O que está em jogo no processo eleitoral em curso e no dia seguinte? Artigo de Guilherme C. Delgado

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17 Setembro 2026

"Para o campo democrático, como visto no quadriênio do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019/2022), o que está em jogo é o próprio processo democrático. O próprio candidato Flávio Bolsonaro e todos os demais candidatos com programas político-eleitorais muito parecidos se apoiariam no 2º turno, se tal ocorresse, exceto, obviamente, o candidato Lula da Silva", escreve Guilherme C. Delgado, em artigo publicado por Blog Ignatiana, 15-09-2026.

Guilherme C. Delgado é doutor em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas (1984), atuando principalmente nos seguintes temas: agricultura, política agrícola, política social, previdência social e previdência rural.

Eis o artigo.

Não há como deixar de tratar do processo eleitoral ora em curso. Mas, ao fazê-lo, precisamos ir além daquilo que é dito e repetido nas campanhas eleitorais em curso, cuja missão é muito mais convencer, do que esclarecer o eleitor, a exemplo das campanhas publicitárias em relação ao consumidor.

Vou começar por um assunto, que a maioria das pessoas se considera suficientemente esclarecida, com base nos resultados das pesquisas eleitorais, divulgadas nessa conjuntura quase que diariamente, sobre os resultados eleitorais previsíveis para presidente da República. Esses resultados, divulgados sempre para 1º e 2º turnos, contêm resultados estatisticamente confiáveis dentro da margem de erro admitida, até prova em contrário; mas, em todos eles, permanece uma lacuna de comunicação. Apresentam-se sempre nos resultados do primeiro turno, os percentuais que os candidatos obtiveram na pesquisa, calculados sobre os votos totais, quando todos os institutos de pesquisa sabem e meios de comunicação idem, que o critério eleitoral correto é dos votos válidos (votos válidos = votos totais (-) brancos e nulos).

Ora, se os votos brancos e nulos representarem 20% dos votos totais (atualmente estão em torno de 18% do total nas várias pesquisas, mas tendem a aumentar dado o número de indecisos); um candidato ao Executivo com 40% dos votos totais pode já estar eleito no 1º turno (40%/80% = 50%), dado que o critério eleitoral válido para vitória neste turno é de é de 50% dos votos válidos mais um eleitor.

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Por outro lado, como todos os institutos de pesquisa e meios de comunicação estão vivamente interessados na eleição do 2º turno, por razões que a razão instrumental conhece, omite-se do leitor um dado informativo, que no mínimo seria útil conhecer antes do 1º turno, até mesmo porque depois já não teria pertinência e relevância.

O título deste artigo sugere que tenhamos algo a dizer com relação à pergunta que ali se propõe, mas aparentemente o exemplo citado (comunicação das pesquisas eleitorais) seria algo paralelo, sem relação com o que está em jogo no processo eleitoral e no dia seguinte. Ademais, há uma certa pressa em apontar no 2º turno a igualdade de proporções eleitorais entre o candidato Lula da Silva de centro-esquerda (compulsoriamente no 2º turno) e o candidato Flávio Bolsonaro (ultradireita).

Para o campo democrático, como visto no quadriênio do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019/2022), o que está em jogo é o próprio processo democrático. O próprio candidato Flávio Bolsonaro e todos os demais candidatos com programas político-eleitorais muito parecidos se apoiariam no 2º turno, se tal ocorresse, exceto, obviamente, o candidato Lula da Silva.

Discussões explícitas ou implícitas sobre democratização dos meios de comunicação de massa, direitos sociais, direitos humanos em geral e desigualdade social estão interditadas ao ‘dia seguinte’ de quem não dá valor a estes conceitos. Igualmente temas caros ligados à soberania nacional idem; até mesmo porque a ultradireita brasileira alia-se automaticamente às propostas do presidente Donald Trump, na linha daquilo que em outros tempos denominava-se “entreguismo”.

Para o campo democrático de centro-esquerda e mesmo para o campo conservador, que se mantém fiel à Constituição Federal de 1988; e para a imensa maioria da população que sobrevive sob o tacão da desigualdade social sistêmica, não há como duvidar sobre opção eleitoral a seguir. Isto se põe, mesmo com plena consciência de que ‘o dia seguinte’ ao processo eleitoral, teria que ser disputado, como tem sido nos governos do PT, onde a hegemonia econômica (que não disputa eleições) impõe limites que precisam ser superados.

Finalmente, está em jogo uma opção de lógica política. Entre seis candidatos, com pelo menos 1,0% de preferências eleitorais, segundo os institutos de pesquisa ativos (Lula da Silva, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Augusto Cury, Romeu Zema e Renan Santos), cinco deles toleram a intolerância da ultradireita; apenas o Lula da Silva se compromete explicitamente e também pragmaticamente com a agenda de democracia e soberania, abrindo espaço para um “dia seguinte” em disputa.

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