Uma investigação revela como as dioceses alemãs foram cegadas pelo “sucesso espiritual” de comunidades abusadas

Catedral de Friburgo, Alemanha. | Foto: Wikimedia Commons

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30 Setembro 2026

Um estudo pioneiro conclui que as dioceses de Münster e Osnabrück atrasaram durante anos a proteção das vítimas de abuso espiritual ao se deixarem deslumbrar pelo aparente sucesso pastoral de duas comunidades. 

A reportagem é de Martin Scheuch, publicada por Religión Digital, 30-09-2026.

Uma investigação apresentada na sexta-feira, 25 de setembro, em Münster revela que as dioceses de Münster e Osnabrück se deixaram cegar pelo "fruto espiritual" e pelo elevado número de vocações de certas comunidades religiosas. Segundo o portal católico alemão katholisch.de, essa atitude minimizou as denúncias e atrasou medidas efetivas de proteção diante do abuso espiritual, um fenômeno menos conhecido que o abuso sexual, mas igualmente grave.

A investigação, intitulada Macht durch Charisma ("Poder através do carisma") e dirigida pela pedagoga da religião Judith Könemann, da Universidade de Münster, analisa pela primeira vez de forma sistemática o abuso espiritual dentro de comunidades católicas. Concentra-se em dois grupos: "Totus Tuus Neuevangelisierung", surgido na diocese de Münster nos anos 1990 e reconhecido oficialmente em 2007, e a "Christusgemeinschaft", vinculada às franciscanas de Thuine e ativa na diocese de Osnabrück.

Atitudes ambivalentes dos bispos

Os pesquisadores, que basearam seu trabalho de mais de 600 páginas em 117 entrevistas (81 delas com vítimas) e em arquivos diocesanos, concluem que as autoridades eclesiásticas agiram com cautela excessiva. Em Münster, o então bispo Felix Genn mostrou a princípio desinteresse diante dos alertas sobre o "Totus Tuus", embora mais tarde tenha agido com mais firmeza, e a comunidade foi proibida em 2021. Em Osnabrück, o bispo Franz-Josef Bode manteve uma "atitude altamente ambivalente" em relação à "Christusgemeinschaft". Impulsionou um processo de diálogo que gerou um desequilíbrio entre o esforço e os resultados, e adiou qualquer decisão clara. Chegou até a conferir a ordenação sacerdotal a uma dezena de candidatos próximos ao grupo, o que os pesquisadores descrevem como uma "estratégia de abraço" fracassada. A diocese respondia às críticas com adiamentos e promessas vagas.

O que é o abuso espiritual?

O estudo define o abuso espiritual como a interferência ilegítima e guiada por interesses de poder na vida espiritual de outra pessoa. Consiste em exercer controle sobre a consciência e o interior do indivíduo por meio de uma doutrina ou espiritualidade concreta, muitas vezes convidando a uma "abertura" total que desemboca na renúncia a si mesmo. Exerce-se por meio da pressão, da humilhação, da retirada do afeto, da ruptura de contatos e de outras formas de coerção. Em muitos casos afeta também aspectos cotidianos como a roupa ou a sexualidade das mulheres membros. A teologia é frequentemente instrumentalizada: conceitos como obediência, humildade ou entrega se transformam em ferramentas de controle. Os pesquisadores assinalam ainda que certas ideias tradicionais podem conter um potencial de vulnerabilidade que facilita esses abusos.

O trabalho não oferece números, já que esse não era seu objetivo. Apresenta, sim, recomendações preventivas inspiradas nas medidas contra o abuso sexual: conceitos de proteção institucionais, pessoas de contato especializadas, visitações periódicas e reais (não apenas de fachada) às comunidades, padrões de qualidade no acompanhamento espiritual e a necessidade de tipificar o abuso espiritual como delito tanto no direito civil quanto no canônico. "As comunidades espirituais não são lugares idílicos nem espaços seguros", ressaltou Könemann. "Qualquer comunidade, inclusive as espirituais, está sujeita a abusos de poder".

A investigação foi encomendada e financiada pelas dioceses de Münster e Osnabrück, pela Conferência Episcopal Alemã e pelas franciscanas de Thuine. As instituições que encomendaram o estudo declararam que reconhecem o sofrimento das vítimas e que ele lhes trará pistas importantes para evitar novos casos. Poderão se pronunciar oficialmente a partir de 5 de outubro.

Os riscos dos próprios processos de esclarecimento

No mesmo dia foi apresentada em Bonn outra investigação que oferece um olhar complementar, também divulgada pelo katholisch.de. Não se concentra nos abusos em si, mas em como é conduzido o processo de esclarecimento e reparação (a chamada Aufarbeitung). O Instituto de Pesquisa Prática e Assessoria de Projetos (IPP), de Munique, analisou o longo caminho percorrido pela antiga província noroeste dos redentoristas desde 2010. Foi um dos primeiros casos em que uma instituição católica alemã agiu com relativa rapidez: buscou e conectou vítimas, manteve conversas e divulgou informações de forma mais aberta do que outras entidades eclesiásticas da época.

No entanto, o balanço é ambivalente. A criação de redes ajudou muitas pessoas afetadas a situar suas experiências e recuperar certa capacidade de ação. Ao mesmo tempo, conflitos intensos — especialmente em torno do colégio Collegium Josephinum, de Bonn — provocaram novas feridas, esgotamento e resignação. Um dos problemas centrais, segundo os pesquisadores, foi a falta de objetivos claros e compartilhados sobre o que exatamente o processo deveria alcançar. Constatou-se também certa marginalização das vítimas mulheres e uma retirada progressiva e cautelosa da direção da ordem após o impulso inicial de 2010-2011.

Os especialistas recomendam, para futuros processos de esclarecimento, metas e responsabilidades bem definidas, mecanismos de gestão de conflitos, um horizonte temporal claro e que a reparação não dependa do compromisso de pessoas específicas, mas esteja institucionalmente ancorada e dotada de recursos suficientes.

Ambos os trabalhos, apresentados em 25 de setembro de 2026 e divulgados pelo veículo alemão katholisch.de, ilustram a complexidade do fenômeno dos abusos no âmbito católico alemão: não se trata apenas de atos individuais, mas de estruturas de poder, de ilusões sobre o "sucesso pastoral" e dos próprios mecanismos de reparação, que podem aliviar ou, em algumas ocasiões, agravar o sofrimento das vítimas.

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