (2024), Timothy Shenk examina como o Partido Democrata transformou sua estratégia e sua base eleitoral a partir da eleição de Bill Clinton em 1992 até a derrota de Hillary Clinton em 2016. Detalha o confronto prático entre os consultores políticos Stan Greenberg (defensor do populismo de classe) e Doug Schoen (defensor do consenso de centro).
Houve uma metamorfose da coalizão democrata. Em 1996, o apoio a Bill Clinton ainda caía quando a renda do eleitor subia, mantendo o padrão tradicional do New deal. Em 2016, sob Hillary Clinton, a base democrata fez uma curva em formato de “U” (ou “anzol”): tornou-se forte no topo (eleitores ricos e com pós-graduação) e na base mais vulnerável, mas encolheu muito no meio da distribuição de renda e entre os trabalhadores sem diploma universitário.
Stan Greenberg atuou como o principal estrategista de Bill Clinton, em 1992, enxergando nele o herdeiro do populismo multirracial de Robert F. Kennedy. Em uma combinação estratégica, Stan Greenberg convenceu Bill Clinton a adotar um populismo econômico incisivo (cortes de impostos para a classe média, aumento de impostos para os ricos e proteção ao emprego), combinado com uma moderação multirracial calculada em pautas culturais (reforma do bem-estar social, rigor no combate ao crime e posicionamento pragmático sobre o aborto).
Bill Clinton chegou a criticar publicamente uma ativista radical para sinalizar credibilidade aos eleitores moderados. Venceu em 1992, mas o candidato independente Ross Perot obteve 18,9% dos votos, atraindo trabalhadores de colarinho azul. O aviso das urnas evidenciou: a vitória democrata fora uma rejeição ao Partido Republicano, e não uma consolidação definitiva de uma nova maioria.
Com a derrota nas eleições de meio de mandato, em 1994, os democratas perderam o controle do Congresso. Stan Greenberg atribuiu o desastre ao abandono dos temas populistas em favor da austeridade fiscal e do foco na NAFTA. Bill Clinton, em busca de um bode expiatório, afastou Stan Greenberg.
2.
A nova equipe com Doug Schoen dividiu o eleitorado em dois grupos decisivos: Swing 1 (mulheres suburbanas com ensino superior, conhecidas como liberais nos costumes e conservadoras na economia) e Swing 2 (homens de colarinho azul e eleitores de Ross Perot).
A nova consultoria defendeu: “a eleição não era sobre economia ou classe sociais, mas sobre valores”. A retórica de luta de classes foi substituída por mensagens de unidade e busca pelo centro, na estratégia batizada de “triangulação”, garantindo a reeleição de Bill Clinton em 1996, embora com a menor taxa de participação eleitoral desde a década de 1920.
Al Gore, em 2000, demitiu Doug Schoen e trouxe de volta Stan Greenberg, adotando o slogan populista “o povo contra os poderosos” [the people versus the powerful]. Al Gore venceu no voto popular, mas perdeu no Colégio Eleitoral. Evidenciou: a classe trabalhadora de colarinho azul continuava migrando para os republicanos.
Nas primárias democratas (disputa interna em 2008), Mark Penn desenhou a estratégia de Hillary Clinton, tentando posicioná-la como a candidata dos trabalhadores e da classe média, enquanto Barack Obama reuniu os jovens e os eleitores altamente diplomados.
A equipe de Barack Obama descartou os velhos gurus de pesquisas e grupos de foco, substituindo-os por modelos algorítmicos, big data e testes estatísticos automatizados. Mas houve uma cegueira tecnológica em 2016: a campanha de Hillary Clinton dependia fortemente de um algoritmo de projeção chamado “Ada”. Greenberg enviou repetidos alertas aos chefes da campanha, avisando: a mensagem parecia “sem noção” para os trabalhadores de colarinho azul e ser apenas “anti-Trump” não bastaria.
A equipe de Hillary Clinton ignorou os alertas de Greenberg. Donald Trump venceu no condado de Macomb (o histórico bastião de trabalhadores operários analisado por Greenberg), o que o levou à presidência.
