Entre enchentes e secas, clima desafia gestão da água no Brasil

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18 Setembro 2026

Caderno eleitoral do OC pede maior proteção de rios e aquíferos, controle dos usos da água e preparação efetiva para secas e inundações.

A reportagem é de Aldem Bourscheit, publicada por Observatório do Clima, 16-09-2026.

Quase não chove no Distrito Federal entre maio e setembro, mas rios, barragens e poços seguem abastecendo casas e lavouras. Em 2024, a seca durou 167 dias seguidos na região. Foi um recorde histórico, pois desde os anos 1980 as estiagens duram em média 80 dias, conforme o Instituto Nacional de Meteorologia.

Quase 3 milhões de pessoas vivem atualmente no DF. Nas outorgas mapeadas pela governo distrital, 66% abastecem essa população e 30% a irrigação de lavouras. Mas quando é pesada só a água bruta, ainda não tratada, os dois usos ficam próximos de 50%.

Seca e consumo afetam sobretudo bacias como dos rios Pipiripau, Preto, Descoberto e Santa Maria, essas duas entre as maiores fontes de abastecimento público. Quando a água cai a níveis críticos, a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do DF (Adasa) pode reduzir temporariamente as captações.

“A água não será suficiente para a utilização de todas as outorgas na sua plenitude onde já há restrição de disponibilidade”, destacou Gustavo Carneiro, superintendente de Recursos Hídricos da agência. A outorga define quanto cada usuário pode retirar de uma fonte de água.

Nessas situações, produtores podem reduzir áreas irrigadas ou adiar novos plantios, evitando investir em lavouras que talvez não tenham água suficiente até a colheita. A crise do clima torna esse planejamento mais difícil porque altera a distribuição das chuvas ao longo do ano.

“Os problemas se agravam com essa ocorrência mais errática das precipitações”, reconheceu Carneiro.

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Pressões semelhantes já aparecem em muitas regiões do país. Para enfrentá-las e reduzir o risco de falta ou excesso de água, a rede do Observatório do Clima (OC) reuniu propostas no caderno Recursos Hídricos, parte das “Propostas para a Política Ambiental Brasileira” para as eleições de outubro.

Os desafios variam bastante conforme o território. Um estudo da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) aponta que a oferta do recurso pode cair mais de 40% em partes do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste até 2040. No Sul, até pequenos aumentos são esperados, mas junto com maior variação nas chuvas, cheias e inundações, como as que arrasaram o RS há 2 anos.

Já análises do MapBiomas mostram que, em 2024, a superfície coberta por água no Brasil ficou 4% abaixo da média registrada desde 1985, enquanto oito dos dez anos mais secos da série ocorreram na última década. No Pantanal, a área coberta por água ficou 61% abaixo da média histórica.

Isso ajuda a explicar por que a água se tornou uma das faces mais visíveis da crise climática. “As pessoas percebem as mudanças climáticas por meio da água, por secas ou enchentes extremas”, reforçou Malu Ribeiro, diretora de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica.

Por isso, o caderno do OC pede que o risco climático pese mais nas decisões políticas sobre rios, reservatórios e águas subterrâneas, juntamente com maior controle dos usos e recuperação de áreas naturais.

Florestas, campos, áreas úmidas e outros ambientes ajudam a manter esse ciclo funcionando, pois seguram o solo, reduzem o assoreamento de rios e nascentes e favorecem a infiltração da água que alimenta fontes subterrâneas. “Nossos biomas são integrados e a água não existe sem a floresta e vice-versa”, resumiu Ribeiro.

A crise climática atinge também a qualidade da água. Temperaturas elevadas favorecem a proliferação de algas, a concentração de esgotos, agrotóxicos e fertilizantes. “Em muitas situações, o nosso problema não é só a falta de água, é também a baixa qualidade da água”, ressaltou Ribeiro.

Mas não se pode esquecer que a irrigação responde por 67% da água consumida no Brasil, segundo a ANA. A Lei das Águas (1997) determina que, quando o recurso escasseia, o abastecimento das pessoas e a água para matar a sede dos animais tenham prioridade. O caderno do OC defende por isso maior controle das grandes retiradas, inclusive de poços, e proteção das áreas que recarregam os aquíferos.

“Há uma superexploração do uso de água subterrânea e faltam investimentos em soluções baseadas na natureza para recarga desses aquíferos”, lembrou Ribeiro. “A conta não fecha se a gente continuar dessa maneira”, alertou.

A mesma lei criou a Política Nacional de Recursos Hídricos, hoje apoiada por cerca de 240 comitês de bacia. O OC avalia, porém, que essa gestão ainda é muito desigual pelo país, especialmente no Norte. Esse avanço irregular convive com pressões no Congresso, onde projetos que facilitam barramentos e intervenções em áreas protegidas às margens dos rios.

Em direção oposta, a PEC 6/2021 inclui o acesso à água potável entre os direitos fundamentais e, após aprovação no Senado e aval da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, aguarda uma comissão especial.

Enquanto esse debate avança no plano nacional, o DF já aplica algumas medidas de adaptação. A chamada “gestão adaptativa” ajusta as retiradas conforme a quantidade de água disponível e às previsões dos meses seguintes nas regiões de rios como Pipiripau, Jardim, Extrema, Descoberto e Santa Maria. Outra frente é reduzir perdas no abastecimento e na agricultura. Canais de irrigação vêm sendo trocados por tubulações e a Adasa cobra redução de vazamentos na rede de água tratada, inclusive com monitoramento por satélite e métodos acústicos.

“A gente vai conseguindo cada vez fazer mais com menos”, disse Carneiro.

Para Ribeiro, o próximo governo terá de ampliar esse tipo de preparação. “Nós precisamos tirar o Plano Clima do papel e fazer a gestão integrada do meio ambiente, das mudanças climáticas e dos recursos hídricos”, afirmou. A prioridade também deve chegar às eleições: “Água em todas as suas dimensões, água para os seres humanos, água para os ecossistemas, água para a vida.”

Confira o resumo das propostas do caderno “Recursos Hídricos”, do documento de eleições do OC:

  • Incorporação efetiva da perspectiva climática e de avaliação de risco no gerenciamento dos recursos hídricos
  • Implementação efetiva dos instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos, com prioridade ao consumo humano e dessedentação de animais em períodos de escassez
  • Fortalecimento da gestão integrada das águas superficiais e subterrâneas
  • Fortalecimento do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH)
  • Fomento à articulação entre SINGREH e o Sisnama
  • Criação de comitês de bacias hidrográficas na região Norte ou implementação de sistemas que possam exercer o gerenciamento dos recursos hídricos assegurando participação social
  • Reforço da atenção sobre controle ambiental dos empreendimentos que potencialmente causam outras formas de poluição hídrica
  • Reforço, pela ANA, das exigências aos prestadores de serviços de saneamento básico quanto ao tratamento dos esgotos sanitários.

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