Na terceira aula do Ciclo de Estudos "Refugiados e democracia: acolhimento, imunização e justiça", a filósofa italiana Donatella Di Cesare retoma As Suplicantes, de Ésquilo, para pensar a figura do estrangeiro e deslocar a democracia de uma lógica de soberania, identidade e pertencimento para uma política da coabitação.
O artigo é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do IHU.
O que significa habitar um mundo que não nos pertence? E se a democracia não começasse pela definição de quem pertence a uma comunidade, mas pela impossibilidade de decidir previamente com quem iremos compartilhar o mundo? Essas são algumas das questões que atravessaram a terceira aula do Ciclo de Estudos Refugiados e democracia: acolhimento, imunização e justiça, ministrada pela pensadora italiana Donatella Di Cesare em 27 de agosto de 2026, na parceria entre o Instituto Humanitas Unisinos – IHU e o PPG Filosofia Unisinos. Sob o título "Cohabitar. De Las Suplicantes a la democracia an-árquica", a pesquisadora retoma a tragédia As Suplicantes, de Ésquilo, para interrogar uma das questões decisivas da experiência política contemporânea: como pensar a democracia quando aqueles que chegam de fora colocam em questão a própria definição do "dentro"?
A cena antiga torna-se, assim, uma chave para pensar o presente. As mulheres suplicantes chegam a Argos fugindo da violência e dos casamentos forçados. Pedem asilo, reivindicam proteção e exigem que sua situação seja reconhecida como uma questão de justiça. O que está em jogo não é apenas o acolhimento de estrangeiras. É a própria possibilidade de uma comunidade política se deixar interpelar por aqueles que ainda não fazem parte dela.
Em As Suplicantes, Ésquilo apresenta uma situação particularmente significativa: as mulheres que chegam a Argos aparecem simultaneamente como estrangeiras e como figuras que reivindicam uma origem argiva. No contexto dessa obra, a expressão é particularmente importante porque as mulheres suplicantes, chamadas danaides, chegam a Argos reivindicando uma ligação de origem com a própria cidade. Elas se apresentam como descendentes de Io, personagem associada à genealogia de Argos. Há uma tensão deliberada: elas chegam como estrangeiras, mas reivindicam uma ancestralidade/origem ligada a Argos. Essa ambiguidade é central para a reflexão de Di Cesare sobre a fronteira entre estrangeiro e pertencente, entre quem está "fora" e quem pode reivindicar um lugar "dentro". As danaides estão no limiar, dentro e fora. Diante dessa ambiguidade, a questão que se coloca é radical: elas serão acolhidas por serem de algum modo pertencentes à comunidade, ou porque são seres humanos ameaçados pela violência?
A decisão passa pela assembleia. O povo de Argos é chamado a decidir se aquelas mulheres poderão permanecer na cidade. Acolhê-las significa conceder-lhes a condição de residentes estrangeiras, livres e protegidas. A proteção deixa, desse modo, de ser uma questão privada ou meramente moral e passa a constituir uma responsabilidade pública.
É nesse ponto que Di Cesare encontra uma das primeiras pistas para repensar a democracia: não há democracia sem hospitalidade, assim como não há hospitalidade sem democracia. A democracia aparece quando uma comunidade é capaz de responder àquele que chega e cuja presença interrompe a suposta estabilidade de sua identidade.
A figura da estrangeira introduz, portanto, uma questão política. A violência que antes poderia ser considerada pertencente ao âmbito familiar e privado irrompe no espaço público. O corpo das suplicantes torna-se uma demanda por justiça. O estrangeiro não está mais simplesmente diante da cidade: ele coloca a cidade diante de si mesma.
A condição concedida às suplicantes é particularmente importante. Elas são acolhidas como residentes estrangeiras. Não precisam deixar de ser estrangeiras para permanecer.
Aqui aparece uma das questões centrais da aula: a possibilidade de habitar sem que o pertencimento implique a eliminação da diferença.
Di Cesare recupera a figura bíblica do gher, o estrangeiro residente, para pensar uma terceira possibilidade que escapa à oposição tradicional entre cidadão e estrangeiro. Trata-se daquele que reside de maneira estável sem ser autóctone, daquele que habita um lugar sem que sua presença dependa de uma origem fundada no sangue ou no solo.
A residência, nesse sentido, não precisa significar apropriação. Pode haver pertencimento sem propriedade, habitação sem autoctonia, presença sem apagamento da estrangeiridade.
É justamente essa figura que permite à filósofa deslocar o próprio paradigma da democracia. O estrangeiro residente deixa de ser uma categoria marginal, colocada diante de uma comunidade já constituída. Ele passa a ocupar uma posição paradigmática: revela que habitar já é, desde sempre, uma forma de coexistência.
