18 Setembro 2026
O RS tem problemas de verdade para enfrentar, e o envelhecimento da população é um deles. E estar sendo roubado por Brasília não é um deles.
O artigo é de Pietro Vicari, publicado por Jornal GGN, 17-09-2026.
Pietro Vicari é mestre em economia pela UFRGS. Economista na Bancada do Partido dos Trabalhadores na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul.
Eis o artigo.
O deputado federal Marcel van Hattem (Novo-RS), candidato ao Senado, repete na campanha uma frase de efeito: de cada R$ 100 que o Rio Grande do Sul manda para Brasília, só R$ 19 voltariam. A ideia é apresentada como prova de que o Estado é sugado pela União, que banca o resto do país e recebe migalhas em troca. É uma boa frase de efeito. O problema é que ela está errada, e o modo como está errada diz muito sobre quem a usa.
De onde vem o “R$ 19”
O número não foi inventado, o que é pior: é uma meia-verdade. Ele nasce de uma conta que compara tudo o que a Receita Federal arrecada no Estado com quase nada do que a União devolve. No que se chama de “retorno” entram apenas as transferências constitucionais para o governo estadual e as prefeituras, como o Fundo de Participação dos Estados, o dos Municípios, os royalties e o salário-educação. Coisa de uns vinte bilhões de reais.
E é só isso que a conta enxerga. Fica de fora tudo o mais que a União gasta aqui dentro: as aposentadorias e pensões do INSS pagas a mais de dois milhões de gaúchos, o Bolsa Família, o BPC, o seguro-desemprego, o Pé-de-Meia, o Seguro Defeso, as universidades e os institutos federais, os hospitais federais, os salários dos servidores da União que moram e gastam no Estado, as obras federais.
Ou seja, o “R$ 19” só chega a um número tão baixo porque ignora quase tudo o que a União de fato gasta dentro do Rio Grande do Sul. É como avaliar quanto uma pessoa ganha olhando para uma única linha do contracheque e esquecendo o salário inteiro. Colocada na conta a renda toda, o número muda de figura.
O que de fato volta ao Estado
Feita a conta como deve ser feita, o resultado se inverte. Em 2025, a Receita arrecadou cerca de R$ 108 bilhões no Rio Grande do Sul. E a União devolveu ao Estado, somando todas as formas de gasto federal aqui dentro, cerca de R$ 128 bilhões. Ou seja: de cada R$ 100 que saem do RS para Brasília, voltam R$ 118. O Estado recebe mais do que paga. Longe de ser prejudicado, é, na conta líquida, beneficiário.
E não é caso isolado. Quando se faz a mesma conta para os 27 estados, apenas seis são financiadores líquidos da federação, isto é, colocam mais do que tiram: São Paulo, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Espírito Santo e Paraná. Só esses seis. Os outros vinte e um, o Rio Grande do Sul incluído, recebem mais do que contribuem.
O gráfico apresenta o saldo líquido do pacto federativo brasileiro em bilhões de reais, detalhando quais estados enviam mais recursos do que recebem de volta (barras vermelhas) e quais recebem mais do que arrecadam para a União (barras verdes). (Foto: Jornal GGN/Reprodução)
Quem de fato sustenta o país é São Paulo, que sozinho põe quase R$ 600 bilhões a mais do que recebe, resultado da força da economia paulista e não de um truque de contabilidade. O segundo colocado é o Distrito Federal, mas aí a conta engana: Brasília concentra as sedes de bancos e empresas que arrecadam em nome do Brasil inteiro. Depois deles vêm o Rio de Janeiro, Santa Catarina, o Espírito Santo e o Paraná, já com folga pequena.
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O Rio Grande do Sul não aparece nessa lista. Aparece no meio do pelotão dos que recebem, ao lado de Minas Gerais, na 16ª posição entre 27 estados. A tese de que o gaúcho carrega o país nas costas simplesmente não sobrevive aos números.
O Rio Grande do Sul está envelhecendo
Aqui a história fica mais interessante, e mais desconfortável, inclusive para quem quer defender o Estado.
Nem sempre foi assim. Se voltarmos a 2014 e refizermos a conta ano a ano, o Rio Grande do Sul aparecia abaixo da linha, devolvia-se ao Estado um pouco menos do que dele se arrecadava. Ao longo da última década essa relação foi subindo devagar, cruzou o ponto de equilíbrio por volta de meados dos anos 2010 e, nos anos mais recentes, firmou-se do lado de quem recebe.
O Estado não passou a receber mais porque começou a pagar menos imposto. Passou por uma razão bem concreta, e ela tem a ver com quem somos: o Rio Grande do Sul está envelhecendo, e mais rápido do que qualquer outro estado do país.
Os números da demografia são impressionantes. Em pouco mais de vinte anos, a proporção de idosos entre os gaúchos praticamente dobrou, e hoje uma em cada cinco pessoas do Estado tem 60 anos ou mais, a maior fatia do Brasil. Porto Alegre é a capital mais envelhecida do país, já com mais idosos do que crianças e adolescentes. A idade média do gaúcho é a mais alta entre todos os estados. Nascem menos crianças a cada ano, e a população do Estado, que atinge seu pico agora, deve começar a encolher já nos próximos anos. É uma mudança silenciosa e profunda na cara do Rio Grande do Sul.
Essa realidade aparece de forma direta na conta da Previdência. Um estado com muitos aposentados recebe muitas aposentadorias, e é isso que puxa o retorno para cima. Em 2025, os gaúchos pagaram cerca de R$31 bilhões em contribuições previdenciárias e receberam cerca de R$68 bilhões em aposentadorias e pensões. Para cada R$1 que entra em contribuição, saem mais de R$2 em benefício. E essa distância só aumenta: em 2014 era de R$1,30 para cada R$1, e chegou a mais de R$2 hoje. O dinheiro que paga essas aposentadorias vem do caixa nacional, alimentado pela contribuição de todos os estados, mais jovens e com mais gente trabalhando.
Gráfico revela a evolução da relação entre contribuição e benefício previdenciário do Rio Grande do Sul entre os anos de 2014 e 2025. (Foto: Jornal GGN/Reprodução)
Ou seja, o que a conta registra como “benefício líquido” não é privilégio nem generosidade de Brasília. É o retrato de uma população que envelhece depressa e que, por isso mesmo, depende cada vez mais das aposentadorias para manter a renda circulando pela economia gaúcha. O Rio Grande do Sul recebe mais do que paga porque tem muito mais gente aposentada do que a média do país, e essa é uma tendência que só se aprofunda.
Vale um registro: essa conta nem inclui os recursos extraordinários ligados à pandemia e à enchente de 2024, como o Auxílio Emergencial, o Auxílio Reconstrução, o FUNRIGS e o FIRECE. Se entrassem, o Estado apareceria recebendo ainda mais. O recorte foi conservador de propósito, e mesmo assim o “R$19 a cada R$100” não se sustenta.
O que está em jogo
Repetir que o RS só recebe R$19 a cada R$100 é ficar com a metade da verdade que confirma a conclusão desejada e esconder a outra metade. É transformar um problema real, o envelhecimento e a perda de dinamismo da economia gaúcha, numa fábula de vítima, em que a culpa é sempre de Brasília e a saída é sempre menos país, menos federação, menos redistribuição.
O Rio Grande do Sul tem problemas de verdade para enfrentar, e o envelhecimento acelerado da sua população é um dos maiores. Mas o de estar sendo roubado por Brasília não é um deles. Van Hattem ou não fez as contas, ou fez e preferiu não contar o resto.
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