30 Setembro 2026
A mensagem de Leão XIV à Unesco, neste contexto internacional, é incômoda porque não oferece soluções fáceis nem prescrições políticas. Oferece algo mais exigente: um apelo a uma mudança de perspectiva.
O artigo é de José Carlos Enríquez Díaz, escritor, publicado por Religión Digital, 29-09-2026.
Eis o artigo.
O discurso de Leão XIV na sede da Unesco não pode ser interpretado como uma simples intervenção diplomática. Trata-se, na realidade, de uma denúncia direta da decadência moral de nossa época. Sob o pretexto de uma reflexão cultural, o Papa apontou para a ferida: a humanidade contemporânea está perdendo o sentido do que significa ser humano, justamente no momento em que ostenta o maior progresso.
A questão que norteia seu discurso — o que significa ser humano — não é um exercício intelectual, mas uma provocação direta. Hoje, testemunhamos um paradoxo perturbador: enquanto atribuímos qualidades humanas às máquinas, negamos dignidade às pessoas reais. A inteligência artificial está sendo elevada quase a uma categoria antropológica, enquanto milhões de seres humanos continuam sendo descartados, ignorados ou explorados. Essa não é uma contradição superficial, mas um sintoma profundo de uma doença cultural mais disseminada: a de uma humanidade que exalta a inteligência das máquinas enquanto, simultaneamente, diminui a dignidade das pessoas reais.
Neste ponto, o Evangelho não deixa margem para ambiguidade. A medida da humanidade não reside na capacidade técnica, mas na resposta à fragilidade do outro. Alimentar, acolher, cuidar. É aí que se decide a verdade do ser humano. Contudo, a cultura dominante parece caminhar na direção oposta: quanto mais vulnerável uma vida, menos valor lhe é reconhecido. Estabelece-se, assim, uma lógica perversa em que a dignidade depende da utilidade, da autonomia ou do desempenho.
Por isso, a afirmação do Papa de que a dignidade não depende da capacidade, nem se perde por causa da doença ou do sofrimento, é particularmente incisiva. Essa ideia contrasta com uma mentalidade cada vez mais difundida que classifica as vidas com base em sua "qualidade". O resultado é claro: os mais vulneráveis permanecem à margem do sistema de reconhecimento. Não porque tenham perdido a dignidade, mas porque a sociedade perdeu a capacidade de enxergá-la.
Quando Leão XIV adverte que a vida não é mais entendida como uma dádiva, mas sim considerada uma mercadoria, ele descreve com precisão cirúrgica uma deriva cultural. Tudo pode ser comprado, produzido ou descartado, inclusive a própria vida. E quando isso acontece, não nos deparamos mais com um simples problema ético, mas com uma transformação radical da visão do ser humano.
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Nesse contexto, denunciar a guerra como a mais terrível das atrocidades humanas adquire uma força particular. Não se trata apenas de condenar os conflitos armados, mas de destacar a lógica que os torna possíveis: a desumanização do outro. Quando o adversário deixa de ser reconhecido como pessoa, qualquer violência torna-se justificável. E então a ciência, longe de ser um instrumento de progresso, transforma-se em um instrumento de destruição.
Dessa perspectiva, o diagnóstico do Papa encontra uma ressonância perturbadora nos assuntos internacionais da atualidade, mesmo que ele não aponte o dedo para ninguém em particular. No entanto, é difícil não pensar em certos líderes políticos que transformaram ameaças em método. Donald Trump representa essa tendência de forma particularmente clara: uma maneira de exercer o poder em que a pressão substitui o diálogo, a imposição substitui o acordo e a força substitui a lei.
Quando se fala abertamente em "conquistar" países, quando se levanta a possibilidade de intervir em Cuba como se fosse apenas mais uma peça num tabuleiro de xadrez geopolítico, quando se emitem avisos aos aliados e se desrespeita a soberania das nações, o que está em jogo não é apenas uma estratégia política. É algo mais profundo: a erosão dos princípios fundamentais que sustentam a coexistência internacional.
E o mais preocupante não é apenas a existência dessa linguagem, mas o fato de ela ter começado a se normalizar. Ela é ouvida sem escândalo, interpretada como firmeza, até mesmo como liderança. Mas não há nada de firme ou legítimo nessa ameaça constante. É justamente essa lógica que leva à guerra, que o Papa identificou como a mais terrível das atrocidades humanas.
Porque quando o diálogo é percebido como fraqueza e o consenso como perda de tempo, o que emerge não é a eficácia, mas a lei do mais forte. E então, essa percepção decisiva se confirma mais uma vez: as guerras nascem na mente dos homens. Primeiro como linguagem, depois como justificativa e, finalmente, como tragédia.
Nesse sentido, a crise das organizações internacionais não é apenas institucional, mas profundamente moral. Elas perderam credibilidade porque o espírito que as animava — a busca do bem comum por meio do diálogo — enfraqueceu. E quando isso acontece, as estruturas se tornam vazias. Sem uma ética compartilhada, nenhuma arquitetura internacional consegue se sustentar.
O pano de fundo para tudo isso é uma questão crucial: nem tudo que é possível é legítimo. A humanidade hoje possui instrumentos de poder sem precedentes, tanto tecnológicos quanto militares. Mas carece cada vez mais de critérios sólidos para direcionar esse poder. A inteligência artificial, por mais sofisticada que seja, não consegue responder à questão do significado. E quando essa questão é silenciada, corre-se o risco de que a tecnologia substitua a consciência.
A mensagem de Leão XIV, neste contexto, é incômoda porque não oferece soluções fáceis nem prescrições políticas. Oferece algo mais exigente: um apelo a uma mudança de perspectiva. A redescobrir o valor absoluto de cada pessoa, especialmente a mais frágil. A recuperar a convicção de que a vida não é um objeto descartável, mas uma dádiva que nos precede e nos exige.
Porque, em última análise, a questão não é tecnológica nem geopolítica, mas profundamente humana. Podemos avançar em todas as frentes do conhecimento, podemos aperfeiçoar nossos sistemas, podemos aumentar nossa capacidade de controlar a realidade. Mas se, nesse processo, deixarmos de reconhecer o outro como irmão ou irmã, se aceitarmos a lógica da ameaça como norma, se transformarmos a dignidade em algo negociável, então teremos falhado no essencial.
A questão incômoda e urgente permanece: o que significa ser humano? E a resposta não virá de algoritmos ou equilíbrios de poder, mas de algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais difícil: como escolhemos tratar uns aos outros.
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