30 Setembro 2026
Para especialistas, trata-se menos de segurança do que de uma estratégia norte-americana de recuperar influência e conter a crescente presença econômica chinesa na América Latina.
A reportagem é de Marcelo Menna Barreto, publicada por Extra Classe, 29-09-2026.
A criação de uma coalizão continental que – sob a liderança dos Estados Unidos – avança do combate ao narcotráfico para áreas como defesa, minerais estratégicos e infraestrutura digital coloca a soberania dos países da região em debate. Para especialistas, a chamada Escudo das Américas representa um novo patamar de alinhamento regional a Washington, e uma eventual adesão do Brasil poderia ampliar a influência norte-americana sobre decisões de segurança e interesses econômicos nacionais. A preocupação alcança setores militares brasileiros.
Lançado pelo presidente Donald Trump em março, o Escudo das Américas reúne, além dos Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Trinidad e Tobago.
Em 22 de setembro, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, os 15 países divulgaram uma "Declaração Conjunta sobre a Defesa da Soberania Hemisférica".
O documento estabelece três pilares: economia, segurança e coordenação multilateral. Na área econômica, prevê mecanismos de análise de investimentos, proteção das cadeias de suprimento de minerais críticos e normas para fornecedores considerados confiáveis de infraestrutura digital.
Na segurança, compromete os integrantes a atuar conjuntamente contra organizações classificadas como "narcoterroristas".
Entre 24 organizações criminosas listadas pelos integrantes da iniciativa de Trump, estão duas brasileiras: o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Mesmo não fazendo parte do Escudo das Américas, a inclusão de duas facções entre as organizações classificadas como "narcoterroristas" coloca o Brasil entre uma das principais frentes de atuação da coalizão.
Esboço de Otan
Professor associado de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), doutor em História Social pela USP e pesquisador de América Latina, Gilberto Maringoni considera que a iniciativa precisa ser compreendida para além do discurso de combate às drogas.
"O Escudo das Américas é uma espécie de esboço de uma Otan continental", compara.
Maringoni ressalva uma diferença fundamental. É que, ao contrário da Organização do Tratado do Atlântico Norte, o Escudo das Américas não se trata de uma aliança militar entre Estados, mas de uma articulação entre governos politicamente alinhados à Casa Branca.
O professor chama atenção especialmente para a possibilidade de a iniciativa avançar no campo militar por meio do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar), firmado em 1947.
O pacto estabelece mecanismos de defesa coletiva no continente e voltou ao centro das discussões com a ofensiva norte-americana contra organizações classificadas como narcoterroristas.
Para Maringoni, uma integração brasileira a uma estrutura desse tipo poderia reduzir a autonomia nacional nas decisões de segurança.
"Você limita a soberania do país na área de segurança", afirma. Na avaliação do professor da UFABC, o emprego da categoria "narcoterrorismo" cria uma dimensão política diferente daquela existente no enfrentamento convencional ao crime organizado e pode servir de fundamento para ampliar a atuação militar dos Estados Unidos na América Latina.
Segurança, China e minerais estratégicos
Na leitura de Maringoni, a segurança é apenas uma dimensão de uma disputa maior. Ele relaciona o Escudo das Américas à estratégia norte-americana de recuperar influência no Hemisfério Ocidental e conter a crescente presença econômica chinesa na América Latina.
"O objetivo maior é tirar a influência chinesa do continente", destaca. Lembra que a presença da China na região se expandiu por meio do comércio, investimentos e participação em projetos de infraestrutura, energia e logística.
A própria declaração da coalizão fornece elementos para essa interpretação. Seu primeiro pilar não é segurança, mas economia. O texto prevê proteção das cadeias de minerais críticos por meio de fontes consideradas "diversificadas e confiáveis" e regras para fornecedores de infraestrutura digital.
A China não é citada no documento. Hoje, porém, domina etapas fundamentais do processamento mundial de diversos minerais estratégicos, enquanto o Brasil reúne reservas importantes de terras raras, além de posições relevantes na produção de nióbio, grafite e lítio.
Maringoni considera que a iniciativa deve ser observada também à luz da disputa comercial entre Washington e Pequim. Ele ressalta uma dificuldade concreta para qualquer tentativa de afastamento brasileiro da China: os Estados Unidos são concorrentes do Brasil em produtos agrícolas e não têm condições de simplesmente substituir a demanda chinesa por commodities brasileiras.
Preocupação entre militares
O cientista político Paulo Ribeiro da Cunha acrescenta uma dimensão pouco visível publicamente ao debate. Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp e livre-docente em Ciência Política da Unesp, no campus de Marília, Cunha se dedica ao estudo das correntes políticas existentes na caserna e das relações entre militares, sociedade e democracia.