Mas o estrangeiro não é apenas aquele que vem de fora. A questão da estrangeiridade conduz Di Cesare a uma interrogação mais profunda sobre a própria identidade. O sujeito não coincide inteiramente consigo mesmo. Há algo de estranho no sonho, na linguagem, no corpo, no passado. A identidade não constitui uma unidade absolutamente fechada. Há nela uma dimensão de alteridade que impede sua completa coincidência consigo mesma.
A exclusão do estrangeiro externo e a tentativa de eliminar a estranheza interna aparecem, assim, relacionadas. A comunidade que deseja apresentar-se como plenamente homogênea pode reproduzir, no plano político, a fantasia de um sujeito soberano, íntegro e autossuficiente.
É nesse horizonte que Di Cesare aproxima o novo soberanismo de uma dupla pretensão de integridade: a do sujeito soberano e a da nação soberana. Em ambos os casos, a alteridade aparece como ameaça à própria integridade. O problema é que não existe simplesmente "o estrangeiro". Há sempre alguém estrangeiro para alguém, dentro de uma relação histórica, política e linguística concreta. Falar dos estrangeiros como uma massa homogênea pode apagar justamente aquilo que caracteriza cada trajetória: sua singularidade.
É nesse ponto que a migração adquire uma dimensão política que ultrapassa a questão da inclusão. Para Di Cesare, o estrangeiro residente não deve ser pensado apenas como alguém que precisa ser integrado a uma comunidade previamente constituída. Sua presença pode transformar a própria compreensão da comunidade.
A migração desloca a fronteira entre dentro e fora. Ela interroga a ideia de uma origem pura, de uma identidade plenamente constituída e de uma cidadania fundada exclusivamente no nascimento. Mais do que uma questão de tolerância ou reconhecimento de uma minoria, a presença migrante pode atingir as próprias raízes da democracia.
Há, então, uma inversão decisiva: não é apenas a comunidade que acolhe o estrangeiro. É o estrangeiro que obriga a comunidade a reconhecer a estrangeiridade que já a atravessa. Quem hoje acolhe pode amanhã ser estrangeiro. Quem hoje se considera pertencente pode descobrir-se, em outra circunstância, diante de uma fronteira. A presença do estrangeiro impede que a comunidade se feche sobre uma identidade considerada definitiva.
Então, a reflexão de Di Cesare desloca o eixo da hospitalidade para a coabitação. A questão não é simplesmente saber como receber o outro. A hospitalidade, observa a filósofa, encontra-se diante de uma crise que também é uma crise política. Fronteiras, campos de refugiados e tecnologias de controle podem produzir uma distância que permite aos cidadãos não verem a violência implicada na exclusão.
Por isso, é preciso pensar conjuntamente hospitalidade e cidadania. O estrangeiro não deveria entrar no espaço político apenas como alguém que recebe uma concessão, mas como alguém cuja presença coloca em questão os próprios critérios pelos quais se define quem pode participar desse espaço. A palavra decisiva passa a ser coabitar.
Coabitar não significa simplesmente viver ao lado de alguém. Tampouco significa escolher com quem conviver. A coabitação é anterior à escolha. É uma condição da existência política.
A partir daí, Di Cesare desloca a reflexão para a própria ideia de habitar. Na Modernidade, habitar tornou-se profundamente associado à posse. Ter uma casa, um endereço, um território. A própria história semântica do habitar mostra essa aproximação entre permanecer e ter, entre residência e propriedade. Mas a casa não é apenas um espaço que alguém possui. Habitar é uma relação. É uma forma de estar no mundo e de coexistir com outros.
Essa transformação semântica ajuda a compreender também a passagem da casa para a cidade e da cidade para a nação. A nação pode ser imaginada como uma grande família; os cidadãos, como seus filhos legítimos; a pátria, como terra dos pais; o território, como herança.
É nesse ponto que uma determinada lógica de pertencimento pode transformar a permanência em título de propriedade. O nascimento passa a funcionar como fundamento da pertença e a migração aparece como exceção. A pergunta que emerge é incômoda: quem nos autorizou a transformar o lugar em propriedade e a permanência em direito exclusivo?
Di Cesare recorre aqui a Hannah Arendt para radicalizar a questão. Ninguém escolhe seus pais, sua língua, sua geração ou o mundo no qual nasce. Antes de qualquer escolha, já estamos expostos aos outros. Por isso, a coabitação não começa com um contrato entre indivíduos isolados. Ela precede o contrato, a cidadania e a própria identidade.
Não escolhemos todas as pessoas com quem compartilhamos as ruas, a língua, os serviços, o ar, o território. Não escolhemos aqueles com quem dividimos o planeta. A política, nesse sentido, começa a partir de uma condição que não escolhemos.
