17 Setembro 2026
O relatório da Global Witness classifica mais uma vez a Colômbia como o país com o maior número de homicídios, com 39 em 124 no mundo. O Brasil vem em seguida, com 26, o dobro do número registrado em 2024.
A reportagem é de Maria Mónica Monsalve S, publicada por El País, 16-09-2026.
O mapa da América Latina está manchado de pontos vermelhos que representam defensores da terra e do meio ambiente que foram assassinados. Cándido Esaú Román Pérez, líder na proteção de terras comunitárias em Cihuatlán, Jalisco, México, foi morto em novembro de 2025, e em fevereiro do mesmo ano, Suyapa Guillén e seu marido, José Luis Hernández, membros de uma cooperativa camponesa, foram assassinados no Caribe hondurenho. Ao longo do ano passado, Aida Damaris Flor Camayo, membro da Guarda Indígena em Cauca, Colômbia, foi assassinada, assim como um indígena Pataxó do Brasil, no sul da Bahia. Com 85% dos casos confirmados pela Global Witness ocorrendo em 2025, a região continua sendo a mais perigosa para defensores, uma situação que não mudou desde que a organização internacional começou a publicar seus relatórios em 2012.
Intitulado "Poder Coletivo", o documento indica que, globalmente, pelo menos 124 defensores da terra e do meio ambiente foram assassinados em 2025: um número menor do que nos dois anos anteriores (142 em 2024 e 196 em 2023). E embora isso pareça um sinal positivo, Toby Hill, autor principal do relatório, alerta que "devemos ter cautela ao interpretar esse indicador como uma melhoria". Os números podem estar subestimados, pois alguns assassinatos não são denunciados e também são mais difíceis de investigar em contextos repressivos e autoritários como o que se intensificou nos últimos anos.
Durante o ano de 2025, as disputas de terras foram responsáveis por mais da metade das mortes (84), seguidas pela oposição a projetos extrativistas, com 11 relacionadas à mineração, oito à exploração madeireira e seis ao agronegócio. Quase três quartos das vítimas eram indígenas e pequenos agricultores, e sete dos indígenas mortos eram membros da guarda comunitária. Dos 124 homicídios verificados pela Global Witness, 109 eram homens, 14 eram mulheres e um era uma pessoa não binária.
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Na América Latina, a pesquisa indica que a violência contra defensores dos direitos humanos foi exacerbada pelo crime organizado. Nos seis países com o maior número de casos, cinco dos quais na região, foi possível rastrear as mortes até essas ligações. Só na Colômbia, observa Hill, “pouco menos de um terço do total de casos ocorreu”, com 39 assassinatos.
Colômbia, a mais mortal
“De acordo com nossos dados, a Colômbia voltou a ser o país mais violento”, acrescenta Hill. Embora o número de homicídios tenha diminuído em comparação com anos anteriores — 48 foram registrados em 2024, enquanto 2023 registrou um recorde de 79 —, o país permanece consistentemente entre os mais violentos. Quase metade das vítimas eram indígenas e, em 15 casos, os mortos eram agricultores.
“Como reflexo disso, 35 das 39 mortes estavam relacionadas a conflitos de terras”, afirma a Global Witness. Em 17 casos, há indícios de envolvimento do crime organizado e, em cinco deles, assassinos de aluguel foram os responsáveis pelos homicídios.
Cauca, mais uma vez, é o departamento com o maior número de homicídios: 13, incluindo quatro membros da Guarda Indígena. Desde 2012, quando a Global Witness começou a fazer relatórios, 171 assassinatos relacionados a defensores do meio ambiente e dos direitos à terra foram documentados somente neste departamento. “A Colômbia está no centro do tráfico de cocaína”, diz Hill. “E temos visto repetidamente como a presença do crime organizado está ligada a uma maior letalidade nas represálias.”
Brasil e Honduras dobram seus números
Com 26 homicídios no Brasil e 12 em Honduras, ambos os países compartilham uma característica comum: dobraram o número de mortes em comparação com 2024. Honduras, além disso, continua apresentando a maior taxa de homicídios em relação à sua população.
No país sul-americano, acrescenta o relatório, a maioria dos casos está ligada ao reconhecimento e à demarcação de território ancestral: 11 dos mortos eram agricultores e sete eram indígenas. Quase metade das mortes relatadas concentrou-se nos estados amazônicos de Rondônia e Pará.
Enquanto isso, em Honduras, a maioria dos assassinatos ocorreu no departamento de Colón, na costa caribenha do país, uma área estratégica para as rotas de tráfico de cocaína. As dez pessoas mortas nesse departamento eram agricultores.
Entre os países que a Global Witness está monitorando em relação a esse tipo de violência estão México, Guatemala, Peru, Nicarágua e Equador. No México, o número de assassinatos caiu de 19 para 10, mas outras formas de violência se tornaram mais graves. Citando o Centro Mexicano de Direito Ambiental, o relatório menciona 107 casos de criminalização, além de desaparecimentos, estigmatização e intimidação. Na Guatemala, dos oito assassinatos, dois estavam ligados à oposição das vítimas a projetos de mineração e dois a protestos contra os impactos de barragens hidrelétricas. E no Equador (três casos), dois envolveram indígenas que participavam de uma manifestação contra a repressão estatal em suas comunidades e o aumento dos preços dos combustíveis.
“O presidente equatoriano Daniel Noboa usou o exército para reprimir protestos sociais”, afirma o relatório, destacando o atual clima político da região e as implicações da ascensão de governos autoritários ao poder. Na Nicarágua de Ortega, onde foram relatados apenas três casos, a organização observa que as severas restrições às liberdades civis “refletem as dificuldades de acesso a dados em locais controlados por regimes altamente repressivos”. O fato de os dados sobre assassinatos não estarem disponíveis em muitos lugares não significa que eles não estejam acontecendo.
Em todo o mundo, mas especialmente na América Latina, os governos precisam considerar políticas voltadas para a mudança dessa situação específica. A Global Witness oferece algumas pistas, como a garantia de direitos coletivos, a consulta prévia e a criação de unidades de investigação especializadas. A organização também destaca o papel da autoproteção desenvolvida por grupos indígenas como os do Peru, onde quatro assassinatos foram confirmados. Lá, na Amazônia, as comunidades Kakataibo patrulham seu território e monitoram incursões ilegais para se protegerem da violência. “Em nossa cultura, a tarefa de defender nossos recursos e território é ensinada desde cedo. Mas para a próxima geração, essa tarefa é mais perigosa do que nunca”, afirma Segundo Ispón, comandante da Guarda Indígena Kakataibo do Peru.
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