12 Junho 2026
Cientistas de 17 países confirmam que o aquecimento global acelerou e o tempo para agir está acabando.
O artigo é de Henrique Cortez, jornalista, ambientalista e editor do EcoDebate, publicado por EcoDebate, 11-06-2026.
Eis o artigo.
Existe um tipo de notícia que a gente lê, fecha a aba do navegador e até gostaria de não ter lido. Não porque seja mentira, mas justamente porque é verdade demais. O mais recente relatório de Indicadores de Mudanças Climáticas Globais (IGCC), publicado na revista científica Earth System Science Data, é exatamente esse tipo de notícia.
Eu poderia resumir tudo numa frase e ir embora: estamos em maus lençóis. Mas achei que seria mais honesto e mais útil tentar conversar sobre o que esse relatório realmente diz, sem catastrofismo desnecessário, mas também sem minimizar a crise climática.
Quando os números deixam de ser abstratos
Mais de 70 cientistas, de 56 instituições espalhadas por 17 países, incluindo autores que contribuem diretamente com o IPCC (o painel climático da ONU), se debruçaram sobre os dados do clima global e chegaram a conclusões que merecem atenção de todos nós, não apenas de pesquisadores e formuladores de políticas públicas.
O que me impressionou logo de cara foi a escala dessa colaboração. Não é um estudo de um único laboratório com uma agenda específica. É uma fotografia coletiva, tirada de múltiplos ângulos, por pessoas que passam a vida inteira estudando exatamente isso. E a foto que elas revelaram não é bonita.
1,37°C: Uma fração de grau que muda tudo
O aquecimento global causado pela atividade humana chegou a 1,37°C em 2025. E a projeção é que ultrapasse a marca de 1,5°C em cerca de quatro anos, aquele limiar que a comunidade científica e os acordos internacionais, como o Acordo de Paris (2015), tratam como uma linha crítica que não deveríamos cruzar.
“Tá, mas 1,37 grau parece pouco…” Eu entendo essa reação. O problema é que o sistema climático não funciona como o nosso termostato doméstico. Uma variação de frações de grau na temperatura média global é suficiente para alterar padrões de chuva, intensificar secas, prolongar ondas de calor e desequilibrar ecossistemas inteiros. É como uma febre no corpo humano: 37°C é normal, 38°C é alerta, 40°C é emergência. A diferença de poucos graus muda tudo.
Além disso, a taxa de aquecimento está no nível mais alto já registrado: 0,27°C por década. Isso significa que o termômetro não está apenas alto, como está subindo mais rápido do que nunca.
Recorde atrás de recorde
2025 foi o terceiro ano mais quente desde que temos registros confiáveis de temperatura global. E 2024 deixou outra marca histórica nada celebrável: as emissões globais de gases de efeito estufa atingiram 56,8 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, o maior volume já registrado, impulsionado principalmente pela queima de combustíveis fósseis.
Para colocar em perspectiva, seria como se cada ser humano no planeta tivesse emitido cerca de sete toneladas de CO₂ em 2024. Crianças, idosos, populações que vivem em comunidades sem acesso à eletricidade, todos “contabilizados” numa conta que não escolheram abrir.
Há um detalhe técnico no relatório que me chamou a atenção e que merece menção, de que parte do aquecimento que estava sendo “mascarado” começa a aparecer agora, porque estamos reduzindo as emissões de dióxido de enxofre (SO₂), um poluente que, apesar de ser prejudicial à saúde, tinha um efeito colateral de resfriar levemente a atmosfera. Com a melhoria na qualidade do ar, esse “véu” se desfaz e mais calor fica exposto. É um paradoxo cruel da crise climática.
O nível do mar que sobe milímetro a milímetro
Desde 1901, o nível médio global dos oceanos subiu 23 centímetros. Em 2025, esse número chegou a um novo recorde. A taxa atual é de cerca de 1,8 milímetro por ano e está acelerando.
Eu sei que 1,8 mm soa irrisório. Mas pense que essas frações de milímetro se acumulam ao longo de décadas e décadas e o efeito não é linear. Comunidades costeiras em Bangladesh, ilhas do Pacífico, partes do litoral brasileiro, lugares que já sentem inundações mais frequentes, erosão costeira mais intensa, salinização de aquíferos que abastecem populações inteiras. Meios de subsistência destruídos. Ecossistemas de manguezal comprometidos.
Quando o relatório diz que esse aumento “pode parecer pouco”, mas já está prejudicando vidas reais, não é retórica científica. É um fato documentado em comunidades que têm nome e endereço.
O oceano também está febril
Uma das métricas recém incluídas no relatório é o número de dias com ondas de calor marinhas. Em 2025, o mundo registrou 65 dias de ondas de calor nos oceanos. Sessenta e cinco dias.
Os oceanos absorvem enorme parte do calor que lançamos na atmosfera e são, em certa medida, nossos maiores aliados na regulação climática. Quando eles aquecem demais, corais morrem em branqueamento em massa, espécies migram para latitudes mais frias, a cadeia alimentar marinha se desorganiza. E há um efeito de retroalimentação: oceanos mais quentes absorvem menos CO₂, o que significa mais gás na atmosfera, o que significa mais aquecimento.
O desequilíbrio energético da Terra, a diferença entre o calor que entra e o calor que consegue sair, continua crescendo. E os oceanos são o principal termômetro disso.
Três anos. É o que sobrou
Esta é a parte que me deixou mais desconfortável ao ler o relatório.
O chamado orçamento de carbono, a quantidade total de CO₂ que ainda podemos emitir para manter o aquecimento abaixo de 1,5°C, é estimado em 130 gigatoneladas de CO₂ a partir do início de 2026. Nos níveis atuais de emissões, esse orçamento se esgota em aproximadamente três anos.
Três anos não é uma geração. Não é tempo suficiente para uma transição energética completa, para mudar toda a matriz industrial global, para convencer governos e corporações de que o caminho atual é insustentável. É, honestamente, um prazo que já passou de urgente.
Isso não significa que o mundo vai acabar em três anos, porque o clima não funciona com gatilhos instantâneos. Significa que ultrapassar 1,5°C se torna cada vez mais provável, e com isso os impactos se intensificam em cascata. Mais eventos extremos, mais pressão sobre sistemas de saúde, mais insegurança alimentar e hídrica, mais refugiados climáticos.
E agora, o que fazer?
Essa é a pergunta que fica depois de ler um relatório como esse. E eu não tenho uma resposta simples e acho que ninguém tem.
O que o relatório deixa claro é que o problema não é falta de conhecimento. Os dados estão lá, precisos e atualizados por dezenas dos melhores cientistas do planeta. A questão é política, econômica, cultural. É sobre escolhas que sociedades fazem ou evitam fazer coletivamente.
Em escala individual, consumo consciente, pressão política, ecocidadania ativa, escolhas de mobilidade e alimentação importam. Mas o relatório é enfático que é necessário agora um aumento massivo dos esforços de descarbonização em escala sistêmica, nesta década, não na próxima.
Fechei a leitura do relatório sentindo o peso daqueles 130 gigatoneladas, como se fossem uma contagem regressiva. Não uma contagem para o fim do mundo, mas para um ponto de não retorno em que as escolhas que fazemos hoje vão definir que tipo de futuro vai ser possível para quem vem depois de nós.
Não é uma boa sensação. Mas acho que é uma sensação necessária.
Referência
Piers M. Forster, et al. Indicators of Global Climate Change 2025: annual update of key indicators of the state of the climate system and human influence. Data, 18, 3889–3933, 2026. Acesse aqui.
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