Isso também coloca um limite à pretensão soberana de um povo decidir quem pode habitar determinado território. Tal decisão pressupõe que o território já pertença originalmente àqueles que decidem. Mas nenhuma geração ocupa um lugar como seu proprietário absoluto. Antes dela houve outros; depois dela haverá outros. A terra não começa conosco.
É justamente contra a transformação da comunidade em uma fortaleza que Di Cesare introduz a noção de imunização. A lógica imunitária nasce no campo médico, mas pode ser transposta para o político: proteger o organismo contra aquilo que é percebido como estranho. Quando essa lógica se torna princípio de governo, o estrangeiro pode ser associado à insegurança, à doença, à desordem, ao terrorismo ou à criminalidade. A política passa, então, a identificar ameaças, controlar populações, selecionar acessos e erguer barreiras.
A experiência da pandemia tornou particularmente visível a linguagem da distância, do isolamento, do confinamento e da proteção. Mas, para Di Cesare, essa lógica não começa com a pandemia. Ela já atravessava a maneira como as fronteiras contemporâneas são organizadas. Muros, drones, satélites, biometria, inteligência artificial e centros de detenção integram uma arquitetura tecnológica de seleção e exclusão. A proteção pode acabar restringindo aquilo mesmo que deveria proteger: a vida em comum.
Quando a proteção se transforma em princípio absoluto, o medo passa a substituir a confiança, o risco converte-se em critério de governo e o estrangeiro tende a aparecer antes de tudo como perigo. A comunidade imunizada é aquela que procura proteger-se tanto da alteridade que acaba empobrecendo a própria possibilidade de vida comum.
É nesse percurso que a aula chega à expressão democracia an-árquica. A democracia costuma ser compreendida a partir da soberania de um povo sobre um território. Mas o que acontece se o povo não for uma comunidade homogênea e fechada? Se a estrangeiridade já estiver presente em sua constituição? Se a coabitação preceder qualquer decisão? Nesse caso, o demos não pode ser pensado como uma substância compacta, fundada no sangue, na origem ou no território. A democracia não seria simplesmente o poder de um povo já constituído sobre si mesmo.
Di Cesare chama atenção para a diferença entre kratos e arché. A democracia contém a ideia de exercício de uma força política, mas não precisa fazer dessa força um princípio soberano colocado acima de tudo. A democracia an-árquica não significa ausência de instituições, leis ou ordem. Significa suspender a pretensão de um princípio soberano último que pudesse encerrar definitivamente a questão de quem pertence, quem pode entrar e quem pode permanecer. Sua força estaria justamente em não absolutizar nenhum fundamento.
Ao retornar a As Suplicantes, Di Cesare encontra novamente a imagem que abre sua reflexão: a mão do povo que se levanta diante das estrangeiras. A democracia aparece ali não como defesa de uma identidade previamente constituída, mas como resposta àqueles que chegam e questionam a comunidade. É uma imagem política de grande alcance: a democracia não começa quando a comunidade confirma quem ela é. Ela começa quando aceita ser interrogada por aqueles que ainda não fazem parte dela.
Nesse sentido, o estrangeiro não é uma figura periférica da democracia. Ele revela algo que a democracia frequentemente procura esquecer: ninguém possui originalmente o lugar que habita. A comunidade não é uma propriedade. O território não é uma herança absoluta. A identidade não coincide plenamente consigo mesma. A coabitação não é uma escolha posterior à existência política. Ela é sua condição.
Talvez seja essa a provocação fundamental da terceira aula de Donatella Di Cesare: antes de perguntarmos quem tem o direito de estar aqui, seria preciso reconhecer que já estamos aqui uns com os outros. E isso modifica profundamente a pergunta política. Não se trata apenas de saber quem acolher, quem integrar ou quem proteger. Trata-se de compreender como construir instituições capazes de sustentar uma vida comum entre aqueles que não escolheram uns aos outros. A democracia, então, deixa de ser apenas uma forma de governo. Torna-se uma maneira de coabitar um mundo que não pertence inteiramente a ninguém.
Donatella Di Cesare é filósofa, ensaísta e colunista italiana que leciona Filosofia Teorética na Università di Roma "La Sapienza". É uma das pensadoras mais influentes no debate público italiano e internacional, seja acadêmico, seja midiático. Colabora em vários jornais e revistas, incluindo L'Espresso e il Manifesto. Seus livros e ensaios são traduzidos mundialmente, dentre os quais destacamos: O complô no poder (Aynè, 2022), Vírus soberano? A asfixia capitalista (Aynè, 2020), Estrangeiros residentes: uma filosofia da migração (Âyiné, 2020), Terror e modernidade (Aynè, 2019) e o mais recente Tecnofascismo (Einaudi, 2025).
Profa. Dra. Donatella Di Cesare – Sapienza Università di Roma – Itália
Profa. Dra. Donatella Di Cesare – Sapienza Università di Roma – Itália