O perigo de sufocar a voz dos profetas. Artigo de José Antonio Pagola

Foto: Faruk Tokluoğlu/Unsplash

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02 Outubro 2026

Poderá a Igreja cristã sofrer o mesmo destino do antigo Israel? Poderá ela falhar em corresponder às expectativas de Deus? E se a Igreja não produzir os frutos que Ele espera, que caminhos Deus seguirá para cumprir o Seu plano de salvação?

O artigo é de José Antonio Pagola, teólogo espanhol, publicado por Religión Digital, 28-09-2026.

Eis o artigo.

Quando as tropas romanas destruíram Jerusalém em 70 d.C. e o povo judeu desapareceu como nação, os cristãos interpretaram esse evento trágico sob uma perspectiva terrível. Israel, aquele povo tão amado por Deus, havia falhado em responder ao seu chamado. Seus líderes religiosos haviam matado os profetas que ele enviou; haviam crucificado, por fim, o próprio Filho. Agora, Deus os estava abandonando e permitindo sua destruição: Israel seria substituído pela Igreja cristã.

Foi assim que os primeiros cristãos interpretaram a parábola dos "lavradores assassinos", que Jesus contou aos principais sacerdotes de Israel. Os lavradores encarregados de cultivar a "vinha do Senhor" matam um após o outro os servos que ele envia para colher os frutos. Por fim, matam também o filho do dono, com a intenção de eliminar o herdeiro e ficar com a vinha para si. O dono não tem outra escolha senão matá-los e entregar a vinha a outros lavradores mais fiéis.

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Esta parábola não foi incluída pelos evangelistas para alimentar o orgulho da Igreja, o novo Israel, em contraste com o povo judeu, derrotado por Roma e disperso pelo mundo. A preocupação deles era outra: poderia acontecer à Igreja cristã o mesmo que aconteceu ao antigo Israel? Poderia ela frustrar as expectativas de Deus? E se a Igreja não produzisse os frutos que Ele espera, que caminhos Deus trilharia para realizar Seus planos de salvação?

O perigo é sempre o mesmo. Israel sentia-se seguro: possuía as Sagradas Escrituras; o templo; o culto era escrupulosamente observado; a Lei era pregada; as instituições eram defendidas. Nada de novo parecia necessário. Bastava manter tudo em ordem. Esta é a coisa mais perigosa que pode acontecer a uma religião: que a voz dos profetas seja silenciada e que os sacerdotes, sentindo-se donos da "vinha do Senhor", queiram administrá-la como se fosse sua propriedade.

Este é também o nosso perigo: pensar que a fidelidade da Igreja está garantida por pertencermos à Nova Aliança, sentindo-nos seguros porque possuímos Cristo. Contudo, Deus não é propriedade de ninguém. A sua vinha pertence somente a Ele. E se a Igreja não produzir os frutos que Ele espera, Deus continuará a abrir novos caminhos para a salvação.

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