"Igualdade? Apenas uma ilusão" A chegada dos soberanos tecnológicos. Artigo de Vittorio Pelligra

Elon Musk e Donald Trump. (Foto: Daniel Torok/The White House/Flickr)

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18 Setembro 2026

"Parte da nova direita global não nasce apenas em oposição ao liberalismo de mercado, também nasce de dentro de sua história, ainda que como uma descendência ilegítima. É preciso cautela aqui. O neoliberalismo é muitas vezes descrito como uma trajetória linear que vai de Hayek e Friedman, passando pela atuação política de Thatcher e Reagan e pela onda de desregulamentação global e chega hoje aos bilionários libertários do Vale do Silício. É uma genealogia convincente, porém simplista", escreve Vittorio Pelligra, professor de economia na Università di Cagliari, em artigo publicado por Avvenire, 15-09-2026.

Eis o artigo.

Em As Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt observava que, quando a guerra, a inflação e o desemprego dissolvem os laços sociais tradicionais, as pessoas tornam-se mais sensíveis ao fascínio de movimentos que oferecem uma visão de mundo totalizante. Uma única premissa, uma única causa do mal, um único caminho para a salvação. Não é preciso forçar a comparação com o presente para reconhecer até que ponto continua sendo inquietante essa intuição. Hoje, também, uma ordem que está se esfacelando deixa cidadãos desorientados, que pararam de acreditar nas promessas de ontem e estão mais abertos a ouvir novas promessas. Um vazio político, contudo, raramente permanece vazio, mais cedo ou mais tarde, é ocupado. É no espaço deixado em aberto pelo fracasso de promessas passadas que ganham forma projetos ambiciosos e inquietantes. Projetos que aguardavam às margens o momento em que as condições históricas os tornariam apresentáveis e até mesmo desejáveis.

É dentro desse vazio que deve ser colocada a chegada das monarquias tecnológicas do nosso tempo. A ideia de que a democracia é lenta e conflituosa demais, e de que apenas um poder concentrado e vertical, semelhante ao de um CEO, possa enfrentar o período de emergência permanente. Trata-se de uma resposta distorcida, porém poderosa, à dificuldade que as democracias enfrentam para prometer um futuro próspero e seguro. Não se trata apenas de um retorno a um autoritarismo arcaico, a situação é mais ambígua.

Parte da nova direita global não nasce apenas em oposição ao liberalismo de mercado, também nasce de dentro de sua história, ainda que como uma descendência ilegítima. É preciso cautela aqui. O neoliberalismo é muitas vezes descrito como uma trajetória linear que vai de Hayek e Friedman, passando pela atuação política de Thatcher e Reagan e pela onda de desregulamentação global e chega hoje aos bilionários libertários do Vale do Silício. É uma genealogia convincente, porém simplista. Corre-se o risco de atribuir a Hayek ideias que, na verdade, pertencem a algumas radicalizações posteriores de seu pensamento. Hayek não é o pai da monarquia tecnológica. Sua preocupação dizia respeito à concentração do poder político e à ilusão de que uma sociedade complexa poderia ser governada racionalmente por um planejador central. Para ele, o mercado não era apenas uma garantia de eficiência: era um limite epistêmico à arrogância do poder.

O problema, dessa forma, não é transformar Hayek no bode expiatório, mas entender o que acontece quando algumas de suas intuições são desvinculadas do contexto liberal-constitucional e entregues a sucessores mais atraídos pela saída do que pelo limite. Em Hayek, a falta de confiança em relação à democracia permanece dentro do constitucionalismo liberal. Entre seus descendentes radicais, essa falta de confiança transforma-se em suspeita contra a própria cidadania. Em Hayek’s Bastards: Race, Gold, IQ, and the Capitalism of the Far Right (Zone Books, 2025), Quinn Slobodian oferece uma chave de leitura valiosa, justamente por não reduzir essa história a uma sucessão linear.

Os "bastardos de Hayek" não são herdeiros fiéis, são filhos ilegítimos. Do mestre adotam o vocabulário da evolução, da tradição, da ordem espontânea, da crítica à justiça social, mas o curvam para uma direção que Hayek provavelmente teria visto com desconfiança. Slobodian chama-os de "bastardos" porque sucumbem justamente aos erros que o próprio Hayek havia denunciado: o "cientificismo" e a "pretensão de conhecimento". Esse "novo fusionismo" não se baseia mais na antiga aliança entre libertarismo econômico e conservadorismo religioso, mas sim em uma fusão entre mercado e natureza.

O mercado deixa de ser justificado apenas pela eficiência, é apresentado como o revelador de diferenças profundas. Se alguns prosperam enquanto outros ficam para trás, as causas não são as instituições, a história, o poder ou a sorte. Em vez disso, a explicação reside em diferenças naturais profundas, que só podem ser reconhecidas e aceitas. É aqui que a promessa igualitária da democracia é atingida em seu coração. É esvaziada em sua origem, afirmando que a igualdade é um erro antropológico. Alguns seriam mais aptos ao mercado, mais disciplinados, mais preparados para a liberdade, enquanto outros seriam dependentes, portadores de desordem e ineficiência.

A desigualdade, dessa forma, deixa de parecer um problema a ser corrigido e passa a ser uma verdade a ser reconhecida. O novo fusionismo não rejeita a globalização, simplesmente a torna seletiva. Capital, mercadorias, plataformas, lucros, dados e direitos de propriedade devem continuar a circular. O que são barradas, em contrapartida, são algumas pessoas. Não o mercado mundial, mas sim sua promessa universalista. A globalização torna-se, assim, hierárquica: abre-se para o alto, ao mesmo tempo que se fecha na base. É nesse cenário que os monarcas da tecnologia adquirem poder. Eles encontram um terreno preparado por décadas de desconfiança em relação à mediação democrática.

Quando Peter Thiel escreve que já não acredita na compatibilidade entre liberdade e democracia dá voz a uma tentação de maior envergadura: libertar o poder econômico da morosidade dos muitos. Elon Musk oferece uma versão diferente, porém convergente disso: o fundador como soberano operacional, a empresa como jurisdição e a plataforma como campo de ação. A monarquia tecnológica não abole a democracia por meio de um golpe de Estado; a esvazia por substituição. Onde antes havia deliberação, direitos e soberania pública, agora são introduzidos painéis de controle, usuários, termos de serviço e infraestruturas proprietárias. O poder não se apresenta mais com a cara antiga do tirano. Apresenta-se como eficiência, inovação e a indefectível promessa de segurança.

Esse é o ponto de chegada: não o fim da democracia, mas sua lenta substituição por formas de soberania proprietária. A monarquia do medo nasce aqui, precisamente no ponto em que a igualdade deixa de ser uma promessa não cumprida e se torna uma ilusão a ser corrigida; no ponto onde a insegurança coletiva torna desejável não apenas o homem forte, mas o comando privado de um soberano eficiente. É aqui que o vazio político de que falava Arendt é ocupado por um novo poder que se apresenta como necessidade técnica e destino natural.

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