Timothy Shenk conclui: a longa disputa travada entre o projeto de classe de Greenberg e o projeto de consenso de Penn e Schoen terminou com a derrota de ambos. As forças da polarização cultural destruíram a base histórica de classe do Partido Democrata, deixando a esquerda sem uma maioria sólida.
Timothy Shenk examina também como as técnicas de consultoria política e as teorias de reconfiguração eleitoral, desenvolvidas nos EUA, foram exportadas para o Reino Unido, moldando a ascensão do New labour de Tony Blair e redefinindo a relação do Partido Trabalhista britânico com a classe trabalhadora.
3.
Após uma derrota dolorosa do Partido Trabalhista britânico nas eleições de 1992, o estrategista Philip Gould viajou para Little Rock para estudar de perto a campanha vitoriosa de Bill Clinton. Philip Gould adotou as análises e os escritos do americano Stan Greenberg como definidores para a reconstrução do Trabalhismo.
Tony Blair argumentou: a vitória esmagadora do Trabalhismo em 1945 fora a exceção, e não a regra. O Partido Trabalhista precisava parar de apelar apenas para a base sindical tradicional em um país onde dois terços dos trabalhadores não eram sindicalizados.
Houve, então, o abandono do socialismo estatista. Tony Blair alterou o regimento do partido, para remover a cláusula em defesa da propriedade estatal dos meios de produção, e redefiniu a ideologia para o chamado de “social-ism”: uma vertente ética e moral focada em igualdade de oportunidades, combate à pobreza e dinamismo econômico compatível com o livre-mercado.
O projeto buscou atrair tanto os filhos da classe trabalhadora com ambições de ascensão social quanto a elite meritocrática diplomada.
Em uma proposta populista de classe, Greenberg defendeu uma mensagem de confronto contra a elite conservadora: “O Trabalhismo trabalha para todos; os Conservadores para os poucos privilegiados”. Mas houve a recusa à “guerra de classes”. Blair rejeitou criar divisão ou discórdia, preferindo a mensagem unificadora de “uma nação” (one nation) e a promessa da terceira via (third way).
A campanha acabou combinando o tom populista brando com promessas concretas de impacto direto no cotidiano (como redução de turmas escolares e diminuição de filas no sistema de saúde pública), resultando na vitória acachapante de 1997.
Com uma nova base eleitoral, o Trabalhismo venceu entre os eleitores com diploma universitário, pela primeira vez na história, e quase dobrou seu apoio entre os 10% mais ricos. Com o descolamento operário, Greenberg chamou essa mudança de “colapso de classe” (class collapse). Embora o Trabalhismo tenha vencido amplamente, a participação eleitoral caiu acentuadamente nos distritos operários mais tradicionais. A classe trabalhadora começava a se sentir alienada do novo projeto.
Durante o governo, as mensagens abstratas da Terceira Via perderam tração e o eleitorado passou a sentir: o governo neoliberal não entregava melhorias suficientes nos serviços públicos. Na campanha de reeleição de 2005, Tony Blair trouxe Mark Penn (arquirrival de Greenberg nos EUA) para sua equipe. Penn e Greenberg instalaram mesas concorrentes, no quartel-general do partido, gerando uma verdadeira “guerra de pesquisas”.
O Trabalhismo venceu em 2005, mas com a menor fatia do voto popular da história recente e com uma queda de 10 pontos percentuais de apoio na metade inferior da distribuição de renda. Em grupos de foco, registrou-se o surgimento de uma “política de ressentimento”, na classe trabalhadora, quanto à imigração, crime e perda de controle sobre a comunidade, sentindo-se esquecida pelas elites cosmopolitas.
Essa fratura não resolvida pelo New Labour culminou no Brexit, em 2016. Permitiu também a Boris Johnson, em 2019, aplicar um populismo de direita (misturando nacionalismo nos costumes e defesa do National Health Service), para capturar a antiga “muralha vermelha” (red wall) operária do Trabalhismo, impondo uma derrota histórica ao partido.
A política de ressentimento, na classe trabalhadora, é um conceito sociológico e político para descrever o sentimento de frustração, abandono e injustiça percebido por trabalhadores. Eles sentem a perda de seu status econômico, social e cultural. Esse fenômeno é explorado para explicar a guinada de parcelas da classe trabalhadora tradicional em direção a discursos populistas e de direita.
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