18 Setembro 2026
"O calor abrasador, os incêndios devastadores e as inundações mortais deste verão do hemisfério norte são um alerta para o que está por vir. Devemos garantir que a ultrapassagem do limite de 1,5 grau seja a mais contida e breve possível. Isso exige um passo à frente em termos de ambição." As palavras do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, não deixam margem para dúvidas após a publicação, no início de setembro, do relatório do Pnuma “Limiting Overshoot” (Limitar a ultrapassagem).
A reportagem é de Lorena Crisafulli, publicada por L’Osservatore Romano, 14-09-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
O objetivo de limitar a ultrapassagem do limiar de aquecimento global, fixado em 1,5 grau pelo Acordo de Paris, não será respeitado. No cenário mais otimista, o pico de aumento da temperatura chegará a 1,8°C acima dos níveis pré-industriais, enquanto a maioria dos outros cenários prevê picos ainda mais elevados. Apesar disso, o Pnuma pede aos países que sejam tomadas medidas concretas, elaborando e adotando políticas de mitigação adequadas, evitando a resignação como álibi para justificar o descomprometimento. O documento destaca que, como as temperaturas globais estão prestes a ultrapassar o limite, elevando os riscos e impactos climáticos a níveis de periculosidade sem precedentes, "o mundo deve empenhar-se a retornar abaixo desse limiar o mais rápido possível, reduzindo simultaneamente a vulnerabilidade de sociedades, comunidades e economias aos impactos climáticos".
O relatório aponta uma trajetória de "ultrapassagem, pico e subsequente redução " como a opção restante para limitar a magnitude e a duração dessa violação e tentar retornar a níveis abaixo de 1,5°C o mais rápido possível.
As principais consequências do aquecimento global - riscos e impactos aumentarão a cada fração de grau e com o passar dos anos – incluem: a intensificação de eventos meteorológicos extremos, a perda de ecossistemas e a submersão de pequenos Estados insulares em via de desenvolvimento e de cidades costeiras situadas em áreas de baixa altitude. Também se preveem danos adicionais à saúde humana, à segurança alimentar, aos recursos hídricos, à natureza, às cidades, às infraestruturas e às economias. "Em todo o mundo, ondas de calor extremas já demonstram que os impactos climáticos se manifestarão mais rapidamente, atingirão com maior violência e durarão mais tempo, causando uma maior perda de vidas humanas e perturbações mais profundas", explicou Inger Andersen, diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). "Chegou a hora de intensificar a ação em prol do clima. Podemos e devemos seguir o caminho certo: reduzindo as emissões de gases de efeito estufa, fortalecendo a resiliência e a adaptação e garantindo que a eventual ultrapassagem do limite de 1,5°C seja a mais contida e breve possível."
O tratado internacional assinado em Paris, na COP21, em 2015, que entrou em vigor no ano seguinte e foi ratificado por todos os países da UE, nascia justamente com o objetivo de limitar as emissões de gases de efeito estufa, reduzir o aquecimento global e combater as mudanças climáticas. No entanto, algo deu errado: os níveis de concentração de CO2 continuaram a subir, assim como a temperatura do planeta.
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Para piorar, um "super El Niño" agravou ainda mais a situação climática geral, contribuindo para desencadear e prolongar eventos climáticos extremos. Dados recentes da Organização Meteorológica Mundial (OMM), a agência da ONU para o clima, indicam uma "probabilidade excepcionalmente alta, próxima de 100%", de que esse fenômeno periódico de aquecimento no sudeste do Pacífico tropical persista até fevereiro de 2027: as temperaturas da superfície do mar poderiam ficar, em média, até cerca de 3,6°C acima do normal. "O El Niño está assumindo proporções gigantescas. O planeta está navegando em águas desconhecidas. As temperaturas continuam subindo e o mundo está na zona de perigo das condições meteorológicas extremas", afirmou Guterres com preocupação.
O oceano desempenha uma importante função termorreguladora ao absorver, armazenar e redistribuir calor lentamente, e se uma área oceânica tão vasta sofrer superaquecimento, a atmosfera inevitavelmente sente o impacto. "Nunca antes, nos 50 anos de história da OMM, lançamos uma mobilização dessa envergadura com os serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais, que estão na linha de frente do fornecimento de previsões e serviços para salvar vidas e meios de subsistência. Não há tempo a perder", denunciou Celeste Saulo, Secretária-Geral da Organização Meteorológica Mundial, acrescentando que essa situação terá repercussões "devastadoras" também sobre as comunidades e as economias de todo o mundo.
Como destaca o relatório do Pnuma, a probabilidade de ultrapassar pontos de não retorno irreversíveis aumenta a cada dia com a intensificação e o prolongamento das altas temperaturas. Entre esses pontos, são motivo de especial preocupação a desestabilização das principais calotas de gelo, a degradação da Floresta Amazônica e a interrupção da circulação termohalina do Atlântico, ou seja, aquele "sistema de correntes que transporta as águas superficiais quentes para o norte e as águas profundas frias para o sul", desempenhando um papel fundamental na termorregulação do clima. Alguns impactos tenderão a se acumular ao longo do tempo, enquanto outros poderão manifestar-se de forma abrupta e repentina.
O relatório observa que o atraso na adoção de medidas eficazes em nível global já levou a consequências difíceis de reverter: mesmo que o aumento da temperatura média global fosse limitado a 1,5°C, alguns ecossistemas e regiões ainda teriam que sofrer alterações duradouras. O desafio é complexo e exige a criação de formas de governança mais participativas e inclusivas para enfrentar adequadamente os diversos processos de adaptação para os quais as sociedades e as economias de todo o mundo precisam se preparar. Da velocidade e da intensidade com que as várias intervenções serão implementadas dependerá sua eficácia para conter o aquecimento global, um fenômeno que ameaça agravar cada vez mais a crise climática piorando a saúde do planeta.
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