Ele afirma ter conhecimento de que a atual movimentação dos Estados Unidos está causando incômodo entre militares brasileiros. Ressalva que não se trata necessariamente de setores identificados com a esquerda.
"Esse incômodo existe", registra. Segundo o pesquisador, a preocupação alcançaria militares de orientação nacionalista e legalista, inclusive conservadores, para os quais a defesa territorial e a autonomia do país permanecem elementos importantes da doutrina militar.
A Amazônia é um dos pontos sensíveis dessa percepção. Cunha observa que o planejamento de defesa brasileiro historicamente considera hipóteses de ameaça externa à região e sustenta que os Estados Unidos, pela capacidade militar e pelos interesses que possuem no continente, não são vistos automaticamente como aliados em todos os cenários.
Para ele, a política de Trump torna mais evidente essa contradição. "O grande irmão não é um irmão, é um espoliador na perspectiva histórica do império", explica.
Cunha considera nova a possibilidade de a defesa da soberania diante da pressão externa alcançar correntes ideologicamente distintas dentro e fora dos quartéis.
O Brasil fora do Escudo
O governo brasileiro paralelamente avalia outra iniciativa regional contra o crime organizado, o Compromisso Regional de Santiago.
A ideia reúne países sul-americanos em torno de cooperação em segurança, inteligência financeira, migração e fronteiras, sem adotar a categoria de "narcoterrorismo".
Para Maringoni, a escolha entre cooperação internacional e transferência de autonomia é justamente a questão central. Ele sustenta que o combate transnacional ao crime organizado não exige que o Brasil subordine suas decisões de segurança à estratégia definida em Washington.
Em sua avaliação, uma futura adesão ao Escudo aprofundaria vínculos que já existem entre instituições militares e policiais brasileiras e norte-americanas e poderia restringir a margem de decisão do país. "A soberania vai ser incorporada" a uma estrutura comandada pelos Estados Unidos, alerta.
Cunha identifica na mesma discussão um ponto capaz de ultrapassar as divisões políticas tradicionais. Segundo ele, soberania e defesa nacional voltaram ao centro do debate justamente quando os Estados Unidos reforçam sua presença política, econômica e militar na América Latina.
Para os dois professores, portanto, o debate colocado pelo Escudo das Américas não se resume a como enfrentar PCC, Comando Vermelho ou o tráfico internacional de drogas. Alcança uma questão anterior: quem estabelece os limites e as prioridades da política de segurança, defesa e exploração de recursos estratégicos do Brasil — o próprio país ou uma coalizão hemisférica liderada por Washington?
Leia mais
- Escudo das Américas: iniciativa de Trump e de 14 países inclui cartel que não existe
- Trump inaugurou seu "Escudo das Américas" com doze chefes de Estado
- O "Escudo das Américas". Artigo de Wagner Sousa
- Como Trump está infiltrando suas forças armadas na América Latina com uma nova coalizão militar contra o narcotráfico
- "Doutrina Donroe" de Trump retoma foco dos EUA nas Américas
- A soberania não está em questão. O debate é sobre qual será a aposta brasileira. Entrevista especial com Wagner Costa Ribeiro
- A Colômbia defende o Escudo das Américas promovido por Trump: “Ele serve para defender as democracias”
- Países latino-americanos seguem EUA com sanções a PCC e CV
- Governo Trump diz que Brasil falhou no combate ao PCC e CV
- O campo democrático e a segurança pública. Desafios e perspectivas. Entrevista especial com Luiz Eduardo Soares e José Cláudio Alves
- Enfrentamento à violência e ao crime organizado está no centro da disputa eleitoral
- Marco Rubio sobre a luta contra o narcotráfico: “Existem vastos territórios no México que são controlados por organizações criminosas”
- Direita tem 'vitória política' após EUA classificarem PCC e CV como grupos terroristas, diz especialista
- Declarar PCC e CV como terroristas é a primeira interferência de Trump nas eleições brasileiras, avalia Maringoni
- Brasil e EUA intensificam combate ao tráfico internacional de PCC e Comando Vermelho
- Designar PCC e CV como ‘terroristas’ impactaria mais economia e política do que facções. Entrevista com Jorge Lasmar
- Por que Brasil não classifica facções como terroristas?
- Como Trump está infiltrando suas forças armadas na América Latina com uma nova coalizão militar contra o narcotráfico
- O duplo padrão dos EUA na luta contra o narcotráfico. Objetivos: as alavancas do poder. Artigo de Roberto Saviano
- Soberania em risco: EUA podem classificar PCC e CV como terroristas; especialistas temem intervenção